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Curiosidades Bíblicas #04 (O vinho na Bíblia)

E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar;

E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.

E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.

E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu.

E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.

E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando?

Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?

Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Asia,

E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos,

Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.

E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?

E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.
Atos 2:1-13

Um texto muito conhecido de todos nós os cristãos e que, de forma muito implícita, nos revela algumas coisas acerca tanto do ministério de Cristo como também dos próprios apóstolos.

Não trataremos acerca do batismo com Espírito Santo, mas sim do vinho no Novo Testamento.

Muitos e muitos cristãos tomam o primeiro milagre de Cristo como base para sustentar o fato de que cristãos podem sim ingerir bebidas alcoólicas.

Mas não é isso que vemos, tanto no ministério de Cristo, quanto no ministério dos apóstolos e, também, neste trecho tão estimado pelos cristãos.

E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. Atos 2:12-12

Note que ao receberem o revestimento de poder os discípulos começaram a falar nas línguas dos povos que estavam em Jerusalém para adorar, mesmo sem possuírem nenhum conhecimento ou estudo.

Aqueles que ali estavam se admiraram ao ouvir as boas novas sendo proclamadas em sua língua:* “Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?”*

Logo em seguida vemos havia ali alguns que, assim como hoje, começaram a zombar da fé e do poder do Espírito concedido aos discípulos dizendo: “E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.”

Note que eles estavam zombando, em todos os aspectos, pois mosto trata-se do suco puro da uva e, estes homens, sabiam que tanto Jesus quanto seus discípulos tomavam apenas este tipo de vinho.

Mas e o milagre da transformação da água em vinho?

O próprio milagre de Cristo sustenta a afirmação de que tanto Ele quanto seus apóstolos não bebiam vinho fermentado:

E disse-lhe: Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então, o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. João 2:10

De conformidade com vários escritores antigos, o vinho “bom” era o vinho mais doce, vinho este que podia ser bebido livremente e em grandes quantidades sem causar danos (i.e., vinho cujo conteúdo de açúcar não fora destruído através da fermentação). Stamps, Donald C. – Comentário “Vinho Bom”, Bíblia de Estudo Pentecostal, pág. 1572

Ou seja, de início, já podemos desmentir o fato de que Cristo teria proporcionado grandes quantidades de vinho embriagante, o vinho em questão era o próprio mosto. Além disso afirmar que Cristo teria iniciado seu ministério através de um milagre que levasse as pessoas ali presentes à um estado de embriaguez seria, no mínimo, desrespeitoso e, por que não dizer, falta de conhecimento.

Visto que o adjetivo “bom”, do versículo 10, é traduzido do grego kalos, ou seja, “moralmente excelente e apropriado”. Caso deseje conferir deixarei o link da bíblia grego-inglês interlinear (Acesse aqui).

No Antigo Testamento encontramos claras referências que nos apresentam orientações divinas quanto ao vinho embriagante:

O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio. Provérbios 20:1

Não olhes para o vinho quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. Provérbios 23:31

Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro! Habacuque 2:15

Em Romanos 14:21 o apóstolo Paulo nos diz:

Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou seenfraqueça.

E, posteriormente Paulo escreve a Timóteo:

Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades. 1 Timóteo 5:23

Estaria, Paulo, apoiando a ingestão de vinho no meio cristão?

Devemos deixar claro que, para que não ocorra nenhuma má interpretação, precisamos compreender que, no grego, tanto o vinho fermentado quanto o não fermentado é identificado pelo mesmo substantivo, “oinos”, no entanto, com base no contexto em que ele se encontra conseguimos distinguir qual vinho o escritor está falando. Por exemplo:

E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito. Efésios 5:18

Nos originais, em grego, a tradução de vinho é oinos, no entanto, através do contexto compreendemos que o apóstolo Paulo se refere ao vinho embriagante “não vos embriagueis com vinho, em que há contenda”.

Já em Apocalipse 19:15 vemos:

…e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso.

Embora o substantivo seja “oinos” o vinho aqui descrito trata-se do suco de uva puro, não alcoólico visto que:

O vinho não fermentado é o único ‘fruto da vide’ verdadeiramente natural, contando aproximadamente 20% de açúcar e nenhum álcool. A fermentação destrói boa parte do açúcar e altera aquilo que a videira produz. O vinho fermentado não é produzido pela videira” Stamps, Donald C., O Vinho nos Tempos do Novo Testamento (1) – Bíblia de Estudo Pentecostal, pág. 1517

Em suas cartas o apóstolo Paulo não oficializa a ingestão de vinho fermentado, pelo contrário, em Romanos 14:21, ele orienta para que, se necessário, os cristãos não bebam o vinho não fermentado, visto que na cultura pagã em que a igreja romana estava inserida o uso tanto de vinho quanto de outras bebidas embriagantes eram extremamente comum.

Embora o uso de vinho não embriagante fosse inofensivo para alguns cristãos, este comportamento podia influenciar os cristãos mais fracos a ingerirem vinho fermentado. Daí a orientação do apóstolo para que, por amor aos mais fracos, se fosse necessário alguns cristãos deveriam deixar de tomar vinho não embriagante.

Na carta a Timóteo, ao mesmo tempo que o apóstolo o orienta a ingerir vinho não fermentado para fins medicinais (1 Tm 5:23), Paulo se opõe ao uso da bebida embriagante (1 Tm 3.3).

Quanto à orientação de Paulo podemos fazer duas observações:

1) O vinho utilizado para fins medicinais era do tipo não embriagante, conforme os escritos de Ateneu “Que tome vinho doce, ou misturado com água, ou aquecido, especialmente do tipo chamado protropos (o suco de uva antes de espremê-las), por ser bom para o estômago, porque o vinho doce (oinos) não deixa a cabeça pesada” (Ateneu, Banquete, 2.24).

2) O apóstolo estaria entrando em contradição com seus ensinamentos caso estivesse orientando Timóteo a ingerir vinho fermentado, visto que ele diz no capítulo três versículo três: “Não dado ao vinho…”. Esta expressão vem do grego “me paroinon”. “Me” significa “não” e “paroinon” é uma palavra composta que significa, literalmente, “ao lado do vinho”.

Podemos concluir, portanto, que em momento algum as Sagradas Escrituras apoiam ou registram Cristo e seus discípulos ingerindo ou pregando a ingestão de vinho embriagante.

Além disso cabe lembrar que o vinho ingerido pelos judeus eram completamente diferente dos vinhos que encontramos hoje no mercado, pois de acordo com as tradições judaicas, sendo registradas em obras como o Talmude, eles nunca bebiam o vinho puro, mas sim diluído em água sendo que alguns rabinos orientavam a diluir em uma proporção 3 por 1 e outros em até 10 por 1.

Ou seja, cristãos que bebem e se utilizam destes trechos para sustentar suas práticas estão equivocados ao mesmo tempo que ferem os mandamentos de Deus.

Que o Senhor lhes abençoe.

Jamil Filho

Jamil Filho

Servo de Cristo Jesus, proclamador das Boas Novas, fundador e editor do Euaggelion.

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