/ Vida Cristã

As pessoas nunca desabam em um dia

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. Não erreis, meus amados irmãos” (Tiago 1:14-16)

Tiago nos escreve acerca das provas e tentações que, como seres humanos, sofremos diariamente e, nos versículos destacados, aprendemos algumas lições acerca da queda, do tropeço na fé. Inspirado pelo Espírito Santo Tiago nos alerta acerca da possibilidade de cairmos em nossas próprias concupiscências e, desta maneira, em pecado transgredindo, consequentemente, os mandamentos de Deus.

Sabemos que, embora a nossa natureza humana seja inclinada ao pecado (Romanos 3:9-20,23; 5:12), por intermédio de Cristo e da regeneração pelo Espírito Santo temos condições de resistir as tentações e negar o pecado (Romanos 6:12-13; 8:12; 13:14; Gálatas 5:16; Efésios 4:24-25; 1 Pedro 2:11), contudo sabemos que pecamos (1 João 2:1), mas não devemos fazê-lo conscientemente (1 João 2:3-6).

Acerca da possibilidade de nos afastarmos do Senhor Deus conscientemente, por livre e espontânea vontade, o escritor aos Hebreus declara:

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” ( 3:12)

Embora ele esteja, no capítulo 3 (três), narrando acerca da desobediência do povo de Israel no deserto (vv. 8, 16-19), o alerta e a exortação acerca da apostasia é dirigida aos destinatários da carta, “não endureçais o vosso coração, como na provocação…”,* “…nunca haja em qualquer de vós…”*, “…nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado…”.

Ele se utiliza da narrativa de Israel no deserto e a rejeição do povo aos mandamentos de Deus como base de seu ensinamento aos cristãos judeus de Roma e a nós. No capítulo 6 lemos acerca do risco que aqueles que se afastam da fé correm:

“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério” (vv. 4-6)

A princípio parece que este trecho de Hebreus entra em contradição com outras passagens da Bíblia Sagrada tais como Lucas 15:11-32, 2 Coríntios 2:6-8, 10, Gálatas 6:1, 2 Timóteo 2:18, 25-26, Tiago 5:19-20, contudo, através de uma leitura mais cuidadosa e aprofundada somos capazes de compreender melhor acerca dos termos relativos ao arrependimento.

Se colocarmos os textos de Hebreus 3:7-19, 10:26-27,29 (e outras passagens das Sagradas Escrituras) lado a lado encontraremos, não apenas algumas lições importantes de Deus para nós, mas também uma base para a compreensão dos versículos 4 ao 6 de Hebreus 6:

  • Em todo o momento Deus nos alerta acerca do perigo de uma vida cheia de pecado e afronta aos mandamentos do Senhor (Hebreus 3:7; 10:26, 29, 31);
  • Nos orienta para não endurecermos nossos corações diante Sua Voz (Hebreus 3:8,15);
  • Nos chama para mantermos acesa a chama de seu Espírito em nossos corações (1 Tessalonicenses 5:19) e para perseverarmos na fé em Cristo (Mateus 10:22, 24:13; Marcos 13:13; Hebreus 10:23, 12:1);
  • E, por fim, declara àqueles que pecam voluntariamente e sem o desejo de se arrepender não há esperança de salvação e perdão (Deuteronômio 29:18-21; Provérbios 29:1; Hebreus 10:26).

Percebam que é impossível sermos renovados, novamente, somente se permanecermos na prática do pecado, rejeitando a voz e a orientação do Espírito Santo. O escritor da carta aos Hebreus afirma, ao tratar daqueles que não herdaram a Terra Prometida:

“E vemos que não puderam entrar por causa de sua incredulidade” (3:19)

A condenação é resultado da rejeição, do homem, ao mandamento de Deus. Chegará um dia em que a medida da paciência de Deus transbordará, neste ponto não há volta, não há mais a possibilidade de arrependimento.

Ao falar do fim dos tempos, o Apóstolo Paulo escreve:

“A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade” (2 Tessalonicenses 2:9-12)

Percebam que o Apóstolo Paulo declara “…por isso Deus lhes enviará a operação do erro…” para “…que creiam a mentira…” e “…sejam julgados os que não creram a verdade…”, num olhar superficial parece que Paulo está declarando que o próprio Deus é quem fornece o erro para os homens e, depois destes terem pecado, os condena.

Contudo no final versículo 10 ele escreve* “porque não receberam o amor da verdade para se salvarem”* e a afirmação seguinte,* “…por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira”*, é subordinada à esta.

Deus somente entrega o homem à sua própria vontade pecaminosa para condenação quanto este rejeita a voz do Espírito. Lemos as mesmas declarações em Romanos 1:28.

“E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm”

Cristo declara o mesmo ao tratar acerca da blasfêmia contra o Espírito Santo:

“Portanto, eu vos digo: Todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens. E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro” (Mateus 12:31,32)

A blasfêmia contra o Espírito Santo pode ser compreendida de duas maneiras:

(1) atribuir ao Espírito Santo aquilo que Ele não fez, o que é amparado pelo contexto no qual a frase de Cristo se encontra (v. 22-24) e;

(2) resistir ao Espírito Santo e extingui-lo de nossas vidas através da constante prática do pecado e do repúdio à Palavra de Deus.

Embora as Sagradas Escrituras não afirmem, abertamente, que resistir ao Espírito é blasfemar contra Ele, podemos entender que o homem somente chega ao conhecimento da verdade e de seu estado caído apenas, e tão somente, pela obra do Espírito Santo e uma vez O rejeitando, e este se apartando do coração do homem, não há mais meio de se salvar e, por consequência, de alcançar o perdão de Deus.

Devemos tomar as advertências bíblicas acerca da apostasia como um alerta verídico para um perigo real e não um alerta real para uma possibilidade ilusória, tal como os reformados declaram, caso contrário, estaremos reduzindo a veracidade e a autoridade dos escritos bíblicos.

Pois se a Bíblia afirma “… nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” sendo que, teoricamente, eu não posso perder a salvação então até que ponto eu devo confiar na narrativa bíblica?

Se o alerta acerca do risco e da possibilidade do crente se apostatar da fé é simbólico então o relato acerca da Criação, de Adão e Eva, da vida de Cristo, da salvação e do fogo do inferno também são.

Afinal, conforme o Apóstolo Paulo escreve em 2 Timóteo 3:16, toda Escritura é inspirada por Deus e Tiago declara que em Deus não há sombra de variação (1:17) então, o mesmo Deus que inspirou o risco da apostasia é o mesmo que inspirou todo o resto e se um é falso todo o restante também se torna falso.

Não há como afirmar que uma orientação é para ser aplicada enquanto outra apenas é para ser lida e compreendida como simbólica. Na realidade tal entendimento bíblico remonta parte da teologia de Agostinho no qual, entre outros graves erros, estava a interpretação alegórica das Sagradas Escrituras (trataremos acerca deste assunto e do seu risco para a fé cristã no artigo da próxima segunda-feira).

Uma vez compreendendo o risco de nos apostatarmos da fé devemos, por fim, compreender que a queda não é de uma vez. A banda Casting Crowns já cantava “As pessoas nunca desabam em um dia, é um lento desaparecer”.

De fato, nada desmorona de uma vez, nenhum cristão se afasta de Deus e do Corpo de Cristo de uma hora para outra, é um processo progressivo, aos poucos, contudo, chega um ponto em que o retorno se torna impossível.

Nenhuma obra de engenharia desmorona de uma vez ou do nada. Há uma soma de variáveis, talvez um projeto mal dimensionado, uma execução errada, uma patologia que se agrava com o tempo e, por fim, a tragédia.

O nosso objetivo, neste artigo, é alerta-lo tanto para o risco e a possibilidade da queda, quanto para os sinais dela. Devemos estar alerta zelando tanto pela nossa própria vida quanto pela vida daqueles que estão ao nosso redor.

  • O primeiro sinal de que o cristão está se apartando da fé é demonstrado quando o crente deixa de levar a sério as verdades, exortações, advertências, promessas e ensinos da Sagrada Escritura.
  • Outro sinal claro de apostasia e queda é demonstrado quando o mundo e as suas coisas se tornar maiores e mais importantes, para o crente, do que o Reino de Deus e as glórias eternas e, por este motivo, o cristão passa a se afastar de Cristo, pois a comunhão com Ele deixa de ser relevante.
  • Por fim, por causa do pecado e da constante tolerância às práticas errôneas, o padrão de santidade de Deus se torna algo irrelevante e desnecessário, neste ponto o cristão passa a não repudiar mais a iniquidade e amar a justiça.

Aqui estamos na linha tênue entre a perdição eterna e a possibilidade de arrependimento, quanto mais tempo a pessoa passar negando e desobedecendo a Voz do Espírito Santo mais distante Ele ficará (Efésios 4:30; Hebreus 3:7) e, desta maneira, mais dura, insensível e cauterizada se tornará a sua consciência.

Não se trata apenas de um alerta, mas de uma possibilidade real. Tanto para nós, quanto para nossos irmãos na fé.

Contudo, se você se preocupa sinceramente com sua pureza, santificação e lealdade diante de Deus e, constantemente, se arrepende daquilo que pode te afastar do Senhor tenha certeza de que não chegou à apostasia imperdoável.

Há chances para aquele que peca contra o Senhor, veja o exemplo de Pedro que, após negar o Nome do Senhor reconheceu seu erro e, com um coração sincero, se arrependeu e retornou ao caminho. Já tratamos deste assunto aqui no Euaggelion.

Basta se entregar, completamente, ao Senhor Deus.

Fique na Paz de Cristo Jesus e que Deus vos abençoe.

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, fundador e editor do Euaggelion.

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