/ Reflexão

Não use Romanos 7 para justificar seu pecado

“Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” (Romanos 7:15)

Quantos já ouviram esta célebre frase do Apóstolo Paulo? Mas quantos compreendem, realmente, o que ela quer dizer?

Diversas e diversas vezes ouvimos pregadores, músicos ou cristãos afirmando que cometemos o mal que não desejamos e deixamos de fazer o bem que desejamos. Há uma música muito conhecida que, incorretamente, traça um paralelo entre a vida cristã e os escritos de Paulo:

Por que os meus olhos só querem ver

O que não devo olhar, eu não quero ver?

Por que que os meus pés só querem ir

Onde não devo andar, eu não quero ir?

Em momento algum o Apóstolo Paulo está defendendo a tese de que nós podemos permanecer no pecado ou que podemos argumentar, diante de uma falha cometida, que “o mal que não queremos a este seguimos”.

Devemos compreender o contexto imediato em que o texto se encontra, caso contrário corremos o sério risco de corrompermos as Escrituras tomando como base um único verso que, por si só, não define toda a doutrina bíblica.

A graça nos liberta do pecado e a nova vida debaixo da graça:

No capítulo anterior Paulo nos ensina acerca da liberdade proporcionada pela graça de Cristo Jesus.

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4)

Uma vez regenerados pelo Espírito Santo, através da fé em Jesus, e batizados em Cristo, através da imersão nas águas, sepultamos o nosso velho homem.

Uma vez crucificados com Cristo através da Palavra que confronta e mata nosso velho homem, devemos enterrá-lo, sepultá-lo para que* “…como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida”*.

O batismo possuí um simbolismo maravilhoso, entramos nas águas com nosso velho homem e saímos delas em novidade de vida.

Em todo o capítulo o Apóstolo Paulo apresenta a liberdade que recebemos através da graça, manifesta na morte de Jesus, a graça que nos liberta do pecado e que nos restitui diante de Deus.

Não podemos permanecer no pecado, pois “… o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (v. 6).

Através da morte de Cristo encontramos o meio para nos libertar do jugo e opressão da iniquidade e, uma vez libertos, não podemos continuar pecando, não podemos permanecer alimentando o nosso velho homem, pois nossa natureza se torna espiritual.

“Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Romanos 6:11-13)

Uma vez debaixo da graça de Deus estamos libertos, fora do alcance do pecado, fora do reino da iniquidade (Romanos 6:14).

“Porque a lei do espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2)

Em Cristo, limpos pelo Espírito Santo e regenerados para a Glória Eterna e o Reino de Deus, vivemos uma nova vida e alcançamos uma liberdade que antes não possuíamos.

Entendendo Romanos 7:

Partindo da breve explanação dos assuntos abordados no contexto (capítulos 6 e 8) em que o capítulo sete de Romanos se encontra podemos, sem muita dificuldade, compreender o que o Apóstolo Paulo escreve.

Não podemos concluir que Paulo considerava normal ou aceitável o fato do cristão permanecer em constante luta com sua natureza carnal, ora sendo vencido por ela, ora vencendo-a, porque “… o pecado não terá domínio sobre vós...” (Romanos 6:14) e uma vez* “… libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça”* (Romanos 6:18).

Vamos deixar claro que não estou negando a luta da carne contra o Espírito, pelo contrário, sabemos que estamos diariamente lutando contra tudo aquilo que se levanta e tenta derrubar o nosso homem espiritual.

No entanto, analisando o contexto enxergamos, claramente, que o Apóstolo Paulo não está se referindo à luta do cristão, mas à insuficiência do homem em vencer o pecado através da Lei.

“Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim” (Romanos 7:20), se aplicarmos esta declaração ao cristão entraremos em contradição com outros trechos bíblicos (Romanos 6:6-7, 11-13; Hebreus 10:26-27; 1 Pedro 1:15; 2:11; 1 João 2:5-6, 15 etc.).

O próprio Apóstolo Paulo estaria se contradizendo, uma vez que ele declara que estamos mortos para o pecado (Romanos 6:11), livres de seu reino (Romanos 6:12) e que não devemos apresentar nossos corpos à iniquidade (Romanos 6:13).

Na realidade, podemos dizer, que o Apóstolo Paulo busca apresentar um contraste entre o homem regenerado pelo Espírito Santo e o homem que busca alcançar a justificação através do cumprimento da Lei, através de ritos e dogmas.

Jamais ele será capaz de controlar sua natureza pecaminosa, pois a Lei não salva, pelo contrário, ela apenas apresenta o pecado que há no interior do homem, “… porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” (Romanos 7:7).

Paulo afirma que enquanto esteve sem Lei, ou seja, quando ainda não possuía consciência dela, ele vivia, mas quando a conheceu o pecado reviveu e ele morreu (Romanos 7:9).

A Lei em si é benigna, pois estabelece o padrão divino e o modelo de conduta exigido por Deus, no entanto, o pecado que há em nós, antes da regeneração, corrompe nossos sentidos e nos torna incapazes de obedecermos aos mandamentos.

Portanto, não use Romanos 7 para sustentar o seu pecado ou os seus erros. O Apóstolo Paulo não está estabelecendo uma exceção, pelo contrário, ele está apresentando o triste estado em que se encontram os que buscam alcançar a justificação por meios próprios e não por intermédio de Jesus Cristo.

Que Deus vos abençoe, fique na Paz de Cristo Jesus.

Jamil Filho

Jamil Filho

Servo de Cristo Jesus, proclamador das Boas Novas, fundador e editor do Euaggelion.

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