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Que diferença faz se Deus não existe? – Série Apologética #02

“Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!” (Eclesiastes 2:16)

Qual é a implicação da inexistência de Deus? Pergunte a si mesmo:

“Que diferença faz se Deus não existir?”

Por enquanto não sustente sua resposta com base em suas experiências pessoais com Ele e em sua fé.

Estamos, nesta série de artigos, procurando entender e analisar alguns pontos e temas sob a ótica lógica.

Faça a pergunta novamente e procure algumas respostas, se você julgar necessário deixe as respostas nos comentários e, depois, continue lendo o artigo!

Pois bem, o Pregador, filho de Davi e rei em Jerusalém (Eclesiastes 1:1) nos fornece algumas respostas para a pergunta apresentada.

No primeiro capítulo ele afirma que tudo é vaidade (v. 2), que não há vantagem no trabalho do homem (v.3), que a nossa existência é insignificante diante da realidade do Universo (v. 4-11).

De fato, numa leitura superficial, pode parecer que Salomão está negando todo o propósito da vida humana e analisando nossa existência sob uma ótica, em extremo, pessimista.

No entanto, o que ele procura mostrar é a inutilidade da vida do homem longe de Deus, a insignificância do homem diante de um Universo sem Deus.

Nossa existência, sob a ótica naturalista, realmente não tem valor algum! Por naturalismo não nos referimos à natureza ou ao que por ela é produzida, mas sim à:

“… doutrina que, negando a existência de esferas transcendentes ou metafísicas, integra as realidades anímicas, espirituais ou forças criadoras no interior da natureza, concebendo-as redutíveis ou explicáveis nos termos das leis e fenômenos do mundo”

Mas o que Salomão está nos dizendo? Ele busca, em última análise, compreender e avaliar a futilidade dos prazeres, riquezas e poder de uma vida voltada apenas ao mundo físico, ao material.

O absurdo da vida sem Deus

Sem um Deus Criador que nos comunica de seus padrões morais aos homens (Gênesis 1:26) não temos nem a esperança eterna, nem bons motivos para vivermos coerentemente nesta Terra.

O Universo sem Deus está, claramente, fadado à inexistência, o homem, assim como todos os demais organismos vivos, está destinado apenas e tão somente à morte.

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade” (Eclesiastes 3:19)

A vida humana na cosmovisão ateísta está limitada a um breve período de tempo, em uma existência sem nenhum valor, propósito e sentido e, ao final de tudo, em uma eterna, fria e nua inexistência.

Paul Tillich, teólogo e filósofo da religião, aborda a questão e escreve acerca da “ameaça do não ser”.

Embora seja criticado por alguns teólogos devemos, contudo, considerar as conclusões de Tillich no campo do existencialismo, uma vez que ele apresenta a clara realidade do Universo sem Deus;

“A ansiedade básica, a ansiedade de um ser ante a ameaça do não-ser, não pode ser eliminada” [1]

Sem Deus o homem deve se deparar com a realidade de que, inevitavelmente, ele deixará de existir, deixará de ser e, conforme Tillich escreve, a ansiedade proveniente de tal realidade não pode ser eliminada.

Por mais que você esteja aproveitando sua vida um dia vai morrer, gostando da ideia ou não. A morte é a única certeza de um ser humano.

Lane Craig deixa muito claro esta verdade ao escrever:

“Essa ideia é atordoante e ameaçadora: pensar que a pessoa que chamo de ‘mim mesmo’ deixará de existir, e não mais será!” [2]

A morte, sem nenhuma sombra de dúvidas, é o maior medo da humanidade, pois uma vez que o homem não considera a existência de Deus ele deverá encarar, solitariamente, o seu frio destino.

Sem Deus a vida se torna absurda em seu início e absurda em seu fim.

“O próprio universo também encara a morte a seu próprio modo. Os cientistas nos dizem que o universo está se expandindo, e que as galáxias estão cada vez mais se distanciando. À medida que se consome a energia. Um dia todas as estrelas se apagarão, e toda a matéria será atraída por estrelas mortas e buracos negros. Não haverá mais luz, nem calor, nem vida; somente estrelas mortas e galáxias expandindo-se cada vez para dentro da escuridão sem fim dos frios intervalos do espaço – um universo em ruínas” [3]

Sem Deus esse será o destino do nosso universo, o fim, a inexistência perpétua. Se o Senhor Criador não intervir em nosso universo a trágica previsão enunciada por Craig se concretizará.

O pregador reconheceu muito bem essa trágica conclusão:

Amontoei também para mim prata e ouro, e tesouros dos reis e das províncias; provi-me de cantores e cantoras, e das delícias dos filhos dos homens; e de instrumentos de música de toda a espécie.

E fui engrandecido, e aumentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.

E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho.

E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol. (Eclesiastes 2:8-11)

Tudo ao final é inútil, tolo e enfadonho. Qual é a vantagem de se empenhar em algo sendo que sua existência é como o vapor?

“Pelo menos terei aproveitado minha vida e auxiliado os outros” – você argumenta.

Mas considere que, se não há um Deus que dê valor, sentido e propósito, então tanto faz a maneira como você vive, indiferente se você foi bom ou mal você morrerá e deixará de existir tal como Tillich escreve.

“Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!” (Eclesiastes 2:16)

É fácil apresentarmos este argumento como uma justificativa de nossa existência, contudo, ao final das contas nos deparamos com uma afirmativa inválida.

Pois por mais altruísta que minha vida seja, sem Deus, ela se limitará à esta existência isso implica que, ao final, não haverá do que me orgulhar pelo bem feito ou de me envergonhar do que não fiz.

Não haverá uma consciência transcendente que refletirá acerca daquilo que fiz ou não.

Richard Dawkins, biólogo ateísta, exprime com muita sinceridade o ponto da questão, segundo ele “no final não há nenhum design, nenhum propósito, nenhum mal, nenhum bem, nada mais do que uma insípida indiferença”.

Não há sentido em nos apoiarmos no altruísmo como justificativa para nossa existência neste mundo, pois além da inexistência de uma consciência pós-vida para nos censurar ou nos elogiar, nenhum esforço aqui realizado será, ao final de tudo, válido.

Eu ajudo “a”, mas ao final “a” também terá o mesmo trágico e insignificante fim que eu, o seu ser que tão carinhosamente ele chama de “si mesmo” se extinguirá tal como uma pasta deletada de um computador.

O absurdo da vida sem Deus avança além da mísera existência acidental da espécie humana, mas nos leva a concluir que nossa própria vida não possuí nenhum valor, sentido e propósito últimos.

Analisemos, com mais detalhes, cada um destes pontos.

Sem sentido último

Por sentido nos referimos à importância, à relevância.

“Se toda pessoa deixa de existir quando morre, então, que sentido último há em viver?”

Qual o sentido e importância da vida afinal se tudo se encerra na morte?

Você pode atribuir importância à sua vida em determinadas circunstâncias, mas sob o escopo naturalista, ao final de tudo, não há nenhum sentido em você ter existido ou ter deixado de existir. Sua mera existência não implica em, absolutamente, nada no universo.

“A humanidade, portanto, não tem mais sentido do que um enxame de mosquitos ou um punhado de porcos, pois o final de todos é o mesmo. O processo cósmico cego, do qual eles resultaram, vai, no fim de tudo, traga-los de volta. As contribuições de um cientista para o avanço do conhecimento humano, as pesquisas para aliviar a dor e diminuir o sofrimento, os esforços diplomáticos para garantir a paz mundial, os sacrifícios feitos por pessoas de bem, em todo o mundo, para melhorar a sorte da raça humana – tudo isso resultará em nada. Este é o horror do homem moderno: por ele acabar em nada, ele nada é” [5]

Aqui está o ponto central, se o homem terminará em nada, ele nada é… E creio que todos se consideram algo, certo?

Contudo, a solução não se encontra em inserirmos a imortalidade na equação. Craig exemplifica a situação através da seguinte ilustração.

Em um canto longínquo do universo um astronauta se viu abandonado em um pedaço insignificante de rocha árida e sem vida.

Ele tinha em suas mãos, no entanto, dois frascos: o primeiro continha a fórmula da imortalidade e o segundo, veneno.

Ao considerar que ele jamais sairia dali e jamais conseguiria obter socorro algum aquele pobre astronauta resolve então tomar o frasco de veneno.

Mas, para seu horror e desgosto, ele percebe que tinha acabado de tomar o frasco com a fórmula da imortalidade.

Por mais infantil que tal ilustração possa parecer ela apresenta, de maneira muito clara, a realidade de que sem Deus nossa vida, mesmo que ela seja eterna, será como deste astronauta, sem sentido algum.

Não precisamos apenas da imortalidade para acrescentarmos algum sentido à existência humana, precisamos de Deus e da imortalidade para que nossa vida tenha sentido último, no entanto, se Ele não existir não teremos absolutamente um ou outro.

Sem valor último

Se a vida humana se encerra no túmulo, na morte, então tanto faz se você é um serial killer ou um caridoso membro dos Médicos Sem Fronteiras.

Por valor nos referimos ao bem e mal, certo e errado.

Dostoiévski escreveu certa vez que “Se a imortalidade não existe […] então tudo é permitido”. Lembre-se, contudo, que só pode haver imortalidade se houver Deus.

Sem Deus não há quem possa julgar o mal e recompensar o bem feito em vida, além disso não há quem forneça um padrão objetivo de certo, errado, bem e mal. Não há nenhum balizador moral.

Hitler não foi tão cruel como dizem, pois, sem o Criador de todas as coisas, não há padrão de bem e, uma vez que o mal foi criado pelo cristianismo, então não há virtudes objetivas.

“Mas a moral e o bem são, muitas vezes, o meio pelo qual a sociedade encontrou, através do condicionamento social e evolutivo, um meio de se favorecer: eu te ajudo e você me ajuda”.

Contudo, nem sempre interesses pessoais e/ou coletivos, são morais e nem sempre o imoral compromete a existência da raça humana, por exemplo:

O estupro é um claro demonstrativo de imoralidade e de violação dos direitos básicos de integridade e dignidade, contudo, sob o pretexto e ótica naturalista tal comportamento não é um tipo de postura ou ato que comprometa a espécie humana.

Na realidade, o estupro não deveria ser considerado tão repugnante, pois quando um macho não encontra um par, por seu instinto inconsciente de sobrevivência e reprodução ele se impõe à fêmea.

Mas a tese levantada por Thonhill e T. Palmer em seu livro “A Natural History of Rape:  Biological Bases of Sexual Coercion” (“A História Natural da Violação: Bases Biológicas da Coerção Sexual”, em tradução literal) é inválida em extremo.

O estupro não é apenas imoral como também doentio e todos nós sabemos disso! Mesmo que, para a análise naturalista, tal ato seja aceitável.

Se discorda de mim então você não precisa de argumentos, você precisa de ajuda e o mais rápido possível.

O segundo exemplo que podemos dar é o aborto. Tal temática tem ganhado muita força e, para muitos segmentos da sociedade, o aborto não apenas é válido como também jamais deve ser classificado como imoral.

Contudo, sob termos gerais, o aborto é um claro ataque à raça humana. Desde o primeiro dia de desenvolvimento do feto ele é um ser humano com valores intrínsecos.

Não cometa o erro de confundir o “ser humano” (ser vivo) com “estágio de desenvolvimento posterior”.

Um embrião pode não ser um bebê, uma criança ou um adulto humano, no entanto, ele é um ser humano desde sua concepção, ou você acha que antes de nascer ou de atingir determinado estágio de desenvolvimento ele é um felino, um réptil ou um anfíbio?

“Dezoito dias após a concepção, o coração [do feto] começa a se formar, e três dias depois já começa a bater. Nessa fase da gravidez, a maioria das mulheres ainda nem sabe que está grávida. E a grande maioria dos abortos acontece depois desse estágio. Isso significa que virtualmente todo aborto interrompe o batimento de um coração – de um coração humano!” [6]

Portanto, o aborto, por mais moral que seja para alguns, é um ataque ao direito mais elementar do ser humano: o direito à vida.

Em suma, valores morais são transcendentais ao desenvolvimento biológico, não se limitam apenas ao sentimento de reciprocidade ou da tese da manutenção da espécie.

O Apóstolo Paulo escreve:

“Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2:14-15)

O próprio Deus deixou a lei moral “… escrita em seus corações…”

Mas, sem Deus, não há nem certo e nem errado, o estupro pode ser aceito ou não e o aborto se torna, por consequência, questão de escolha pessoal. Não há mentira nem verdade, tudo se torna relativo, o mal não existe, nem muito menos o bem, mas, como Dawkins escreve, apenas uma insensível indiferença.

“Matar ou amar alguém são coisas moralmente equivalentes, pois em um universo sem Deus, não há bem e mal […] e não há ninguém para dizer se você está certo ou errado” – Lane Craig

Sem propósito último

Por propósito nos referimos à meta, à razão para que algo exista.

“Se [apenas] a morte nos espera de braços abertos no fim da estrada, qual é o propósito de viver?”

Se Deus não existir estamos neste fragmento espacial sem propósito algum e, quanto mais cedo entendermos isso, mais cedo aceitaremos a triste, cruel e fria realidade.

Não há diferença qualitativa entre os seres humanos e os animais em um universo naturalista.

“Se Deus não existir, então você não passa de um aborto da natureza jogado em universo sem propósito para viver uma vida sem propósito”

Se Deus existe então nos resta alguma esperança, mas se Ele não existir então tudo que nos aguarda é a indiferença e a eterna inexistência.

O ateísmo é impossível de se praticar

Sob as assertivas apresentadas podemos, sem dúvidas, dizer que a prática do ateísmo é impossível, pois ele requer que encaremos a nua e insensível realidade de uma existência sem valor algum.

Contudo, sabemos que muitos ateus (sejam eles conscientes ou não) parecem viver, sinceramente, uma vida cheia de alegria, propósito, valores morais e sentido.

Na realidade não é bem assim, Craig nos explica ao dizer que “Se você viver consistentemente dentro dela [estrutura da cosmovisão ateísta], não será feliz; se for feliz é por não viver de forma consistente segundo esta cosmovisão” [9].

De fato, que se sente feliz em saber que somos um acidente do universo vivendo em um pedaço inútil deste espaço para um fim indiferente de inexistência?

Para escapar deste trágico cenário o homem vive, conforme o teólogo Francis Schaeffer escreve, dando saltos de fé a fim de alcançar o andar superior, seja através de prazeres efêmeros, de vícios, de riquezas, bens ou sabedoria.

Enquanto o homem permanecer no “andar de baixo” jamais encontrará o valor real de sua existência.

Em síntese podemos resumir todo conteúdo e suas implicações, apresentadas neste artigo, no infográfico a seguir.

Sob todos os pontos apresentados podemos categoricamente afirmar que o cristianismo bíblico nos fornece sólidas bases para o homem, uma vez que apresenta o propósito de sua existência, seu sentido e valor eternos.

Contudo, tudo o que fizemos neste artigo foi fornecer argumentos sob a “prova da contradição” ou reductio ad absurdum (redução ao absurdo). Ou seja, mostramos que um universo sem Deus é absurdo.

“Mas nada disso mostra que o cristianismo da Bíblia é verdade. O ateu pode presunçosamente dizer que abracei uma nobre mentira e estou me enganando” [10].

Para tanto continuaremos, nas próximas semanas, oferecendo as razões da nossa esperança.

Te espero na próxima quarta-feira, “em guarda, defensores do evangelho”!

Referências:

[1] TILLICH, Paul. A coragem de ser. Paz e Terra: 1967 (Citado em Eterno Retorno).

[2] CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 33.

[3] Ibid, p. 34.

[4] Idem.

[5] Ibid, p. 35;

[6] CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. Tradução de Heber Carlos de Campos. São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 127.

[7] CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 39.

[8] Ibid, p. 41.

[9] Ibid, p. 43.

[10] Ibid, p. 55.