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Trechos difíceis da Bíblia - #01 (A Rebelião de Corá)

A partir de hoje estaremos postando uma série de artigos dedicados ao estudo de trechos difíceis da Bíblia ou que, superficialmente, colocam em xeque as bases da fé cristã. Não se trata exatamente de curiosidades ou de algum assunto que desperte um interesse imediato, porém não deixa de ser trechos interessantes e que, de alguma, maneira nos auxiliarão a compreender melhor acerca de Deus e da Sua Palavra.

Há algum tempo venho planejando escrever acerca destes textos e descobrir, ao seu lado, algumas características e detalhes acerca de um dos atributos mais fascinantes da pessoa de Deus, Sua Santidade.

Em um artigo mais antigo (“O pecador permanece debaixo da ira, e não do amor de Deus”) apresentei algumas considerações acerca da Santidade do Senhor e, antes de estudarmos as passagens, creio que seja necessário retornar aos pontos abordados.

Para isso tomaremos como base, novamente, Isaías 6. Creio que todos conhecemos este capítulo.

Isaías estava no Templo e, em uma visão, ele vê toda a Glória de Deus, Sua Santidade e a reverência dos seres celestiais diante do Senhor Todo Poderoso.

Os Serafins, conhecidos também como os Seres Ardentes, cobriam seus rostos e pés diante da Glória do Senhor. Será que compreendemos esta passagem? Os anjos que, continuamente, estão diante de Deus não são capazes de expor seus rostos diante dEle.

C. Sproul em seu livro “Deus é Santo”, nos leva a compreender que a Santidade de Deus não é um mero atributo moral, pelo contrário, trata-se de uma característica transcendental do cerne da Trindade. Transcendental, pois ultrapassa os limites tangíveis pela lógica humana.

É impossível desassociar Deus e Santidade, Ele é puro por natureza. Não a pureza como conhecemos que é resultado de um processo de purificação. Deus jamais foi e jamais será impuro. Sua Santidade não é um processo de contínua separação, tal como a nossa, mas sim um estado, uma característica, um atributo eterno e imutável.

Não sei se consegui abrir seu entendimento para o quão profundo é afirmar que Deus é Santo. Por mais que estudemos e procuremos conhecer acerca de Deus mais percebemos que, realmente, não conhecemos absolutamente nada.

A compreensão da Santidade de Deus foi tamanha em Isaías que ele parou de pronunciar julgamentos contra os outros e reconheceu que, assim como toda Israel, ele também estava em extrema corrupção (v. 5).

Ele sabia quais seriam as consequências daquela visão. Isaías sabia que a Glória de Deus o extirparia da Terra (Êxodo 33:20). Isaías reconheceu sua pequenez diante de um Deus cujos anjos não cessam de clamar “Santo, Santo, Santo”.

Sabendo da extrema Glória e Santidade do Senhor e da gravidade do pecado diante dos olhos de um Deus Puro partamos para os “trechos difíceis” da Bíblia.

Como disse no início, será uma série de publicações. Começaremos no Antigo Testamento e a medida que estudemos e aprendermos acerca dos eventos, julgamentos e ações de Deus no passado partiremos para o Novo Testamento.

Hoje nosso texto em foco será Números 16. Esta passagem é uma, das dezenas de trechos do Antigo Testamento, que talvez possa levantar questionamentos acerca da severidade do juízo de Deus. Trata-se da rebelião de Corá, Datã e Abirão.

Estes três homens e mais duzentos e cinquenta israelitas se levantaram no meio do arraial e questionaram o chamado de Moisés e Arão.*
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“Ora, Corá, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, juntamente com Datã e Abiram, filhos de Eliabe, e Om, filho de Pélet, filhos de Rúben, tomando certos homens, levantaram-se perante Moisés, juntamente com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, varões de renome; e ajuntando-se contra Moisés e contra Arão, disseram-lhes: Demais é o que vos arrogais a vós, visto que toda a congregação e santa, todos eles são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a assembleia do Senhor?” (Números 16:1-3)

Eles questionaram a veracidade da Palavra de Deus dita a Moisés e procuraram benefícios próprios.

“ deduzimos que houve o lado eclesiástico e o lado civil nesta rebelião. Coré persuadiu companheiros levitas e outros a se lhe juntarem na busca da função sacerdotal (vs. 9, 10). Ao mesmo tempo, os rubenitas, Datã e Abirão, voltaram-se contra Moisés por causa de seu aparente fracasso em lhes oferecer os campos e as vinhas da Terra Prometida (v. 14). O pensamento de terem de passar o resto de suas vidas no deserto devia lhes fazer parecer que a rebelião era um caminho de escape.” (Comentário Bíblico Moody)

iante das acusações e questionamentos Moisés convoca estes três homens a se apresentarem diante do Senhor (v. 5-7). Mais adiante vemos que Datã e Abirão não compareceram perante Moisés (vs. 12-14). Corá, porém, junto de duzentos e cinquenta levitas subiram ao Tabernáculo com incensários em suas mãos (vs. 18-19).

Aparentemente e humanamente falando o juízo sobre Corá, Natã e Abirão foi extremamente terrível e cruel. No entanto, a Palavra de Deus nos revela em Judas v. 11:

“Ai deles! porque foram pelo caminho de Caim, e por amor do lucro se atiraram ao erro de Balaão, e pereceram na rebelião de Coré.”

Percebam que Judas apresenta três nomes ao declarar a condenação. “Ai deles!”. Caim, que por inveja matou, injustamente, seu irmão Abel. Balaão que, por ganância, ensinou Balaque a lançar tropeço sobre o povo de Israel e, por fim, Corá, ou Coré que, por descontentamento pessoal, questionaram a instituição divina de Moisés.

O pecado destes homens foi rapidamente punido por Deus, pois eles questionaram a Palavra do Senhor. Se levantaram contra o propósito de Deus em libertar a nação de Israel e de instituir o cenário para que o Messias morresse pelos pecados.

Em Números 16:3 lemos:

“e ajuntando-se contra Moisés e contra Arão, disseram-lhes: Demais é o que vos arrogais a vós, visto que toda a congregação e santa, todos eles são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a assembleia do Senhor?”

Notem que eles questionaram o fato de Moisés ser o escolhido por Deus, “toda a congregação e santa”. Eles não questionaram a Moisés acerca do seu chamado, eles questionaram a Deus, duvidaram de Sua Palavra e levaram o povo a não acreditar naquilo que o Senhor lhes havia dito.

No versículo 28 e 30 vemos que Moisés não tentou defender seu chamado por métodos humanos, mas confiou que o próprio Deus mostraria ao povo aquele que Ele escolhera para conduzir o povo até Canaã:

“Então disse Moisés: Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todas estas obras; pois não as tenho feito de mim mesmo. Se estes morrerem como morrem todos os homens, e se forem visitados como são visitados todos os homens, o Senhor não me enviou. Mas, se o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra abrir a boca e os tragar com tudo o que é deles, e vivos descerem ao Seol, então compreendereis que estes homens têm desprezado o Senhor.”

Nos versículos seguintes vemos Deus abrindo a terra para consumir a Corá e toda sua casa (v.31-33) e, logo em seguida, o fogo do Senhor consumiu aos duzentos e cinquenta homens que ofereciam incenso (v. 35), assim como em Levítico 10:1-2, Deus consumiu aos duzentos e cinquenta homens, pois não estavam sob o propósito e direção do Senhor.

Alguns versículos adiante vemos o tamanho do estrago que estes três homens fizeram no meio do povo de Israel.

“Mas no dia seguinte toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Arão, dizendo: Vós matastes o povo do Senhor.” (Números 16:41)

Eles não apenas questionaram a Deus, mas também incitaram o povo em sua rebelião. Devemos aprender que um Deus Santo exige nossa reverência, não devemos, assim como Corá, Datã e Abirão, indagar as ordenanças do Senhor com base em nossos interesses pessoais.

Por causa da rebelião e da ganância destes três homens catorze mil e setecentas almas pereceram (v. 49). Sobre eles está, não apenas a condenação de se rebelar contra o Criador, mas também o sangue de mais de dez mil almas.

Isso nos serve de alerta. Será que nossas ações, fala e postura estão de acordo com a Palavra de Deus? Será que não estamos, através de nossas ações, destruindo outras almas?

Medite nestas breves palavras. Que Deus vos abençoe, fique na Paz de Cristo Jesus.

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, fundador e editor do Euaggelion.

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