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Podemos ser bons sem Deus? – Série Apologética #03

“Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17)

No terceiro artigo da série “Defenda a Fé Cristã” abordaremos a questão “Podemos ser bons sem Deus”? Quais seriam as implicações da inexistência de Deus sobre os valores morais? No artigo da semana passada introduzimos as trágicas conclusões de um Universo sem Deus no âmbito moral.

Uma breve abordagem à lógica

A partir deste artigo estaremos aplicando um método de argumentação conhecido como argumento logicamente válido. Toda conclusão apresentada será extraída de um caminho, um processo lógico e, para combate-la, devemos primeiro derrubar uma de suas premissas antecessoras. Tome como base o seguinte argumento como explicação:

  1. Todo humano adulto já foi criança;
  2. Trump é um humano adulto;
  3. Logo, Trump já foi criança.

Percebam que se os tópicos 1 e 2 são válidos então a conclusão, o tópico 3, é logicamente válido também. Se alguém discordasse de nossa afirmação, que Donald Trump já foi uma criança, deveria então derrubar uma das assertivas anteriores.

Lembre-se, no entanto, que você não pode forçar alguém a aceitar sua conclusão, no entanto, ao apresentar bases sólidas para suas premissas você elevará o preço a ser pago. Alguém que discorde que todo humano adulto já foi criança, mesmo diante de todas as provas científicas e do senso comum deverá, ao final, aceitar o preço de ser considerado incoerente ou, no pior dos casos, louco.

Podemos ser bons sem Deus?

Sem Deus não há quem possa balizar a moral humana nem, muito menos, requerer um comportamento correto e íntegro. Antes que alguém compreenda a questão erroneamente, vamos deixar claro que o nosso questionamento não é “Podemos ser bons sem acreditar em Deus”? Mas sim “Se Deus não existir podemos ser bons”?

Compreendendo esta breve diferença avancemos para a questão, para isso vamos dividir este artigo em três premissas básicas:

  1. Se Deus não existe, não existem valores morais objetivos nem deveres;
  2. Valores morais objetivos e deveres existem;
  3. Portanto, Deus existe.

Sem Deus não há valores morais ou deveres objetivos

Antes de defendermos a primeira premissa vamos elucidar o que queremos dizer ao nos referir à valores e deveres objetivos. Para isso seguiremos a definição traçada por Lane Craig:

“Valor tem a ver com o fato de algo ser bom ou mau. Deveres têm a ver com o fato de algo ser certo ou errado” [1].

Pode surgir uma pequena confusão entre algo ser bom ou mau e certo ou errado. Normalmente associamos o bom com certo e o mau com errado. Contudo o valor se refere ao mérito de determinada ação, indiferente se a pessoa que a praticou seja boa ou má, enquanto que o dever se refere à obrigação de agir da maneira certa mesmo que isso seja errado. Vamos exemplificar:

Ao dizermos “objetivo” e “subjetivo” devemos ter em mente a diferença básica que existe entre estes dois termos.

“Por objetivo quero dizer ‘independente da opinião das pessoas’ e por subjetivo, ‘dependente da opinião das pessoas’” [2].

Considere o seguinte infográfico:

Com tais considerações em mente avancemos para avaliarmos a primeira premissa “Sem Deus não há valores morais ou deveres objetivos”.

Os valores morais objetivos exigem a existência de Deus (mais adiante veremos porquê) e, neste aspecto, o cristianismo consegue, muito bem, trabalhar a questão. Tiago escreve “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto”. Deus é a fonte de todo bem e bondade. Ao criar o homem o próprio Senhor lhe concedeu parte de Sua natureza moral, escrevendo-a em nossos corações.

Contudo, o naturalismo, que entende que as únicas coisas existentes são as que podem ser explicadas pela ciência, se esbarra com este problema, pois a ciência não define o que é moral ou não, ela é neutra, “… não se pode encontrar valores morais em um tubo de ensaio” [3]. Sendo assim a moralidade seria nada menos do que uma abstração da mente humana.

Para Frans de Waal, primatólogo e biólogo, a moralidade se firma em dois pilares, o primeiro é a reciprocidade, que está relacionada ao senso de justiça e igualdade e o segundo pilar é a empatia e compaixão, a moralidade humana, segundo Waal, vai além disso, mas sem estes dois elementos então não há um sólido fundamento para seu desenvolvimento, além disso Waal sustenta o entendimento do condicionamento sócio-biológico para explicar os valores morais humanos.

Para tanto, ele apresenta uma série de pesquisas realizadas com primatas, no qual a cooperação, reciprocidade e o egoísmo são testados e estudados. Contudo, mesmo diante das tentadoras argumentações de Waal para cremos na moralidade como parte do processo evolutivo e no condicionamento social, nos deparamos com a seguinte questão “Porque cooperação é bom e egoísmo é ruim”?

“A resposta é óbvia” – você argumenta “O egoísmo compromete o desenvolvimento coletivo, seja qual for a espécie, enquanto que a cooperação estabelece laços entre os seres humanos e proporciona um bom terreno para o desenvolvimento social e biológico”.

Não é esta a questão! Me refiro qual é a base de julgamento utilizada para se afirmar que a cooperação é “boa” e o egoísmo é “ruim”? O que é “bom” e “ruim”? Lembra-se do que Dawkins escreve: “… no final não há nenhum design, nenhum propósito, nenhum mal, nenhum bem, nada mais do que uma insípida indiferença”?

Molly Crockett questiona “… como nós sabemos o que é certo e o que é errado”? Em uma de suas pesquisas, no âmbito da neurociência, ela propõe que os valores morais humanos e seu julgamento de certo e errado são mutáveis e dependem desde da quantidade de substâncias químicas produzidas por nossos cérebros e/ou envolvidas durante as sinapses nervosas, até ao tipo de alimentação que ingerimos. Ou seja, não há valores morais absolutos e imutáveis, mas sim valores que se moldam de acordo com a circunstância na qual estamos inseridos, seja consciente ou não.

Após apresentar, em uma de suas palestras na TED, os resultados de suas pesquisas, Crockett encerra sua argumentação conclamando “Enquanto nós acreditarmos que valores morais são inabaláveis, nós continuaremos a investir recursos em lutar contra os outros em vez de buscar um meio termo”.

E ainda acrescenta “Porque uma vez que aceitarmos que nossos valores podem mudar por fatores além do nosso conhecimento e controle, talvez nós fiquemos um pouco menos apegados a eles. E quanto mais cedo nos livrarmos desse apego é melhor”.

Contudo, por mais emocionante e humanista que o discurso de Crockett possa ser (um apelo à compreensão e aceitação das diversidades morais com um chamado final ao despertamento) ele pode, se aderirmos inconscientemente às suas argumentações, nos levar à uma falácia non sequitur (Não se segue).

Ela postula que uma vez que as ações humanas frente à moral podem ser alteradas pela química (objeto de estudo de Crockett) então, por consequência, a moral também é mutável. Contudo os valores morais não dependem de circunstâncias, há uma grande diferença entre aceitar os princípios morais com uma visão relativa e anular a objetividade da moral em sua fundamentação.

Nem só porque os nazistas exterminaram judeus, deficientes e homossexuais nos campos de concentração sob a justificativa da preservação da raça ariana significa, por consequência, que tal atitude seja moralmente justificada, indiferente se havia fatores psicológicos ou químicos envolvidos. O julgamento moral do indivíduo, por mais alterado que seja, não anula a objetividade moral.

Além disso, ao falar que o julgamento de fatos é mutável e, por consequência não existe uma verdade absoluta, Crockett inconscientemente assume uma posição auto-refutadora, pois ao argumentar que não existe verdade absoluta sua afirmação, a qual ela pressupõe que seja verdade, é fatalmente atingida. Uma vez que, para ela é verdade, enquanto que para mim não!

Seria o mesmo que falarmos “Todos que afirmam estar corretos e os outros errados são intolerantes”.

Retornando a Waal, encontramos ainda a seguinte afirmação “E nós trabalhamos nesses tópicos particulares [ao se referir às suas pesquisas com primatas] para ver se podemos criar uma moralidade de baixo para cima, por assim dizer, sem necessariamente um Deus ou religião…”

O problema central da linha de raciocínio de Waal é que ele confunde a cooperação natural com moral, é óbvio que animais, principalmente mamíferos, possuem grande senso de cooperativismo e de vida social, no entanto, não existe moral para eles, não existem valores. Quando um leão mata uma zebra, um empala ou um búfalo ele apenas os mata, não os assassina.

Dada a premissa naturalista de que somo tão animais quanto todas as outras espécies então por que algumas ações são consideradas hediondas? Conforme avaliamos no artigo da semana passada a moral não necessariamente está de acordo com a manutenção da espécie, ou ao seu desenvolvimento biológico.

Percebam que o propósito do naturalismo é retirar Deus da questão, no entanto, “… se Deus não existir, parece não haver qualquer razão para considerar a moralidade de bando desenvolvida pelo Homo sapiens como algo objetivamente verdadeiro” [4].

Se seguirmos a tese de Waal em criar uma moralidade “de baixo para cima”, ou seja, independente de Deus caímos num grande dilema: o que é bom para mim pode não ser bom para você e, portanto, não podemos dizer que o genocídio, o estupro, o roubo, a corrupção ou qualquer outro ato horrendo é imoral. Você concorda com isso? Creio que não!

Enquanto a moral depender única e exclusivamente do homem então não temos bons motivos para a considerarmos como um princípio coerente.

O dilema de Eutífron

Neste ponto um ateísta pode argumentar: “Ok, vamos inserir Deus na equação. Mas algo é bom porque Deus assim deseja ou porque Deus deseja algo se torna bom”?

Não se engane, nenhuma das alternativas propostas estão corretas! Se aceitarmos o fato de que algo é bom e, por este motivo, Deus o deseja então o princípio de bem e mal não depende do Senhor Deus, mas se aceitarmos que Deus deseja algo e, por este motivo, isto se torna bom então o bem se torna arbitrário.

Então qual é a solução para o dilema? Podemos propor uma terceira alternativa: Deus deseja algo porque Ele é bom. Os valores morais estão completamente ligados ao Senhor Deus, o próprio caráter de Deus define o que é bom.

O que é realmente bom ou mal é definido pela natureza de nosso Deus e o que é moralmente certo ou errado é definido por sua vontade em concordância com Seu caráter. Poderíamos aprofundar um pouco mais nesta questão, contudo, para que o artigo não fique excessivamente extenso, nos limitaremos ao que foi supracitado, mas ao final do artigo deixaremos alguns links complementares ao conteúdo aqui apresentado caso deseje estudar com mais detalhes.

Platonismo moral ateísta

Uma segunda objeção à primeira premissa é o fato de Platão crer que o bem, e por consequência o mal, existe por si só, ou seja, um conceito auto existente. Vamos clarear a questão, o nosso senso de justiça nada mais é do que a “incorporação” de um princípio moral atemporal que existe sem nenhum fundamento.

Desta maneira o ateísmo pode argumentar que valores morais objetivos existem, mas não necessitam de Deus. Contudo, encontramos alguns problemas com o platonismo moral ateísta.

Primeiramente, nem só porque existem estes valores morais significam que temos deveres morais. Porque eu seria obrigado a viver de maneira alinhada ao cumprimento de valores tais como bondade, justiça, honestidade, etc.? Quem me imporia esta obrigação?

Segundo ponto, dada a premissa naturalista, quais seriam as probabilidades do processo evolutivo se alinhar precisamente aos domínios morais abstratos? Que garantias há que a evolução geraria seres capazes de corresponder aos valores morais atemporais?

Por fim, o platonismo moral ateísta não apenas se trata de um conceito, ao extremo abstrato, mas também ininteligível, tal como Lane Craig declara “É fácil compreender o que significa dizer que alguém é justo, mas é desconcertante quando alguém diz que a justiça existe por si só, na ausência de qualquer pessoa” [5].

Humanismo obstinado

O humanismo obstinado nada mais é do que uma tentativa ateísta de abraçar a objetividade moral e, ao mesmo tempo, descartar Deus da questão.

“O que quer que contribua para o progresso humano é bom e o que quer que impeça é mau, e a história termina por aqui” [6]

Destacamos, anteriormente, a frase de Waal declarada ao final de uma palestra na TED e, nos convém, destaca-la novamente:

“E nós trabalhamos nesses tópicos particulares para ver se podemos criar uma moralidade de baixo para cima, por assim dizer, sem necessariamente um Deus ou religião…”

O que o ateísta faz, nesta altura, é apostar todas as suas cartas em favor de uma moral firmada apenas e tão somente na evolução da espécie humana. No entanto, conforme os estudos de Crockett apontam (e cabe lembrar que ela também é ateísta) o julgamento moral humano varia conforme a circunstância e, portanto, não encontramos bases no homem para crermos que há alguma objetividade moral.

Para agravar este quadro nos deparamos com duas questões que, inevitavelmente, minam as bases do humanismo obstinado. Lane Craig observa que “… tomar o progresso humano como ponto de parada final parece ser prematuro, devido a arbitrariedade e implausibilidade desse ponto” [7].

Por arbitrariedade Craig quer dizer que, se o ateísmo for verdadeiro e a raça humana não se diferencia em nada das demais espécies de animais, por que o processo que conduz o progresso humano é mais valioso do que o processo que conduz o progresso dos insetos, por exemplo? Por que o processo evolutivo humano seria moralmente especial diante dos demais animais? Tal postura não passa de especismo, dado a veracidade do ateísmo.

E a implausibilidade se refere ao fato de que as propriedades morais se vinculam ao comportamento humano, ou seja, a bondade está se vincula ao homem que alimenta um morador de rua faminto em uma fria noite de inverno, enquanto a maldade está vinculada ao assassino no momento em que ele dispara sua arma.

“Os ateístas dirão que, uma vez que as propriedades puramente naturais estão em seu devido lugar, então as propriedades morais as acompanham” [8].

No entanto, se a premissa ateísta for verdadeira tal conclusão é totalmente implausível, uma vez que não existem propriedades morais no universo físico, e por que elas se vinculariam às propriedades naturais?

Valores morais existem

Sabemos, contudo, que valores morais não apenas existem como também convivemos diariamente com eles.

Todos os dias lidamos com questões que colocam a prova nossos princípios morais e, mesmo que nossa atitude seja taxada como errada, sabemos que estamos agindo corretamente.

Por exemplo, suponhamos que você está numa roda de amigos durante o intervalo do trabalho ou da faculdade, e vocês se dirigem à uma lanchonete para tomarem um café. Após fazer o seu pedido, você percebe que a moça do caixa lhe devolveu troco a mais. O que você faria?

Óbvio que seus colegas, ou grande parte deles, lhe considerasse um idiota se você devolvesse o dinheiro, no entanto, você sabe que aquele troco não lhe pertence.

Pode parecer uma situação simplesmente hipotética, contudo, sei que ela ocorre todos os dias e, mesmo contra as acusações da consciência, muitas pessoas simplesmente não devolvem aquele troco.

Sabemos que os valores morais existem e que, além dos valores morais, temos obrigações morais também. Quem não se sente moralmente obrigado em auxiliar alguém que se encontra em situação de perigo ou em risco de morte?

Mas, algum ateu pode argumentar que existem objeções sociobiológicas para não confiarmos em nossa moral.

Pois bem, tal argumentação afirma que a explicação do condicionamento social e da evolução biológica da espécie humana coloca em descrédito a validade e autenticidade de nossas experiências morais.

No entanto, as objeções sociobiológicas nada contribuem para anular a validade da moral, pelo contrário, ela apenas comente uma falácia genética. “Você pode ter adquirido suas crenças morais por meio de um biscoitinho da sorte […] e ainda sim pode acontecer de elas serem verdadeiras” [9].

Porém, tal argumentação se esbarra em dois problemas:

  1. Esta objeção toma como princípio a veracidade do ateísmo;
  2. Dada a veracidade do ateísmo, nos deparamos com uma argumentação autodestrutiva.

O primeiro ponto para que a objeção sociobiológica seja verdadeira é a veracidade do ateísmo, se Deus existe então toda objeção desmorona, mas se Ele não existe então nossas crenças são moldadas apenas como objetivo último a sobrevivência e não a verdade.

Se para que a espécie humana sobrevivesse deveríamos ser corruptos, então o processo evolutivo tornaria a corrupção um valor moral aceitável. Contudo, se Deus existir então este primeiro ponto se invalida.

O segundo problema desta objeção é o fato de que, se o naturalismo for verdadeiro, então todas as crenças, sejam elas morais ou não, são frutos do processo evolutivo e, por este motivo, não são necessariamente verdadeiras. O próprio processo evolutivo seria passível de questionamentos.

A própria objeção sociobiológica é fruto do processo evolutivo e do condicionamento social sendo, por consequência, plausível de ser questionada. Em nada essa objeção contribui para a descrença da inexistência dos valores morais.

Deus existe, conclusão lógica

Uma vez que observamos que sem Deus não seria possível a existência da moral e, no entanto, observamos que vivemos moralmente então segue-se, por consequência lógica, que Deus existe.

Tal conclusão vai de encontro com os escritos do Apóstolo Paulo registrados em Romanos 2:14-16:

“Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho”

Os gentios, cuja Lei de Moisés não havia sido apresentada, cumpriam a lei em seu coração, pois o próprio Deus gravou, dentro de cada homem, os preceitos e valores morais. Ficamos por aqui, te espero na próxima semana quando trataremos da origem e complexidade do Universo.

Referências:

O dilema de Eutífron – Reasonable Faith.

Frans de Waal: Comportamento moral em animais.

Molly Crockett – valores morais são fixos?

[1] CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2011,

[2] Ibid, p. 143

[3] Ibid, p. 144;

[4] Ibid, p. 145;

[5] Ibid, p. 150;

[6] Ibid, p. 152;

[7] Idem;

[8] Idem;

[9] Ibid, p. 157;