/ Apologética

Em defesa da Palavra: Inferno, condenação eterna ou aniquilamento?

No artigo da semana passada falamos um pouco acerca da apostasia. Do risco de nos afastarmos da fé genuína em Cristo Jesus e, conforme havia falado durante o artigo, trataremos novamente acerca da veracidade da Bíblia Sagrada.

Devemos levar todos os ensinamentos, orientações e aplicações práticas das Sagradas Escrituras a sério ou podemos considerar alguns textos como figurativos, não no sentido literário, mas prático?

Como por exemplo, Adão e Eva existiram (há muitos cristãos que afirmam que não)? Deus realmente criou o universo ou Ele ordenou um “Big Bang” e a narrativa do Gênesis foi escrita afim de apresentar uma versão “mais” aceitável da criação?

E ainda, o inferno é realmente um lugar de tormento físico ou se trata de uma expressão figurada para apresentar o tormento mental de separação de Deus?

Acerca da veracidade, ou não, de Adão e Eva não falaremos neste artigo (trataremos no próximo artigo da série “Em defesa da Palavra”), nem sobre os argumentos científicos, ou conforme Paulo afirma, da falsa ciência (1 Timóteo 6:20), que apontam contra a narrativa do Gênesis, nem muito menos acerca da vã tentativa de unir o evolucionismo ao relato criacionista declarando que de fato houve o Átomo Elementar (vulgo Big Bang) e que, através de uma explosão cósmica, Deus criou o Universo.

Neste artigo apresentaremos os riscos de tomarmos passagens bíblicas como sendo ilustrações, alegorias, metáforas. Compreenda que não estou me referindo à alegoria literária (conforme já destaquei acima), uma coisa é eu utilizar metáforas para anunciar algum ensinamento (vários profetas assim fizeram) outra coisa é afirmar que determinada passagem bíblica diz “y” enquanto na realidade ela diz “x”.

Estou apontando para o erro de tentarmos enquadrar as afirmações bíblicas em aplicações cujo o contexto não declara, não sustenta e não defende. No artigo da semana passada refutamos o argumento reformado de que os alertas, referente à apostasia, contidos no livro de Hebreus são apenas figuras, avisos para uma realidade utópica.

Deus estaria brincando com a humanidade? O Senhor estaria criando “falsos-positivos” para os cristãos? Não, com toda certeza.

Se considerarmos tal possibilidade estamos, não apenas diminuindo a autoridade bíblica, mas também anulando e comprometendo toda a Bíblia Sagrada. Sob estas afirmações inserimos o questionamento “o inferno é real”?

Antes que você questione: “O inferno não seria uma negação do amor de Deus”? Já abordamos este assunto em um artigo mais antigo (leia aqui).

Vamos colocar em evidência algumas questões:

  1. O inferno é realmente real?
  2. Há um sofrimento eterno?
  3. As almas dos ímpios são eternamente condenadas ou são eliminadas?

Argumentos contra a condenação eterna

A doutrina do aniquilamento

O argumento de que o inferno, na realidade, não é real, ou a doutrina do aniquilamento, se pauta em quatro afirmativas:

  1. A morte como castigo do pecado;
  2. O vocabulário sobre a destruição dos ímpios;
  3. As implicações morais do tormento eterno; e
  4. As implicações cosmológicas do tormento eterno.

A morte como punição do pecado. O aniquilamento final dos pecadores afirma que o princípio bíblico fundamental da punição do pecado é a morte (Ezequiel 18:4, 20; Romanos 6:23).

Compreende não apenas a primeira morte, a morte física, mas também a segunda morte (Apocalipse 20:14; 21:8), trata-se da morte final e irreversível a ser sofrida pelos pecadores.

A implicação imediata do aniquilamento não é tormento eterno, mas a morte permanente, tanto do corpo, quanto da alma.

O vocabulário bíblico sobre a destruição dos ímpios. O segundo ponto de apoio da visão do aniquilamento está no vocabulário utilizado na Bíblia Sagrada ao apresentar o fim dos ímpios.

Os profetas frequentemente anunciam a destruição final dos ímpios em conjunção com o dia escatológico do Senhor. Isaías proclama que os “transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos, e os que deixarem o Senhor serão consumidos” (Isaías 1:28). Descrições semelhantes se encontram em Sofonias 1:15, 17, 18 e Oséias 13:3.

Sob este ponto John Stott, um pastor anglicano, declara: “O fogo mesmo é chamado ‘eterno’ e ‘inextinguível’, mas seria muito estranho se aquilo que nele fosse jogado se demonstrasse indestrutível. Esperaríamos o oposto: seria consumido para sempre, não atormentado para sempre. Segue-se que é o fumo (evidência de que o fogo efetuou seu trabalho) que ‘sobe para todo o sempre’ (Apocalipse 14:11; ver 10:3)”

As implicações morais do tormento eterno. O terceiro pilar do aniquilamento se firma no argumento de que, uma eternidade de tormento, se contrapõe à moral do Senhor Deus e à Sua eterna bondade.

O argumento se firma na prerrogativa de que um tormento sem fim, independente de quão pecadores os homens que lá estão foram, não se enquadra na visão bíblica de Jesus revelado por Deus.

As implicações cosmológicas do tormento eterno. Segundo Bacchiocchi:

É impossível reconciliar esta opinião com a visão profética da nova terra na qual não mais “haverá morte, nem pranto, nem clamor, porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). Como poderiam pranto e dor serem esquecidos se a agonia e angústia dos perdidos fossem aspectos permanentes da nova ordem? A presença de incontáveis milhões sofrendo para sempre tormento excruciante, mesmo se fosse bem longe do arraial dos santos, serviria apenas para destruir a paz e a felicidade do novo mundo.

Mas até que ponto o aniquilamento é bíblico? Deus é mesmo cruel ao lançar os homens no inferno? Veremos alguns pontos e problemas enfrentados pelos defensores do aniquilamento diante da Palavra de Deus.

Antes, porém, vamos apresentar outras visões da condenação eterna.

A visão universalista do inferno

Trata-se de uma visão bastante deturpada do inferno, os universalistas reduzem o inferno em uma condição temporária, uma punição temporária que, por fim, leva a alma para o céu.

Segundo a visão universalista Deus salvará todo o ser humano e o levará à vida eterna. Desta maneira nenhuma alma será condenada no Juízo Final. Em momento algum a Bíblia Sagrada afirma que Deus, indiferente da posição humana, salvará a alma do ímpio.

O inferno metafórico

“Tenho-me perguntado muitas vezes se o inferno não é um fogo queimando dentro de nossos corações por Deus, para comunhão com Deus, um fogo que nunca podemos apagar”

O que Billy Graham está propondo?

Segundo sua visão, apresentada na frase, ele está declarando que o tormento eterno apresentado na Bíblia não é físico, nem muito menos palpável, mas sim mental e psicológico.

Para Graham o inferno seria a separação do homem de Deus e o tormento (apresentado na Bíblia como fogo e enxofre) seria, na realidade, o constante desejo e desespero do homem em se aproximar, inutilmente, de seu Criador.

O fogo eterno não é literal, mas metafórico, ilustrativo, o fogo é, na realidade, a dor causada pela consciência de separação de Deus e não por um tormento físico.

Billy Graham também declara:

“Poderia ser que o fogo do qual Jesus falou é uma eterna busca de Deus que nunca é satisfeita? Isso, com efeito seria inferno. Estar separado de Deus para sempre, separado de sua Presença”

Encontro certa semelhança com a afirmação de Agostinho acerca da paz final e do juízo final afirma:

“Mas, como a guerra é contrária à paz, como a miséria à felicidade e a morte à vida, pode-se perguntar, com razão, se à paz final, tão celebrada e louvada como soberano bem, não seria interessante opor o soberano mal da guerra final. (…) Que guerra, pois, mais cruel e mais encarniçada a gente pode imaginar que aquela em que a vontade será tão contrária à paixão e a paixão à vontade, que a inimizade entre ambas jamais cessará pela vitória de uma ou de outra”.

Ou seja, o juízo final seria a eterna luta, no homem (cidadão da cidade de Satanás), entre sua paixão e a sua vontade.

Você pode argumentar que as afirmações destacadas foram extraídas de um contexto mais amplo e que fora do contexto elas representam qualquer coisa. Sim, na realidade foram extraídas do “The Challenge: Sermons From Madison Square Garden”, uma série de sermões pregados por Graham, mais especificamente de um sermão pregado em 17 de junho de 1969.

Contudo, mesmo que o contexto de sua mensagem aponte para Cristo, para a salvação através da fé, é assustador ver a inconsistência de um pregador acerca de suas declarações sobre o inferno.

Em momento algum lemos Cristo ou os Apóstolos declarando que o tormento do inferno é psicológico ou mental, pelo contrário, expressões como “pranto” e “ranger de dentes” não se enquadram em nenhum outro sofrimento a não ser o físico.

O Aniquilamento não é real nem muito menos bíblico

A doutrina do aniquilamento se esbarra frontalmente contra as Sagradas Escrituras, não apenas em uns poucos versículos, mas em toda a Escritura.

O primeiro ponto a esclarecermos é que a morte física não é a punição final para o pecado, a morte física é resultado direto da queda de Adão. Paulo declara “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” (1 Coríntios 15:21).

O corpo mortal da humanidade é fruto do pecado de Adão, enquanto que a morte espiritual diante de Deus é fruto dos pecados particulares.

Paulo declara “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12)

Mais adiante nos versículos 15 e 16 ele fala acerca do “dom de Deus” (em contraposição à morte), ou seja, a salvação em Jesus.

Jesus declara “E irão estes para o tormento eterno…” (Mateus 25:46). Como haverá um tormento eterno se a alma, segundo a doutrina do aniquilamento, será extirpada, apagada como um vírus de computador?

Se o aniquilamento estivesse correto então a afirmativa de Jesus estaria errada, pois a declaração de Cristo implica duas verdades negadas por tal doutrina (1) a alma do ímpio não foi destruída, mas subsiste por toda a eternidade futura e (2) o tormento, que durará por toda a eternidade, é real.

O profeta Daniel, em seu último capítulo, declara “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e desprezo eterno” (12:2).

Como o ímpio poderá ser desprezado e envergonhado eternamente se ele não existe mais? Se o juízo final de Deus é na realidade uma gigantesca borracha que apaga as almas ímpias do universo?

Bacchiocchi se engana, terrivelmente, ao afirmar que a declaração registrada em Apocalipse 21:4 impede a existência do tormento eterno. Em momento algum a Bíblia declara tal suposição falaciosa acerca da condenação eterna.

Mas quanto ao que o Apóstolo Paulo escreveu em 2 Tessalonicenses 1:9?

“Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder”

Em momento algum Paulo está dizendo que as almas dos ímpios são destruídas e que seu resultado é eterno. O que o Apóstolo Paulo está afirmando é que os ímpios serão banidos da face do Senhor para sofrerem eterna perdição.

Para isso devemos compreender o significado da palavra “perecer”. Segundo o dicionário VINE:

“Perecer”

1 – apollumi, “destruir”, significa, na voz média, “perecer”, e é usado acerca de: (a) coisas (por exemplo, Mt 5.29.30; Lc 5.37; At 27.34 ; Hb 1.11; 2 Pe 3.6; Ap 18.14-segunda parte… (b) pessoas (por exemplo, Mt 8.25; Jo 3.15, 16; 10.28; 17.12, “se perdeu”; Rm 2.12; 1 Co 8.11; 15.18; 2 Pe 3.9; Jd 11). Em 1 Co 1.18 , literalmente, “perecendo”, onde a força perfectiva do verbo implica a conclusão do processo. Quanto ao significado da palavra, veja DESTRUIR”.

“Destruir”

1 – apollumi, forma fortalecida de ollumi, significa “destruir totalmente”; na voz média, “perecer”. A idéia não é de extinção, mas de ruína, perda, não de ser, mas de bem-estar. Isto é claro pelo uso do verbo, como, por exemplo, o estrago dos odres de vinho (Lc 5.37); a ovelha perdida, ou seja, perdida do pastor, estado metafórico de destituição espiritual (Lc 15.4,6, etc.); o filho perdido (Lc 15.24); o perecimento da comida (Jo 6.27), do ouro (1 Pe 1.7). O mesmo com relação às pessoas (Mt 2.13; 8.25; 22.7; 27.20); à perda da felicidade no caso dos não-salvos (Mt 10.28; Lc 13.3,5; Jo 3.15, em alguns manuscritos; Jo 3.16; 10.28; 17.12; Rm 2.12; 1 Co 15.18; 2 Co 2.15; 4.3; 2 Ts 2.10; Tg 4.12; 2 Pe 3.9).

2 – kataluõ, formado de kata, para baixo, elemento intensivo, e o n. 4, “destruir totalmente”, “subverter completamente”, é verbo que ocorre em Mt 5,17 duas vezes acerca da lei); Mt 24.2; 26.61; 27.40; Mc 13.2; 14.58; 15.29; Lc 21.6 (acerca do templo); em At 6.14, diz respeito a Jerusalém; em Gl 2.18, fala acerca da lei como meio de justificação; em Rm 14.20, da ruína do bem-estar espiritual de uma pessoa (em Rm 14.15, o verbo appolumi, n. 1, é usado no mesmo sentido). Em At 5.38,39, acerca do fracasso dos propósitos; em 2 Co 5.1, da morte do corpo”.

Ou seja, na narrativa bíblica “perecer” nem sempre significa destruição completa, extermínio! Paulo está se referindo à separação da Presença do Senhor, da perda de “bem-estar” e não da destruição da alma.

E quanto ao que Cristo declara em Mateus 10:28?

Para compreendermos o que Jesus pretende dizer vamos comparar a Bíblia com a própria Bíblia, para isso recorreremos ao texto de Lucas 12:5.

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mateus 10:28)

“Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei” (Lucas 12:5)

Percebam que Lucas não emprega o verbo “perecer” no versículo, mas sim “lançar”, sinônimo do verbo utilizado em Mateus 5:29. Em Apocalipse 14:11 lemos:

“E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso, nem de dia nem de noite…”

O argumento contra a condenação eterna defende que uma vez lançados no lago de fogo e enxofre os ímpios são, automaticamente consumidos, tal como um papel ao ser lançado sobre uma chama e, o que sobe para todo o sempre, é a fumaça e não o tormento.

Porém o próprio versículo anula tal declaração “e não têm repouso, nem de dia nem de noite”, isso implica em uma eterna condenação consciente dos ímpios.

O salmista declara que “os ímpios serão lançados no inferno…” (9:17), Paulo ratifica que “tribulação e angústia sobre toda alma do homem que faz o mal” (Romanos 2:9), Judas afirma que a pena é com* “fogo eterno”* (v. 7) e será uma “…fornalha de fogo prantos e ranger de dentes” (Mateus 13:42).

Mas isso não implica em um castigo desproporcional da parte Deus sobre o homem e não anula seu caráter amoroso e bondoso? Não, com toda certeza!

Devemos entender que Deus, após a queda do homem, estabeleceu os termos para a salvação, por quem ela poderia ser aceita. Somente através da fé em Cristo Jesus e o resultado da recusa, por parte do homem, diante da oferta de salvação eterna.

Dave Hunt declara “É Ele quem faz as regras, quem define as exigências da salvação e determina as consequências da aceitação ou rejeição Ele é quem determinou as condições da salvação e o que irá acontecer tanto àqueles que aceitam, quanto àqueles que rejeitam a Sua oferta”

O Senhor é menos moral por condenar o homem que, durante toda a vida, negou a oferta de salvação através de Cristo Jesus?

Ele seria caso predestinasse o homem ao inferno sem nenhuma possibilidade de remediação (acerca disto falaremos nos próximos artigos da série “Em defesa da Palavra”).

Deus irá punir o pecado humano e responsabilizará o homem eternamente pelo desprezo ao Seu Filho Jesus. A doutrina do aniquilamento nega qualquer forma de punição, não há perdas.

Se eu vivo para Deus então vou para uma eternidade diante dEle, mas se eu vivo de acordo com a minha carne então Deus simplesmente me destruirá.

Os ateus também creem nisto, embora Deus não entre na equação, a nossa existência seria limitada apenas à esta vida e a morte é o fim, a borracha que apaga, por toda a eternidade, nossa consciência.

A Bíblia não nos ensina isto, a parábola do rico e do Lázaro (Lucas 16:20-31) é um excelente exemplo acerca da condenação eterna.

O rico possuía total consciência de seu estado de condenação, da impossibilidade de sai dali e da vida que ele teve enquanto caminhou pela Terra.

Diante da realidade de um inferno real devemos nos apegar ao Senhor Jesus, o Único caminho para Deus.

Fique na Paz de Cristo e que Deus vos abençoe.

Referências:

Inferno: Tormento eterno ou aniquilamento? Artigo baseado nos escritos de Samuele Bacchiocchi (Ph.D., Pontificia Universita Gregoriana), professor de religião na Andrews University, Berrien Springs, Michigan, E.U.A.

Disponível em: http://dialogue.adventist.org/pt/10-3/bacchiocchi/inferno-tormento-eterno-ou-aniquilamento

Graham, Billy. The Challenge: Sermons From Madison Square Garden.

Agostinho Op. Cit. XIX, XXVIII, 5. p. 422.

Extraído de Sola Escriptura TT, disponível em: http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm

Hunt, Dave. Que Amor é este? p. 256.

Jamil Filho

Jamil Filho

Servo de Cristo Jesus, proclamador das Boas Novas, fundador e editor do Euaggelion.

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