/ Defesa da Fé

Creia no dízimo e será salvo tu e tua casa...

“E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.” (Atos 16.31)

Após algumas semanas sem nenhum artigo, retornamos com um assunto que ainda gera muita discórdia entre a Igreja de Cristo: a obrigatoriedade do dizimo. Cristo ou os Apóstolos instituíram o dízimo à igreja? Existe algum fundamento bíblico que sustenta o dízimo obrigatório no Novo Testamento? E ainda, se não dizimar não eu não serei salvo?

Qual era a destinação do dízimo no Antigo Testamento?

Antes de entrarmos no mérito da questão devemos, primeiramente, compreender qual era o papel do dízimo no Antigo Testamento:

O dízimo, obrigatório apenas à Israel, ao contrário do que a grande maioria dos cristãos imaginam era, na realidade, a décima parte daquilo que eles produziam, ou seja, o dízimo que era consagrado a Deus era retirado dos cereais, rebanhos, hortaliças e tudo que eles produziam (Lv 27.30-32; Hb 7.1-10).

Note que o dízimo era destinado para o sustento dos levitas (Nm 18.21-24), dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas (Dt 14.28-29). E o dízimo de hoje!?

Muitos pastores, e eu já presenciei isto, colocam o fiel na parede forçando-o a dizimar, senão “o diabo terá poder para destruir os seus bens materiais”.

Certo, mas qual é a destinação deste dinheiro? Vai apenas para o sustento das regalias do pastor ou é utilizado para expansão do Evangelho e apoio aos órfãos, viúvas e obreiros que dedicam sua vida à obra de Deus?

Muito se fala na obrigatoriedade do dízimo e, muitos vão além, afirmam que ele é um dos quesitos que garante a salvação. Não sei se algum pastor que defende com unhas e dentes e, quem sabe, até coloca a igreja na parede para lhe dar o dízimo, estará lendo, mas quero deixar claro que:

  1. O dízimo (décima parte) era obrigatório apenas à Israel. No Novo Testamento encontramos referências de contribuições voluntárias dos cristãos àqueles que necessitavam sendo que, tais contribuições, eram proporcionais aos bens:

“No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar.” (1 Coríntios 16:2)

  1. O povo israelita dizimava, basicamente, cereais, as primícias dos rebanhos e tudo o que produziam:

“Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo.” (Deuteronômio 14:22)

  1. O dízimo era destinado para o sustento dos levitas, dos necessitados da nação de Israel bem como para a manutenção do Templo:

“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação.” (Números 18:21)

“Porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao Senhor em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão.” (Números 18:24)

“Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem.” (Deuteronômio 14:28-29).

Em suma, quer introduzir a obrigatoriedade do dízimo!? Pois bem, então todos aqueles que dedicam a vida na obra e os necessitados da igreja também deverão usufruir dele. Pois eu dizimo para o sustento da obra de Deus!

Quem não dizima não será salvo?

Há algum tempo cheguei a ouvir que “Quem não dizima não será salvo, pois está roubando a Deus”.

Primeiramente deixemos claro as condicionantes bíblicas para a salvação:

  1. Crer no Senhor Jesus e em seu Sacrifício Vicário na Cruz do Calvário (João 3.36; Romanos 10.11);
  2. Confessar com a boca que Cristo é o Filho de Deus e Único Caminho para os céus e crer nEle de todo o coração (Romanos 10.9-10);
  3. Produzir frutos dignos de arrependimento;
  4. Permanecer firme na fé e nos caminhos do Senhor (Mateus 10.22, 24.13; 1 Coríntios 9.24; Hebreus 12.1).

Em momento algum a Bíblia diz que “Aquele que **entrega o dízimo tem a vida eterna, mas aquele que não entrega não verá a vida, **mas a ira de Deus sobre ele permanece”, não encontramos nenhuma declaração direta e indireta acerca do dízimo obrigatório à Igreja de Cristo.

O único princípio da salvação encontra-se na confissão dos pecados a Deus e na aceitação do Sacrifício de Cristo Jesus no Calvário. O Único Caminho da
salvação é Cristo:

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.” (João 3.36)

Se colocarmos um item a mais ao princípio de salvação estaremos assumindo para a nossa eternidade a condenação, pois as Sagradas Escrituras é muito clara quanto aos requisitos para alcançarmos a vida eterna. Caso contrário Jesus teria anunciado durante seu ministério que, além de crer nEle, deveríamos entregar o dízimo a fim de garantir a nosso espaço no céu.

Este tipo de pregação me faz recordar da Idade Média, das Indulgências da Igreja Católica. “Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do purgatório”. A única diferença, no entanto, é que todo mês o cristão deve comprar seu lote no céu com o décimo de sua renda.

A Bíblia é muito clara ao nos dizer que nossa salvação e vida cristã:

  1. Não pode ser comprada;
  2. Não custa um décimo do salário;
  3. É selado pelo sangue de Cristo e não por bens materiais:

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pedro 1.18)

Obrigação x Adoração

Vamos deixar claro que o dízimo, nos tempos da Igreja de Cristo, ao se tornar obrigatório anula a adoração.

Sabemos que Deus não nos obriga a servi-lo, a crer em sua Palavra e, nem muito menos, a seguir o que nela está escrito. Possuímos em nossas mãos a liberdade de escolher se sirvo a Ele ou não.

No entanto, opondo-se a este princípio está o dízimo obrigatório. Se é uma expressão de louvor e se parte de Deus eu não sou obrigado a entrega-lo, afinal cumprir este mandamento seria, na minha interpretação bíblica, uma das maneira de louvar ao Senhor. Nada que é obrigatório se enquadra em louvor ou adoração.

Em momento algum vemos, nas Sagradas Escrituras, Deus forçando alguém a obedecê-lo ou adorá-lo, pelo contrário, Ele apresenta os caminhos, alerta acerca das consequências e, por fim, entrega em nossas mãos a opção de escolha (Deuteronômio 11.26).

O dízimo obrigatório não significa nada diante de Deus:

Se nos firmarmos na “doutrina” do dízimo como sendo o modelo de vida cristã e, posteriormente, o determinante para a salvação da alma estaremos, ao contrário de que pensamos, entrando no mesmo caminho que os fariseus entraram.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas.” (Mateus 23.23)

Conforme dito anteriormente, verificamos neste versículo que o dízimo não era apenas a décima parte do dinheiro, mas sim de tudo o que os israelitas produziam.

E Jesus condena os fariseus por isso, eles se tornaram religiosos, apenas cumpriam a lei, mas não a praticava com todas as suas forças e com todo o coração:

“Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé”

Jesus está dizendo, em outras palavras: “De que adianta você dizimar até as coisas mais míseras e deixar de observar a Palavra, não auxiliar o seu próximo e não crer verdadeiramente em Deus?”

Se acha que Cristo encerra aqui está redondamente enganado. O trecho seguinte do versículo 23 é um tapa no rosto dos “pregadores do dízimo”:

“…deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.”

Note que Cristo está dizendo que, diante de Deus, era melhor que eles auxiliasse os necessitados, que servissem ao Senhor com coração verdadeiro e humilde do que dizimar apenas para cumprir a Lei.

O que deveria ser feito como uma demonstração de louvor e gratidão ao Senhor Deus se tornou apenas dogmas religiosos a serem cumpridos.

Para Deus o amor ao próximo, a misericórdia para com os necessitados e a expansão do Evangelho é mais proveitosa do que, todo o mês, eu entregar, por obrigatoriedade, dez por cento do meu salário:

“A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.” (Tiago 1.27)

Então o dízimo obrigatório não existe?

Sim, existe! Para a nação de Israel no Antigo Testamento.

E todo pastor que prega a obrigatoriedade do dízimo se apoiando nos mandamentos entregues à nação de Israel deve, obrigatoriamente, seguir todos os demais mandamentos, “Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto tornou-se culpado de todos.” (Tiago 2:10). Sendo que, os mandamentos entregues à Israel não se resume aos dez mandamentos que conhecemos e que Deus escreveu no Monte Sinai, mas sim, conforme a tradição judaica, em 613 mandamentos ou preceitos.

Se lermos os escritos do Apóstolo Paulo, observamos que, ao invés do dízimo, ele anuncia “ofertas” e, além disso, determina um ponto essencial ao se referir ao valor quantitativo dela:

“No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que se não façam as coletas quando eu chegar.” (1 Coríntios 16.2)

Note que Paulo orienta os irmãos a ofertarem de acordo com a sua propriedade, ou seja, aquele que possui condições de ofertar mais, propondo isto em seu coração, o faça e quem não possuir tal condição que faça de acordo com o que possui.

Percebam, no entanto, que estas ofertas não iam para o “bolso” do Apóstolo Paulo:

“Ora, quanto à coleta que se faz para os santos…” (1 Coríntios 16.1)

“E, quando tiver chegado, mandarei os que, por cartas, aprovardes, para levar a vossa dádiva a Jerusalém.” (1 Coríntios 16.3)

Tudo que o que havia de ser arrecadando era destinado à Igreja em Jerusalém onde os cristãos passavam por necessidades. E não padeciam porque gastaram demais com cartões de créditos e estavam sendo cobrados, mas sim por causa do amor ao Evangelho de Cristo.

O verdadeiro dízimo

Não sou contra os dízimos e as ofertas, sou contra tudo aquilo que foge das Sagradas Escrituras e, conforme observamos, sabemos que tanto o dízimo quanto a oferta trata-se de uma demonstração de gratidão e louvor a Deus.

Defendo o dízimo desde que seja voluntário, desde que seja entregue sem nenhuma pressão por parte dos mercenários que entretêm os bodes e desde que seja destinado à manutenção da obra de Deus.

Se a salvação da alma estivesse vinculada ao fato de eu entregar ou não o dízimo então Cristo morreu em vão, as profecias acerca do nascimento, do ministério e do Sacrifício de Jesus foram uma perda de tempo, o Evangelho anunciado pelos apóstolos é uma falácia e, devido à isso, a Bíblia está cheia de mentira, afinal tudo se resume em entregar um décimo da minha renda não haveria a necessidade de seguirmos a mais nada do que está escrito.

Se tudo se resume em comprar todo mês um pedaço do céu já não faz sentido a santificação, comunhão com Deus e a meditação em sua Palavra.

Deixemos de ser IGNORANTES, o Evangelho de Cristo não se limita ao “evangelho” podre da prosperidade. Este evangelho falido que prega apenas a Terra está fadado, juntamente com seus líderes e seguidores, ao inferno e ao Lago de Fogo e Enxofre.

Tudo se resume em Cristo Jesus, em sua obra, seu ministério, sua morte, sua ressurreição e seu retorno. Não há mais nada a ser acrescentado! E seja anátema toda doutrina ou dogma que impõe ao fiel uma condicionante humana à salvação.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2.8)

Em suma, não há erro algum em dizimar ou ofertar na Igreja, no entanto devemos ter em mente que, ao fazê-lo, não garantimos nossa salvação. Somente através de Cristo Jesus encontramos a Verdadeira Vida.

Fique na Paz de Cristo Jesus e que o Senhor Deus vos abençoe.

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, fundador e editor do Euaggelion.

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