/ Apologética

Pare de mentir, dízimo obrigatório não existe!

Mais uma vez vamos abordar, depois de um bom tempo de estudo e leitura, a temática “dízimo é ou não obrigatório para a Igreja”?

Já escrevi alguns artigos acerca deste assunto (“A Escória da Igreja Capitalista” e “Creia no dízimo e será salvo tu e tua casa”), no entanto, se faz necessário (mais uma vez) escrever a fim de defender o ponto de vista bíblico.

Uma vez que “…fui posto para defesa do evangelho” (Filipenses 1:17).

A obrigatoriedade do dízimo, não diria que é um assunto polêmico, mas um tema que muitos tem utilizado para enveredar no campo da heresia e da perdição eterna, deturpando a fé e esperança da Igreja de Cristo.

Não creio que seja polêmico uma vez que a Bíblia Sagrada é muito clara quanto este assunto, no entanto, se faz necessário abordar (outra vez) profundamente este tema tão abusado pela Igreja Instituição.

Para isso vamos tentar responder algumas questões e, com o objetivo de tornar o presente artigo mais didático, dividiremos a linha de raciocínio em alguns tópicos para que, finalmente, consigamos traçar uma conclusão consistente.

Gostaria de escrever acerca deste tema o mais breve possível, todavia, não foi possível uma vez que este campo é muito amplo e vasto.

Creio, que por mais longo que o artigo seja, ainda faltará abordar e apresentar alguns pontos importantes dos quais, futuramente, posso falar algo a respeito.

Ressalto, por fim, que embora tenha dedicado um tempo considerável para escrever e estudar acerca do assunto não creio que este pequeno estudo seja um veredito final, creio que ainda há amplo espaço para crescimento e amadurecimento do meu ponto de vista.

Caso deseje acrescentar, questionar ou prosseguir a discussão acerca deste tema sinta-se à vontade (só lembre de ler todo o conteúdo e de exercitar seu cristianismo antes de escrever quaisquer parvoíces).

O dízimo bíblico

O dízimo antes da Lei:

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo. Gênesis 14:18-20

Creio que a grande maioria dos cristãos conhecem esta passagem, embora não seja muito utilizada para defender o dízimo (ao menos nunca ouvi ninguém argumentando com base neste texto), ela retrata a primeira declaração de que um servo de Deus entregou o dízimo a um servo do Senhor.

No entanto, existem algumas peculiaridades neste texto e vamos estudar, brevemente, acerca delas.

A primeira é que Abrão não dizimou de suas posses pessoais, ele não dizimou de seus rebanhos, de suas riquezas e bens, como era determinado pela Lei dada por Deus à nação de Israel, mas sim dos despojos da guerra.

Considerai, pois, quão grande era este , a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos. Hebreus 7:4

Isso implica, portanto, que Abrão dizimou apenas uma única vez e em uma circunstância completamente especial.

O dízimo de Abrão entregue a Melquisedeque foi uma demonstração de gratidão pelo socorro e auxílio de Deus em sua batalha para libertar Ló.

Outro ponto interessante é que, ao contrário do dízimo instituído na Lei para a nação de Israel, o dízimo entregue por Abrão foi dedicado voluntariamente a Melquisedeque.

Não encontramos nenhum registro bíblico de que Deus ordenou Abrão a dizimar. Mas ele o fez em gratidão pela vitória na guerra.

Além de Abraão, Jacó também dizimou ao Senhor antes dEle assim ter determinado na Lei de Moisés.

E Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; E eu em paz tornar à casa de meu pai, o Senhor me será por Deus; E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo. Gênesis 28:20-22

Tal como Abraão, Jacó voluntariamente determina em seu coração que haveria de dizimar ao Senhor Deus como reconhecimento de Sua eterna Graça e Bondade.

No entanto, não encontramos registros na Bíblia Sagrada de que ele, de fato, cumpriu o seu voto (creio que sim e o historiador Flávio Josefo[1] nos confirma que ele assim o fez), contudo, ele o teria feito apenas 20 anos depois, ou seja, não encontramos, mais uma vez, uma sólida base para utilizá-lo como exemplo de dizimista tal como os pastores neopentecostais o fazem.

O dízimo durante a Lei:

Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do SENHOR; santas são ao SENHOR. Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará a sua quinta parte sobre ela. No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR. Não se investigará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se de alguma maneira o trocar, tanto um como o outro será santo; não serão resgatados. Levítico 27:30-33

Perceba que o dízimo bíblico é descrito, por Deus, como sendo a décima parte de toda produção do ano, desde cereais, frutos, hortaliças, até o gado.

E, ao contrário do que se prega hoje, não se trata de dinheiro. Se fôssemos seguir o mesmo princípio, ou seja, dizimar parte do produto de nossos trabalhos, teríamos muito mais pessoas se empenhando em realizar serviços na obra de Deus (pintores, eletricistas, etc.) do que necessariamente em entregar valores monetários.

E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas executarão o ministério da tenda da congregação, e eles levarão sobre si a sua iniquidade; pelas vossas gerações estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão, Porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao SENHOR em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão. Números 18:21-24

Nesta segunda passagem encontramos o dízimo sendo apresentado como o meio pelo qual a tribo de Levi receberia o seu sustento material.

Deus havia determinado que os filhos de Levi não receberiam nenhuma porção de terra para plantar ou apascentar rebanhos. A herança dos levitas seria o próprio Deus e, por este motivo, toda a nação de Israel deveria se encarregar de oferecer os dízimos a fim de sustentar aqueles que, por toda a nação, se empenhavam no serviço a Deus.

Se aplicarmos a mesma determinação hoje, os que se dizem “levitas” e exigem o dízimo com base na determinação de Deus quanto ao sustento dos sacerdotes deveriam, obrigatoriamente, viver única e exclusivamente para o ministério, sem comprar terras, fazendas, mansões, iates, jatos particulares etc. (vamos acreditar que estão agindo desta maneira).

Em Deuteronômio 14:22-27 encontramos também o dízimo que era destinado aos festivais e festas religiosas de Israel do qual todo o povo oferecia e participava dele. “…come-o ali perante o Senhor teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa” (v. 26).

Deus determina que o povo participe do dízimo dedicado às festas como uma manifestação de louvor e adoração coletiva a Ele pelas bênçãos concedidas, pelas boas colheitas e o pelo sustento de suas famílias.

Neste caso, em virtude de lermos em Números 18:21 que todos os dízimos de Israel deveriam ser entregues aos levitas, entendemos que se tratava de um segundo tipo de dízimo.

Ainda em Deuteronômio 14 nos versículos 28 e 29 lemos:

Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem.

Havia ainda um terceiro dízimo, recolhido de três em três anos, cujo o objetivo era suprir as necessidades dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas que haviam na nação de Israel.

Acerca deste último dízimo, ou o “terceiro dízimo”, há certa discordância entre os estudiosos. Enquanto uns afirmam que se trata, literalmente, de um terceiro dízimo que era recolhido em todas as cidades para o sustento dos pobres, outros defendem que se trata, na realidade, do segundo dízimo (que era destinado às festas) utilizado, a cada três anos, para um fim diferente.

Independentemente se era um terceiro dízimo ou não sabemos que, por determinação de Deus, uma parte de toda produção da nação de Israel deveria ser, de tempos em tempos, entregue aos mais pobres a fim de suste-los em suas necessidades.

Outra verdade é que, sem nenhuma sombra de dúvidas, o dízimo no Antigo Testamento era obrigatório. Era algo como os impostos que pagamos hoje.

Ao contrário de Abraão e Jacó, que decidiram entregar o seu dízimo ao Senhor Deus voluntariamente, os israelitas eram obrigados a entregá-lo.

Isso nos auxiliará a compreender, corretamente, o texto muito deturpado de Malaquias 3. O qual discutiremos mais adiante.

O dízimo depois da Lei:

No Novo Testamento encontramos apenas três passagens (Mateus 23:23; Lucas 18:12; Hebreus 7:1-10) que apresentam o dízimo no conceito que conhecemos (um décimo da renda). No entanto, não recebemos nenhuma determinação para o entregarmos tal como a nação de Israel fazia.

Encontramos apenas algumas orientações de Jesus e, especialmente, do Apóstolo Paulo quanto ao auxílio dos irmãos necessitados e do mantimento dos obreiros.

Mais adiante abordaremos, com maiores detalhes, o ensino bíblico para a Igreja quanto à contribuição, mas por enquanto vamos apenas manter a afirmativa de que o dízimo não é para a Igreja do Novo Testamento.

Caso contrário deveríamos agir tal como os israelitas, com base nos preceitos da Lei de Moisés.

  1. Deixar seu trabalho e comprar uma terrinha, de modo que possa criar seu gado e plantar e colher;
  2. Encontrar algum descendente de Levi, para sustentá-lo;
  3. Usar suas colheitas para observar as festas religiosos do Velho Testamento (tais como Páscoa, Pães Asmos, Pentecostes, Tabernáculos);
  4. Começar por dar pelo menos 20 por cento de todas as suas colheitas e rebanhos a Deus e;
  5. Esperar que Deus amaldiçoe sua nação com insuficiência material, se ela for infiel, ou a abençoe com abundância material, se for fiel. [2]

Quem não dizima está roubando a Deus?

Absolutamente não!

No entanto, a Igreja Instituição tem abusado terrivelmente da Bíblia Sagrada assumindo para os cristãos pós-modernos as ordenanças e repreensões destinadas ao povo de Israel.

Mas e quanto ao texto de Malaquias 3:8–10? Vamos lê-lo?

Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação.

Antes de realizarmos uma interpretação equivocada deste trecho (tal como a grande parcela dos cristãos) devemos compreender o contexto imediato de Malaquias 3, entender qual era a real situação de Israel e analisar os propósitos do livro.

Costumo dizer que se pode provar qualquer coisa com versículos isolados ou com textos destacados e retirados de seu contexto original.

Então, para uma compreensão coerente, retornemos ao primeiro versículo do terceiro capítulo de Malaquias:

Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos.

O Senhor declara, através da boca de Malaquias, o seu propósito de realizar justiça sobre a Terra através do advento do Messias. Todo o capítulo apresenta uma visão escatológica, ou seja, aponta para o futuro da nação de Israel.

Em algumas versões encontramos a referência de que Deus enviará o Seu Anjo, ou o Anjo do Senhor, ou seja, Jesus Cristo.

Malaquias apresenta as duas vindas do Messias, declara que Ele purificará todo o pecado e limpará (v. 2) o Seu povo para servi-lO.

E assentar-se-á como fundidor e purificador de prata; e purificará os filhos de Levi, e os refinará como ouro e como prata; então ao Senhor trarão oferta em justiça. Malaquias 3:3

Até o presente momento (período em que Malaquias profetizou para a nação de Israel) o Senhor não estava aceitando as ofertas do povo de Israel, pois elas eram apresentadas em pecado, toda a nação estava em pecado.

Deus ainda não havia purificado, como a prata, os filhos de Levi, o Senhor Jesus ainda não havia morrido para aspersão do Seu Sangue.

Somente depois de purificá-los eles, então, “…trarão oferta em justiça”.

O versículo que muitos utilizam como sendo uma demonstração de misericórdia do Senhor para com aqueles que não dizimam ou ofertam, na realidade, não se refere ao dízimo e oferta, mas sim à paciência do Senhor para com o pecado e iniquidade do povo.

E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente, contra os que defraudam o diarista em seu salário, e a viúva, e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos. Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. Malaquias 3:5-6

Deus, ao declarar “Porque eu não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos”, não está se referindo ao fato da nação de Israel ter deixado de dizimar, mas sim aos pecados cometidos por todo o povo.

O Senhor não havia destruído a nação, pois o pecado do povo não alteraria Sua promessa para com os patriarcas (cabe lembrar, no entanto, que embora o pecado não tenha alterado a promessa do Senhor para com a nação de Israel não significa, consequentemente, que todos os israelitas estão ou estarão salvos em virtude da eleição do povo de Israel).

Israel havia se enveredado pelo caminho da feitiçaria, do adultério, do falso juramento, da desonestidade e do descaso para com os órfãos, viúvas e estrangeiros (v. 5), que também eram participantes do dízimo entregue por toda a nação, e Deus os repreende por isto.

Somente nos versículos seguintes o Senhor lembra que eles não obedecerem os mandamentos de entregar as ofertas e os dízimos.

Além disso cabe lembrar que o dízimo era obrigatório ao povo de Israel, ou seja, eles não possuíam escolha de entregá-lo ou não, sendo assim eles estavam roubando ao Senhor ao reter a parte que não lhe pertencia.

Sob o Velho Pacto, o dízimo era mandatório, portanto retê-lo era se tornar um ladrão. Note também que Deus diz que o povo o estava roubando em dízimos. Ele não disse no “dízimo”, mas sim nos “dízimos” (plural). Estes “dízimos” têm que se referir aos diferentes dízimos requeridos do povo de Deus (o Dízimo para o Levita, o Dízimo para as Festas ao Senhor, e o Dízimo para os Pobres).[2:1]

No capítulo seguinte Deus finaliza sua exortação ao povo de Israel anunciando novamente a vinda do Messias.

Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. Malaquias 4:5

Deus anuncia Seu veredito final, Ele declara que Elias (João Batista) será enviado antes do grande e terrível dia a fim de preparar o caminho para o Reino de Seu Ungido.

O profeta anuncia a proximidade do dia que arde como fogo contra todos os soberbos e todos os ímpios os quais serão como palha (4:1), enquanto os justos serão iluminados pelo Sol da Justiça (v. 2), os ímpios serão pisados e se tornarão em cinzas (v. 3)

É interessante observarmos que, ao contrário dos outros profetas, Malaquias não anuncia um tempo de refrigério imediato sobre o povo como resultado de seu arrependimento.

As promessas de bênçãos e refrigério apontam para o Reino do Messias, para o futuro da nação de Israel, após sua destruição em 70 d.C, ao tempo dos gentios e a Grande Tribulação.

Exceto os versículos nove e dez do terceiro capítulo, todos os demais declaram que Deus aliviará os justos e julgará os ímpios não com base no arrependimento do povo, mas em virtude da vinda do Messias, do Senhor Jesus.

Devorador, Migrador e Cortador

Outro argumento muito utilizado a fim de sustentar a obrigatoriedade do dízimo para a Igreja se encontra na possibilidade do fiel, ao deixar de entregá-lo, ter suas finanças e bens destruídas pelos “demônios”: Devorador, Migrador e Cortador.

Um cristão sincero e genuíno possuí consciência de que, em Cristo, nenhum demônio tem o poder de nos tocar, nem mesmo o próprio Satanás.

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca. 1 João 5:18

A origem destes supostos demônios se encontra em uma interpretação equivocada dos textos de Joel e Malaquias.

Não se trata de demônios, mas sim de gafanhotos literais (e em ambos os textos não cabe nenhuma interpretação metafórica ou alegórica) que devastaram a nação de Israel em virtude de sua desobediência aos mandamentos do Senhor Deus.

1) O Cortador (gazam) é um tipo de gafanhoto que se instala ou habita na plantação. Ele destrói uma parte dos frutos apenas. Sendo assim, o agricultor na época da colheita sofre certo prejuízo financeiro perdendo uma parte dela que fica imprópria para o consumo alimentar.

2) O Migrador (arbeh), diferente do cortador que habita nas plantações, é um tipo de gafanhoto que voa em bando por diferentes lugares e que aparece de repente na plantação destruindo mais a colheita aumentando mais o prejuízo do agricultor.

3) O Devorador ou Infestante (jelek), por sua vez, é o tipo mais devastador de gafanhoto que, assim como o migrador, voa também em bando que chega a cobrir o céu dando o aspecto de tempo fechado. Esta nuvem, contudo, é composta de muitos gafanhotos que, quando pousa sobre uma plantação, infesta e a destrói quase que por completo em cerca de meia hora, apenas, levando o agricultor a ter mais prejuízos, pois não se dá para aproveitar muito da colheita.

4) O Destruidor (chasel), por fim, é o tipo de gafanhoto que possui o maior poder de destruição. Quando uma plantação sofre o ataque destes insetos, ela é completamente destruída levando o agricultor praticamente ou quase à falência. [3]

Mas e quanto aos gafanhotos do Apocalipse? São literais ou não? — Você se pergunta.

Embora a questão não esteja, diretamente, relacionada ao assunto central deste artigo vamos apenas entender que o Apocalipse é um livro que anuncia eventos futuros, no período em que Deus julgará a Terra, o Grande Dia da Ira ou o Dia do Furor de Deus.

Portanto, não encontramos nos escritos escatológicos do Apóstolo João uma base sólida para interpretarmos, metaforicamente, os gafanhotos de Joel e Malaquias uma vez que, ambos os profetas, anunciaram a Palavra do Senhor diante de uma circunstância real, as pragas, da história de Israel.

Quem não dizima não será salvo?

Para encurtarmos a resposta, não, quem não dizima será salvo com toda certeza!

Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa Atos 16:30-31

Já ouvi muitas e muitas vezes pseudocristãos afirmarem que todo aquele que não dizima não será salvo, pois está roubando a Deus e o ladrão não herdará o Reino de Deus conforme está escrito em 1 Coríntios 6:10.

O primeiro ponto é que a fundamentação teórica deles, baseadas nas declarações de Malaquias, não se aplicam à Igreja de Cristo.

Deus estava falando com o povo de Israel num período e contexto completamente diferente do que estamos vivendo hoje, estamos na Dispensação da Graça, libertos dos ritos mosaicos.

A nação de Israel não tinha abandonado apenas o ato de ofertar e dizimar no Templo e para os necessitados, mas havia desviado completamente dos Caminhos do Senhor.

Malaquias anuncia o fim das tentativas de Deus em chamar o povo novamente às observâncias de Suas Leis.

Tomar como base uma declaração destinada a um povo em uma circunstância especial e engessar a Igreja dentro dela é completamente insano, senão herético. Haja vista que Israel era obrigado, por Lei, a dizimar e nós, cristãos da Nova Aliança, não somos.

Dr. Paul Copan, em uma de suas palestras acerca do Antigo Testamento e suas interpretações (Deus é um monstro moral?), declara que não devemos interpretar toda a Bíblia literalmente, pelo contrário, devemos ler a Bíblia literalmente e interpretá-la com base no estilo, época e circunstância em que o texto foi escrito.

Caso contrário deveríamos entender que as árvores batem palmas ao Senhor, ou que o sol está debaixo de uma grande tenda e que corre o seu caminho como um herói literalmente.

Sabemos que se trata de uma linguagem poética do salmista e, portanto, interpretamos com base no estilo poético do livro.

A mesma lógica se aplica ao texto de Malaquias, não devemos nos apropriar deste texto e moldá-lo para que se encaixe nas circunstâncias da Igreja atual…

Nos próximos tópicos retornaremos novamente a esta questão, mas por enquanto vamos nos ater apenas nas condicionantes bíblicas para a salvação do homem.

Partindo da declaração do Apóstolo Paulo registrada em Atos 16:31 podemos destacar que a salvação é condicional apenas e tão somente à fé.

Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo.

O ponto central da salvação é a fé no sacrifício do Senhor Jesus Cristo, não há nenhum outro critério a ser cumprido. A salvação é pela fé, simples assim!

Uma vez reconhecendo o senhorio do Senhor Jesus e confessando-o seremos justificados por Deus em Seu Sangue (Romanos 10:9–10).

Sabemos, no entanto, que devemos trabalhar a nossa salvação para que não a percamos (Hebreus 3:6, 12), no entanto isso não inclui dizimar, contudo, para alcançá-la não há outra fórmula a não ser através da fé.

Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado. 1 Pedro 1:18-19

O Apóstolo Pedro, por sua vez, destaca que o Sangue de Cristo, e não bens materiais, nos comprou do mundo. Dízimo algum garantirá nossa salvação, pelo contrário, Jesus garante a nossa salvação.

E pregar que aquele que não dizima está indo para o inferno é pisar o sangue de Jesus e se enquadrar no que está escrito em 2 Pedro 2:1-22.

Estes negam o Senhor que os resgatou (v. 1), se tornam avarentos e negociam com a Igreja de Cristo (v. 3), seguem o caminho de Balaão (v.15) rumo ao inferno.

O mesmo declara Judas “Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré” (v.11)

Comparando água com óleo (Israel e Igreja)

Embora este seja um tópico que, futuramente, se tornará um artigo mais detalhado e aprofundado, creio que seja necessário levantar (mesmo que superficialmente) a questão.

Muitos cristãos, por desinformação ou desinteresse, ainda não compreendem a diferença entre a Igreja e a nação de Israel.

Muitas vezes assumimos para a Igreja aquilo que é apenas e tão somente para o povo eleito de Deus, para os filhos de Jacó e, desta maneira, invalidamos algumas doutrinas que compõem o cerne do cristianismo.

Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja; Da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus; O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos. Colossenses 1:24-26

O Apóstolo Paulo, escrevendo para os colossenses, declara que a Igreja de Jesus Cristo, pela qual ele padecia e sofria, era um mistério oculto por Deus durante séculos.

Durante todo o Antigo Testamento Deus não revelou a Igreja, ela era um mistério que haveria de ser revelado após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo Jesus e a descida do Espírito Santo para capacitar os crentes na proclamação do Evangelho.

A Igreja não substituiu Israel, Deus não anulou sua promessa para com o Seu povo eleito (Romanos 11:1). A ideia de que a Igreja de Cristo substituiu Israel não é bíblica, mas foi tecida por Agostinho de Hipona, o pai do catolicismo e do calvinismo[4].

O teólogo católico Agostinho de Hipona (354-430), o qual com a sua obra “Cidade de Deus” criou o anti-semitismo, que iria gerar implacáveis perseguições aos judeus no mundo inteiro, sob alegação de que eles foram os imperdoáveis assassinos do Senhor Jesus Cristo.
O livro de Agostinho tem dominado as mentes, desde que foi escrito, e tem influenciado também os protestantes, que aderiram à teologia da substituição, acreditando que a Igreja substituiu Israel no plano divino e, portanto, os judeus caíram definitivamente da graça de Deus, por terem rejeitado o seu Messias. Agostinho criou a falsa teologia de que a Igreja de Roma é a substituta literal e por direito de Israel e que todas as promessas feitas por Deus ao Seu povo passaram a valer somente para o “Israel de Deus”, isto é, a Igreja de Roma. [5]

Esta interpretação equivocada, infelizmente, não apenas provocou inúmeras ondas de perseguições aos judeus durante toda a história da igreja (instituição), tanto sob o domínio de Roma, quanto sob o poder da Igreja Reformada, como também tem induzido, sorrateiramente, torções doutrinárias em nossos tempos (especialmente dentro das igrejas neopentecostais que procuram judaizar as doutrinas e costumes cristãos).

Podemos citar, entre elas, a apropriação para a Igreja das ordenanças ou bênçãos dadas (somente e apenas) a Israel, a adoção de ritos e dogmas mosaicos pelo cristianismo e o pressuposto de que a Igreja deve se envolver com os assuntos políticos (tal como os judeus o fizeram durante a monarquia israelense ou durante o cativeiro babilônico, persa ou como José do Egito) a fim de preparar o mundo para receber o “Cristo”.

Existe todo um movimento conhecido como Filhos Manifestos que rejeita o arrebatamento. Cabe aos crentes, de acordo com esse ensinamento, ‘manifestarem-se’ como ‘filhos de Deus’ adquirindo a perfeição impecável e a imortalidade. Isso, eles dizem, não acontecerá quando Cristo voltar, mas deve ser alcançado para trazê-lO de volta.[6]

Devemos compreender que antes da morte de Jesus no Calvário a humanidade se dividia em duas classes de pessoas: os judeus e os gentios. Depois do Calvário compomos três grupos distintos: os judeus, os gentios e cristãos (tanto gentios quanto judeus).

A compreensão equivocada acerca de Israel e a Igreja leva a crer que nós, cristãos e participantes do Corpo de Cristo, somos o “Israel de Deus” ou “Israel Espiritual”.

Não somos o “Israel Espiritual” como se anuncia ou prega e, portanto, não posso transferir para minha vida e para a realidade cristã os preceitos e mandamentos estabelecidos para os judeus no Antigo Testamento.

O Apóstolo Paulo articula detalhada e claramente acerca da diferença entre Israel, Israel Espiritual e a Igreja de Cristo.

Todos os judeus que não se converteram ao Senhor Jesus Cristo compõem o Israel Carnal. "Vede a Israel segundo a carne…" (1 Coríntios 10:18).

Em Romanos 9:6 Paulo escreve “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas“. Percebam que ele destaca, e deixa muito claro, que há judeus que não pertencem à comunidade de Israel mesmo estando fisicamente unidos à ela, pois estão vivendo segundo a carne e não pela fé.

Paulo não está dizendo que há judeus que não são participantes do Corpo de Cristo (Igreja), mas sim que judeus, não convertidos, estão alheios ao Israel de Deus, a Videira donde foram cortados por sua incredulidade (Romanos 11:20).

E há os judeus que se convertem ao Senhor Jesus e se tornam participantes das bênçãos espirituais concedidas à Igreja juntamente com os gentios.

Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus. Gálatas 6:15,16

Percebam que o Apóstolo Paulo declara “…nem a circuncisão (judeus não convertidos), nem a incircuncisão (gentios não convertidos) tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura (judeus e gentios convertidos e batizados no Corpo de Cristo)”.

Posteriormente ele afirma “… a todos quantos andarem conforme esta regra (ou seja, todos os que se tornaram novas criaturas em Jesus Cristo), paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus (judeus convertidos ao Evangelho)”.

A referência… seria ao povo judeu como um todo… em outras passagens Paulo jamais chama os “cristãos” de Israel. Mas, à luz de seu argumento inicial, a expressão deve significar o povo judeu precisamente em sua identidade na Aliança , como “Israel” em vez de “os judeus” [7].

O entendimento da diferença entre Israel carnal e Israel espiritual nos faz compreender, automaticamente, a declaração do Apóstolo Paulo em Romanos 11:26 acerca da salvação de todo Israel, neste caso, o Israel espiritual.

Mas por que entender a questão Israel carnal, Israel espiritual e Igreja se torna tão importante?

A reposta é simples, pois se não compreendermos que a Igreja não substituiu Israel (com base na interpretação errônea do termo “Israel de Deus” e na aceitação da doutrina antibíblica de Agostinho) corremos o sério risco de assumirmos para a Igreja de Cristo aquilo que jamais deveria ser assumido.

Quando o cristianismo se torna farisaico

Quanto mais observo o modelo que o cristianismo atual tem tomado mais me espanto com o desvio que estamos seguindo.

Se estudarmos os últimos 1700 anos de história da Igreja veremos que a grande parte dos seus problemas surgiu graças à institucionalização desta.

O ato de ofertar, ou dadivar, que deveria partir da espontaneidade do cristão a fim de suprir as necessidades de seus irmãos na fé tem se tornado, ao longo do tempo, um dogma enrijecido à liturgia do culto.

Não tenho nada contra as orientações litúrgicas (seja qual for a denominação) ou ao ato de ofertar durante o culto, no entanto, tenho observado que a grande maioria dos cristãos têm se acomodado, tem espremido e compactado a vida cristã, que deveria ser um exercício diário, ao período do culto.

Se eu entrego o dízimo ou as ofertas então não sou obrigado a auxiliar os pobres? A dar esmola aos mendigos que me param nas ruas? Ou apoiar projetos de amparos aos cristãos locais ou em outros países?

A resposta óbvia é sim, eu devo fazê-lo! Mas quantos, de fato, têm procedido desta maneira?

Jesus não nos disse “Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mateus 5:42)?

E quando Jesus afirma “Dá a quem te pedir” Ele não especifica a quem ou de que forma devemos doar. Ele não declara que devemos escolher se este é mais merecedor do que aquele.[8]

Muitas vezes negamos uma esmola a um pobre, deixamos de ajudar algum necessitado ou recolhemos as nossas mãos àquele que nos pede socorro, pois achamos que ao dizimar estaremos cumprido todos os mandamentos de Deus.

Estamos nos tornando como os fariseus que dizimavam até da hortelã, mas não possuíam misericórdia para com os necessitados. Eles apenas cumpriam as determinações litúrgicas, os mandamentos da Lei de Moisés no tocante aos rituais no âmbito do Templo.

De que adianta então dizimar se não obedeço às Palavras de Cristo? De que adianta entregar um décimo até mesmo do mais mísero rendimento se não dou esmolas ao pobre?

“Mas e se ele for usar o dinheiro, ou seja lá o que for, com algo indevido?” Este é o primeiro pensamento que nos vêm à mente.[8:1]

Nossa obrigação, como servos de Cristo Jesus, é obedecer Suas Palavras e a obrigação daquele que nos pede é, diante de Deus, gastar o valor solicitado com aquilo que declarou que haveria de gastar.

Infelizmente a institucionalização dos dízimos e das ofertas tem, de certa forma, engessado a grande maioria dos cristãos em um modelo muito parecido ao dos fariseus no período de Jesus.

Obedecemos apenas aos dogmas, mas não exercitamos o amor e a misericórdia exigidos por Deus em relação ao nosso próximo.

Quem estipulou o dízimo para a Igreja?

Para compreendermos as origens do dízimo devemos, primeiramente, estudar um pouco da história da Igreja.

Não encontramos nos primeiros séculos da Igreja nenhuma determinação acerca do dízimo. Tanto na Bíblia Sagrada, quanto nos registros apócrifos dos discípulos de Jesus.

Até o quinto século depois de Cristo não havia nenhuma outra orientação quanto ao contribuir a não ser contribuir através das ofertas que deveriam ser entregues para o sustento dos cristãos necessitados e das autoridades eclesiásticas (bispos, diáconos e presbíteros).

O Didaqué, um conjunto de orientações práticas para os cristãos datado de 90/100 d.C, orienta no Capítulo XIII:

Todo verdadeiro profeta que queira estabelecer-se em seu meio é digno do alimento. Assim também o verdadeiro mestre é digno do seu alimento, como qualquer operário Porém, se você não tiver profetas, dê aos pobres.[9]

Outro compêndio de orientações eclesiásticas, a Didascalia (datado entre os anos de 250 a 300 d.C.), declara:

Reconhece ao bispo o direito de se alimentar do que a Igreja recebe, como faziam os levitas do Antigo Testamento, desde que o bispo tome o cuidado de prover a necessidade dos diáconos, das viúvas, dos órfãos, dos indigentes, dos estrangeiros (grifo meu). [10]

E acrescenta:

O Senhor vos libertou … para não estardes mais presos aos sacrifícios, às oferendas… e também aos dízimos, às primícias, às oblações, aos dons e aos presentes; outrora era absolutamente necessário dar essas coisas. Mas já não estais obrigados por tais determinações. Por isto, na medida em que o puderdes, terás o cuidado de dar. (grifo meu)[10:1]

O dízimo, na Igreja dos primeiros séculos (até mesmo próximo da institucionalização da religião cristã), era inexistente. Então, seguindo a argumentação ilógica de alguns cristãos de nossos dias, nenhum fiel do primeiro século foi salvo, afinal eles não dizimavam.

Os cristãos entendiam, biblicamente, que uma vez libertos em Cristo já não estavam mais presos aos ritos exigidos pela Lei de Moisés na Antiga Aliança.

No entanto, também reconheciam que o corpo eclesiástico necessitava de auxilio material, uma vez que eles se dedicavam ao mantimento espiritual do corpo de Cristo.

É interessante ressaltarmos que o direito do bispo em se alimentar do mantimento entregue pela Igreja estava condicionado (com base nas orientações da Didascalia) ao auxílio deste para com os diáconos, as viúvas, os órfãos, aos indigentes (os mendigos) e os estrangeiros. A própria Bíblia Sagrada nos mostra que havia a preocupação de cuidar dos menos favorecidos da Igreja (Atos 6:1-3; 1 Timóteo 5:3, 16).

Ou seja, o bispo (pastor) deveria receber o mantimento da Igreja e reparti-lo de forma a suprir suas necessidades pessoais e familiares, as necessidades daqueles que compunham o corpo eclesiástico (diáconos), os membros pobres (viúvas e órfãos) e os socialmente desfavorecidos (indigentes e estrangeiros).

Além disso, o próprio Apóstolo Paulo orienta Timóteo para que todos os cristãos participassem do amparo às viúvas a fim de não sobrecarregar a Igreja no auxílio à elas (1 Timóteo 5:16).

No ano de 567 d.C o Sínodo Regional de Tours (Gália) estabeleceu a seguinte determinação:

Instantemente exortamos os fiéis a que, seguindo o exemplo de Abraão, não hesitem em dar a Deus a décima parte de tudo aquilo que possuam, a fim de que não venha a cair na miséria aquele que, por ganância, se recuse a dar pequenas oferendas… Por conseguinte, se alguém quer chegar ao seio de Abraão, não contradiga o exemplo do Patriarca, e ofereça a sua esmola, preparando-se para reinar com Cristo.[11]

Encontramos aqui o princípio das indulgências cobradas pela Igreja Católica, uma vez que considera a possibilidade do fiel oferecer, já no seio de Abraão, uma esmola a fim de reinar com Cristo.

A justificativa apresentada pelo referido Concílio de Tours em favor dos dízimos, era a necessidade de expiar os pecados da população, sobre a qual pesavam guerras e calamidades.[11:1]

O mesmo caminho a Igreja Evangélica tem seguido, tem estabelecido o dízimo como critério para a salvação da alma e a redenção eterna, anulando terrivelmente a morte vicária de Cristo Jesus no Calvário.

Mais um passo foi dado no Concílio de Macon (Gália), em 585, quando os padres conciliares houveram por bem impor a excomunhão a quem se furtasse a pagar sua contribuição à comunidade eclesial. O dever moral torna-se também obrigação jurídica.[11:2]

A instituição do dízimo se tornou, no transcorrer da história da Igreja Romana, uma obrigação civil do fiel sob pena de 60 soldos (salários) caso houvesse o descumprimento.

Com base no breve panorama histórico dos primeiros séculos da Igreja podemos afirmar, sem nenhuma hesitação, que a instituição do dízimo para a Igreja Cristã não é bíblica, mas institucional, promovida e promulgada por homens com o objetivo de sustentar a Instituição e seus gastos.

O que a Bíblia determina para a Igreja?

As orientações bíblicas para os cristãos não apresentam a obrigatoriedade do dízimo, no entanto, nos ensinam que, como participantes do Corpo de Cristo Jesus, devemos auxiliar os nossos irmãos e coerdeiros em suas necessidades materiais.

Bem como, assim como no Antigo Testamento, contribuir materialmente para que o corpo eclesiástico se empenhe no serviço espiritual, contudo, devemos fazê-lo voluntariamente e com singeleza e alegria de coração.

Creio que o termo correto, para nós cristãos, não seria “dizimar”, mas sim “dadivar”.

Dadivar
Fazer dádivas a alguém; ofertar, presentear. [12]

A Bíblia nos ensina que devemos:

  1. Dadivar anonimamente:

Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente. Mateus 6:1-4

  1. Dadivar voluntariamente (por nossa vontade, com amor):

Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente. Pedindo-nos com muitos rogos que aceitássemos a graça e a comunicação deste serviço, que se fazia para com os santos. 2 Coríntios 8:3,4

  1. Dadivar expectativamente, ou seja, com confiança que Deus suprirá todas as nossas necessidades:

E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra; Conforme está escrito:Espalhou, deu aos pobres;a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça. 2 Coríntios 9:8-10

  1. Dadivar animadamente (com ânimo, alegria):

Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. 2 Coríntios 9:7

  1. Dadivar sacrificialmente:

E, estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos deitavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, deitou duas pequenas moedas, que valiam meio centavo. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro; Porque todos ali deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento. Marcos 12:41-44

Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus dada às igrejas da macedônia; Como em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade. Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente. Pedindo-nos com muitos rogos que aceitássemos a graça e a comunicação deste serviço, que se fazia para com os santos. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus. 2 Coríntios 8:1-5

O Novo Testamento nunca estipulou nenhum valor ou percentual para ser entregue pelos cristãos, no entanto, o Apóstolo Paulo declara que devemos fazê-lo proporcionalmente às nossas posses (1 Coríntios 16:2) e sem avareza, ou seja, como forma de barganhar com Deus.

Além disso, a Bíblia Sagrada determina para quais motivos devemos contribuir:

  1. Para satisfazer as necessidades dos santos:

E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. Atos 2:44,45

E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé. Gálatas 6:9,10

Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus? 1 João 3:17

E textos como Mateus 12:50, 25:31-40 e 1 Timóteo 5:16 também nos apresentam esta verdade.

  1. Para satisfazer as necessidades dos obreiros:

Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: "Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" 1 Timóteo 5:17,18

Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar? Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado? Digo eu isto segundo os homens? Ou não diz a lei também o mesmo? Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Certamente que por nós está escrito; porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de ser participante. Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais? Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo. Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho. 1 Coríntios 9:6-14

O mesmo encontramos, também, em Filipenses 4:15-18.

  1. Para satisfazer as necessidades dos pobres:

Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade. Efésios 4:28

A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo. Tiago 1:27

Deveríamos desconsiderar o Antigo Testamento então?

Você pode se perguntar: Então, com base em sua argumentação, deveríamos desconsiderar completamente o Antigo Testamento?

De maneira alguma, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento são de extrema importância para nós, ainda hoje, milênios depois.

Contudo, devemos compreender que o Antigo Testamento não é nossa regra de fé, ele não deve estabelecer as doutrinas que firmaremos nossas vidas.

O Apóstolo Paulo declara que a Lei nos serviu de aio (Gálatas 3:24), ou seja, a Lei nos serviu de tutor que nos guiaria até Jesus Cristo.

Aio (sm)
1. Preceptor encarregado da educação dos filhos de famílias nobres ou ricas.
2. Criado que se ocupa de tarefas voltadas especialmente ao patrão; criado-grave, criado particular, escudeiro. [12:1]

Acerca da Lei podemos destacar alguns pontos:

  1. Foi dada por Deus para despertar no homem a consciência de suas transgressões e a sua necessidade de salvação (Romanos 5:20, 8:2; Gálatas 3:24);
  2. Embora o mandamento fosse bom e justo ele era ineficiente, pois não conseguia transmitir vida espiritual (Romanos 7:12-13; Hebreus 7:18-19);
  3. A Lei era o “aio” do povo até que Deus enviasse a Jesus Cristo (Gálatas 3:22-26);
  4. A Lei foi dada para conduzir até Cristo (Gálatas 3:25).

Estamos libertos de todas as exigências de rituais exigidas pela Lei no Antigo Concerto, nossa vida não está mais pautada sobre os princípios e mandamentos do Antigo Testamento, mas sim sobre Cristo.

Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê. Romanos 10:4

Somos salvos pela exclusividade da graça, através da fé no Senhor Jesus Cristo, não pelas obras ou pelo cumprimento da Lei de Moisés. Jesus já cumpriu a Lei para que tudo fosse consumado nEle (Mateus 5:17; João 19:30; Efésios 2:15; Colossenses 2:14).

Ao declarar em Romanos 3:31, “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei”, o Apóstolo Paulo afirma que, através de Jesus, toda a Lei é cumprida, pela fé, nos crentes.

Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão. Romanos 3:30

Não há necessidade de seguirmos os rituais, os princípios dados a Israel. Basta crermos no Senhor Jesus Cristo.

Ele cumpriu toda a Lei e, através de nossa fé nEle, Deus nos justifica por Sua obediência à toda a Lei.

Toda a Bíblia é importante para nós, cristãos, contudo, o Antigo Testamento não é a doutrina que direciona a prática e a vida cristã. Ele foi escrito para um povo em um período e contexto completamente diferente a fim de estabelecer os princípios civis, religioso e moral de uma nação.

Não vivemos sob a Lei, não estamos debaixo dos costumes, tradições e doutrinas do Antigo Testamento. E isso implica, consequentemente, que nosso único modelo doutrinário se encontra no Novo Testamento o qual, como já destacamos, não apresenta nenhum ensinamento quanto a obrigatoriedade do dízimo (um décimo da renda) para a Igreja de Cristo.

Considerações finais

As Escrituras não ensinam que o dízimo é obrigatório sobre os crentes durante o Novo Testamento. No entanto, as mesmas Escrituras ensinam que os crentes devem ser dadivadores generosos, sacrificiais, expectantes, e gozosamente animados! [13]

Gostaria de deixar claro que a intenção deste artigo não é, em hipótese nenhuma, fornecer subsídios ou argumentações para que os cristãos deixem de contribuir para a obra e a causa do Senhor, pelo contrário.

O objetivo central é muni-los com a Palavra de Deus a fim de que não sejam engodados pelos falsos mestres que reduzem o Sacrifício de Jesus Cristo e impõem pesadas cargas sobre a Igreja.

Bem como alertá-los para o fato de que o dízimo, ou melhor, as ofertas, se não forem entregues voluntariamente, com singeleza e alegria de coração, não possuem valor algum diante de Deus.

Creio que tenha sanado as possíveis dúvidas acerca deste tema tão abusado pela Igreja Instituição. Contudo, deixo à disposição não apenas o campo de comentários para possíveis discussões (no sentido etimológico da palavra), mas também o nosso fórum.

Embora desejasse escrever um artigo o mais breve possível este, infelizmente, ultrapassou as 8.000 palavras (muito acima do padrão de artigos do Euaggelion), contudo, se fez necessário apresentar todos os panoramas possíveis acerca deste tema que tem desolado muitas igrejas e almas para que consigamos compreender, claramente, a verdade acerca do dízimo.


  1. Flávio Josefo. História dos Hebreus. Rio de Janeiro. CPAD, 2016.pag. 107. ↩︎

  2. Brian Anderson. O dízimo do Velho Testamento, versus o dadivar do Novo Testamento. Tradução de Hélio de Menezes Silva. Disponível em http://solascriptura-tt.org/VidaDosCrentes/ComRiquezas/DizimoVT-X-DadivarNT-Anderson.htm ↩︎ ↩︎

  3. Leonardo Damasco. Existe mesmo o demônio devorador? 2014. Disponível em http://bereianos.blogspot.com.br/2014/01/existe-mesmo-o-demonio-devorador.html ↩︎

  4. Dave Hunt. Que amor é esse? A falsa representação de Deus no calvinismo. Tradução Cloves Rocha dos Santos. São Paulo. Editora Reflexão. 2015 ↩︎

  5. Artigo “Agostinho de Hipona”. Por Mary Schultze. Citado em “Não sou o ‘Israel de Deus'”. Por Humberto Fontes – http://solascriptura-tt.org/EscatologiaEDispensacoes/NaoSouOIsraelDeDeus-HFontes.htm ↩︎

  6. Dave Hunt. Quanto tempo nos resta? Provas convincentes da volta iminente de Cristo. ↩︎

  7. James Dunn, The Epistle to the Galatians (London: A & C Black, 1993), 345. Citado em “Quem é o Israel de Deus?” Por Mal Couch – http://www.beth-shalom.com.br/artigos/israel_de_deus.html ↩︎

  8. Devocional “Dá a quem te pedir” – https://euaggelion.blog.br/devocional/da-quem-te-pedir ↩︎ ↩︎

  9. Didaqué – A Instrução dos Doze Apóstolos. Baixar em PDF. ↩︎

  10. Didascalia – Citado em “Alguns aspectos da história do Dízimo”. Luiz Tarciso. Disponível em http://luiztarciso.net/dizimo/dizhist-html/ ↩︎ ↩︎

  11. Artigo “Alguns aspectos da história do Dízimo” – Por Luiz Tarciso – http://luiztarciso.net/dizimo/dizhist-html/ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  12. Dicionário Michaelis Online. Disponível em http://michaelis.uol.com.br/ ↩︎ ↩︎

  13. Brian Anderson. O dízimo do Velho Testamento, versus o dadivar do Novo Testamento. Tradução de Hélio de Menezes Silva. Disponível em http://solascriptura-tt.org/VidaDosCrentes/ComRiquezas/DizimoVT-X-DadivarNT-Anderson.htm ↩︎

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, fundador e editor do Euaggelion.

Ler mais