/ Defesa da Fé

Contagem do Povo, Ditadura Militar e a Marcha para Jesus

“Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel. E disse Davi a Joabe e aos maiorais do povo: Ide, numerai a Israel, desde Berseba até Dã; e trazei-me a conta para que saiba o número deles. Então disse Joabe: O SENHOR acrescente ao seu povo cem vezes tanto como é; porventura, ó rei meu senhor, não são todos servos de meu senhor? Por que procura isto o meu senhor? Porque seria isto causa de delito para com Israel. Porém a palavra do rei prevaleceu contra Joabe; por isso saiu Joabe, e passou por todo o Israel; então voltou para Jerusalém. E Joabe deu a Davi a soma do número do povo; e era todo o Israel um milhão e cem mil homens, dos que arrancavam da espada; e de Judá quatrocentos e setenta mil homens, dos que arrancavam da espada. Porém os de Levi e Benjamim não contou entre eles, porque a palavra do rei foi abominável a Joabe. E este negócio também pareceu mau aos olhos de Deus; por isso feriu a Israel. Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel; e caíram de Israel setenta mil homens.” (1 Crônicas 21:1-7, 14; 2 Samuel 24:1-10, 15)

A nação de Israel havia crescido e se tornado uma potência militar. O capítulo 18 de 1 Crônicas nos relata diversas vitórias que o Senhor Deus concedeu a Davi e como o poder de Israel crescia. A Bíblia nos declara que o Senhor era com Davi e o guardava por onde quer que ele fosse (1 Crônicas 18:6).

No entanto, mesmo estando sob proteção de Deus, Davi estava sujeito ao pecado. A expansão e o crescimento do poder da nação de Israel, com toda certeza, foi a raiz do pecado de Davi.

O orgulho e a autoconfiança cresceu no coração de Davi, agora ele possuía o poder de uma grande nação, ele estava a frente de uma potência militar. O seu coração, e o coração de todo o povo, tendia para o pecado e, em vez de resisti-lo, Davi ouve a voz de Satanás (1 Crônicas 21:1).

Não haveria pecado algum em numerar o povo se Davi e a nação de Israel não estivessem inchados e sobre uma exacerbada soberba e autoconfiança em sua própria força e poderio.

O censo do povo de Israel não era para fim políticos, mas sim para fins militares (2 Samuel 24:9; 1 Crônicas 21:5). Davi desejava descobrir com quantos homens ele poderia contar caso uma guerra estourasse.

O Senhor Deus rapidamente puniu o pecado de Israel, eles deveriam confiar apenas nEle, o refúgio da nação não estava em armas ou homens valentes, mas sim no Senhor dos Exércitos. Lemos que através de um anjo, apenas, setenta mil homens foram mortos em toda a nação.

Deus repudiou a atitude de Davi (1 Crônicas 21:7) Ele havia estabelecido um concerto com Davi (2 Samuel 7:16; 23:5) e ele deveria confiar totalmente no Senhor.

Ditadura militar

Avançando alguns milênios, chegamos em 13 de março de 1964. João Goulart anuncia, em um comício, seu programa de reformas de base.

Temerosos com a implantação de um regime comunista, rapidamente diversos grupos da classe média e do clero se organizaram e deram início a uma série de manifestações que duraram de 19 de março a 8 de junho de 1964.

O objetivo era derrubar Goulart e impedir que seus planos comunistas fossem executados. Com o golpe militar, estes setores descontentes com o risco de perderem seus bens e com o possível avanço do “ateísmo comunista”, abraçaram de bom grado e, não é preciso contar o restante da História, já sabemos como culminou…

Marcha para Jesus

Quando olho para o cenário da Igreja Evangélica hoje não encontro outra comparação a ser feita, a não ser esta:

“E ao anjo da igreja de Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas.” (Apocalipse 3:14-18)

Nunca antes se viu uma época em que a Igreja Cristã tenha crescido tanto em nosso país, a igreja enriqueceu-se, adquiriu bens, posses, alcançou a mídia, as estatísticas, rebaixou-se à política e está na boca de todos, afinal que nunca ouviu “ainda fala que vai na Igreja.

Fico estarrecido ao saber que, segundo o Censo IBGE de 2010, o número de evangélicos saltou de 9,0% em 1991 para 22,2% em 2010. No entanto, nunca se viu uma geração tão depravada, pecaminosa, distante de Deus e fadada ao profundo dos infernos como a nossa geração.

Nos gabamos de estar em altos cargos do Governo, de possuir representantes na política, no entanto, os resultados e os impactos destas fracas personalidades sobre a sociedade são tão irrisórios que o sapato de um pobre trabalhador das minas inglesas brilhavam mais ao ecoar das palavras de John Wesley, do que todo o esforço e trabalho dessas pobres almas importantes sob um banho de ouro.

Não é de se espantar que o mundo esteja tão depravado, cruel e hediondo, talvez até mais do que a sociedade pré-diluviana. A exemplo dos descendentes de Sete, os “filhos de Deus” têm se entregado à prostituição com este mundo caído (Gênesis 6:2).

Uma Igreja que se gaba de possuir templos, bens, de estar farta, rica e cheia, deveria ungir os olhos com a Palavra para ver que não passa de uma instituição pobre, cega, nua, e desgraçada (Apocalipse 3:17).

Os evangélicos, em especial os jovens, não são nem quente nem frio. Não são quentes, pois não buscam a Vontade Soberana de Deus, pois não gastam seus preciosos minutos em oração e em leitura bíblica, na realidade odeiam a Bíblia, pois ela ordena uma vida de arrependimento, de santidade, devoção, fidelidade, ódio aos padrões de vida mundanos, sofrimento e humilhação.

Não são quentes, pois não guiados pelo Espírito Santo, mas seguem cantores, ídolos, “imagens gospel”, personalidades que jamais pregaria o Evangelho do Arrependimento, visto que seus salários são pagos por bodes que desejam nada mais do que música, pregações e lições, banhadas com uma teologia antibíblica cujo objetivo é massagear o ego de seus ouvintes pecaminosos e pervertidos.

Porém, não são frios, porque não abandonam a declaração, por sinal falsa, de que são filhos de Deus. Pensam que podem continuar dentro da igreja, participando do Corpo de Cristo enquanto alimenta uma vida de mentira, feitiçaria, lascívia, prostituição, impureza e toda forma de perversidade.

Não abandonam a falsa declaração, não se enveredam de vez no caminho da perdição e do pecado, pensam que a Igreja é o caminho certo para o céu e que, por isso, estão totalmente salvos.

Por causa destes fracos modelos de Cristo o nome de Deus é blasfemado (Romanos 2:24). Não enxergo uma geração apaixonada por Jesus, cheia do Espírito Santo e fiel a Cristo.

Enxergo uma geração amante de si mesma, que prefere pular duas horas num show do que se ajoelhar, ao menos, cinco minutos na presença de Deus, preferem dançar no culto do que ouvir uma palavra de doutrina, são amantes de livros de feitiçaria, de bruxos, de magos e magia, mas odeiam a Palavra de Deus.

Não enxergo uma geração que herdará o Reino, mas sim uma geração da qual o próprio Cristo declara “vomitar-te-ei da minha boca”.

Como um Igreja que está repleta de desejos mundanos pode marchar para Jesus? Que impacto isso causará em nossa sociedade?

Quando olho para a história da Igreja enxergo Pedro, um pescador indouto, pregando para uma multidão e arrancando, pelo Espírito Santo, três mil almas das garras do diabo.

E qual foi o método? Marcha para Jesus? Show com muito gelo seco e gritaria? Não! O método foi a simples pregação do arrependimento (Atos 2:38).

Jonathan Edwards, em seu sermão histórico, tocou pelo Espírito Santo, uma plateia descompromissada, indiferente e mundana.

Sua pregação seria, com toda certeza, mais enfadonha, para muitos, do que os nossos tradicionais cultos de ensino. Acerca disso Orlando Boyer escreve:

“Sem quaisquer gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o manuscrito na outra mão, falava com voz monótona.”

O resultado, no entanto, foi extraordinário:

“… foi como se Deus arrancasse um véu dos olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da posição em que estavam Durante a noite inteira a cidade de Enfield ficou como uma fortaleza sitiada.”

Não foram palavras proféticas, de vitória ou de realização de sonhos que revelaram aos pecadores seu estado vil. Foram as incessantes orações de Edwards e seu estudo sistemático da palavra que proporcionaram ao Espírito Santo um território perfeito para cumprir a sua obra.

John Wesley, outro grande avivalista, não era expulso dos púlpitos apáticos das igrejas por pregar uma vida próspera e cheia de realizações.

O ódio que ele, e seu irmão Charles, enfrentavam era resultado de suas pregações sobre justificação pela fé e a santificação. Creio que muitas das nossas Igrejas também os odiariam caso pregassem em seus púlpitos.

A História nos fornece nomes de homens que arrancaram milhares, senão milhões, de almas do poderio de Satanás. Entre eles podemos citar George Whitefield, Christmas Evans, Henry Martin, Charles Finney, George Müller, Charles Spurgeon dentre outros.

Qual era o segredo destes homens? Eles possuíam não apenas mente, mas corpo, alma e mente entregues ao Senhor. Eram guerreiros em oração, derramavam a alma diante de Deus antes de subirem ao púlpito.

John Bunyan, o escritor da célebre obra “O Peregrino”, é um claro exemplo de abnegação. Orava, insistia e importunava ao Senhor em súplicas.

Quando foi preso por pregar ele não negou sua fé, e não se comprometeu em deixar de pregar (requisito para ser liberto), embora deixasse sua família desamparada, incluindo sua filha cega.

Ele não foi honrado pelos homens, não viu a magnitude de sua obra, não contemplou os milhões de exemplares vendidos de “O Peregrino”, mesmo assim permaneceu fiel ao seu Senhor, até a morte.

Não é com Marcha para Jesus que a Igreja vai alcançar os perdidos, não é com shows em trio elétricos que as almas se converterão ao Senhor, é com oração, com o derramamento da alma e com a proclamação simples do Evangelho do arrependimento.

David Wilkerson, talvez você não o conheça, mas este homem foi um, senão, o maior expoente usado por Deus na segunda metade de 1900.

Fundou o Desafio Jovem, desarticulou as obras de Satanás na vida dos jovens. Com um coração puro, devoto e dedicado ao Senhor entrou onde, até etão, nenhuma autoridade tinha coragem de entrar: no âmago do subúrbio de Nova Iorque, o cruel território das gangues.

Sua fidelidade ao Senhor Deus foi tamanha, pois mesmo sendo um jovem pastor, longe de sua Igreja, de casa e de sua esposa, exposto e no meio de viciados, traficantes e prostitutas jamais se contaminou, não tirou os olhos do seu alvo, a salvação das almas.

Lutou contra a violência, o ódio, a promiscuidade, a depravação e toda forma de opressão com joelhos dobrados. Assim como George Müller, Wilkerson vivia a provisão diária de Deus, lidava com despesas mensais na ordem dos milhares possuindo, em conta, nunca mais do que algumas centenas de dólares.

E, conforme ele escreve em seu livro “A Cruz e o Punhal”, nada disso teria acontecido se ele não tomasse uma decisão, uma atitude perante Deus.

“Foi no dia 9 de fevereiro de 1958 Era tarde, Gwen e as crianças estavam dormindo e eu assistia ao último programa. Fazia parte da história de um número coreográfico, no qual um grupo de coristas dançavam com vestimenta escassa. Lembro-me de como de repente achei aquilo tudo tão torpe.

Levantei-me, apertei o botão, e vi as garotas desaparecerem num ponto luminoso no meio da tela.

“Quanto tempo eu fico em frente daquele aparelho todas as noites?” pensei “Duas horas pelo menos. O que aconteceria se eu gastasse esse mesmo tempo… orando?”

O que aconteceu foi o maior milagre já presenciado desde os grandes avivamentos do século XVIII.

Milhares de jovens, antes viciados, cheios de ódio, assassinos e mergulhados na prostituição foram, direta e indiretamente, salvos através do seu trabalho e do trabalho de sua equipe.

A decisão foi simples, banal para alguns, mas poderosa: “Vender a televisão e gastar o tempo em oração”.

Não estou dizendo que você deva fazer o mesmo, a menos que julgue necessário, no entanto, quantos cristãos, quantos jovens não estão comprometendo suas vidas espirituais, pois não desejam abandonar, abrir mão de absolutamente nada em prol de uma comunhão mais próxima de Deus?

O que seria de jovens como Nicky Cruz, Israel, Jo-Jo e Maria se Wilkerson não negasse, naquela noite, seu inofensivo passatempo diário? Por que contornei séculos da história da Igreja? Simples!

Como uma população evangélica vai alcançar as almas, trazer os perdidos para os pés da cruz se suas preocupações estão em boicotar a novela “x”, em sair em passeata e manifestar apoio ao candidato “y”, em escolher os representantes da classe cristã no poder político, ou em descobrir quem será o vencedor do Brasileirão ou qual é o conteúdo tolo que a próxima mensagem do Facebook e Whatsapp traz?

Que padrão de santidade os evangélicos pensam que passarão vivendo tal como o mundo? E achando normal e aceitável adotar práticas que o mundo abraça?

De fato os temores de Charles Spurgeon se tornaram realidade:

“O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhe tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas; rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da tolice.”

Ao unir o útil ao agradável a Igreja contemporânea se tornou tal como os fiéis de Laodicéia. Cegos, sujos e afastados da Vontade de Deus.

Uma Igreja e um cristão que marcha (apenas carnalmente) para Jesus num dia e no outro se embebeda com a devassidão do mundo e de seus prazeres profanos não merece outro diagnóstico eterno senão a morte.

No cenário atual a Marcha para Jesus não passa de uma declaração de orgulho exacerbado, de uma demonstração de força, de uma contagem do povo.

Assim como Davi, estamos colocando nossos modelos de “não-cristianismo” nas ruas para demonstrar poder, para mostrar como 22,2% da população é um número realmente grande para definir uma futura liderança nacional.

O propósito não é outro se não fornecer uma “folia santa” para os que marchem enquanto se divulga os números volumosos de eleitores e contribuintes que os lobos possuem em mãos.

Caso contrário, estaríamos diante de um quebrantamento a nível nacional tal como os conterrâneos de Lutero, Wesley e Edwards viram e viveram.

Incrível como uma Igreja que possuí tantos recursos e meios para propagar a Palavra de Deus e resgatar as almas está falhando, séria e terrivelmente, em sua missão.

Não consegue se livrar do pecado, porque é conveniente, não é capaz de questionar as aberrações que sobem ao púlpito, pois não possuem conhecimento bíblico para tal e, afinal, que mal há em “tomar posse da minha vitória e do meu sonho”?

Talvez o meu olhar para esses movimentos sejam marcados com o mesmo temor dos olhos da sociedade. A cada nova marcha, ou melhor, folia carnavalesca ultrajada de santidade, uma breve e leve recordação do apoio ao golpe militar. Uma demonstração de força política.

A contagem está sendo feita, não apenas os líderes, mas também o povo estão concordando com ela, mas a pergunta que paira no ar é “Quando o anjo do Senhor será autorizado a deixar a eira de Ornã?”

Que Deus vos abençoe, fique na Paz de Cristo Jesus.

Jamil Filho

Jamil Filho

Servo de Cristo Jesus, proclamador das Boas Novas, fundador e editor do Euaggelion.

Ler mais