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O Semeador - Série: As Parábolas de Jesus

  • Jamil Filho

    Jamil Filho

    Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, criador e editor do Euaggelion.

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    Jamil Filho

E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta. Mateus 13:3-8

Notas Introdutórias

Antes de iniciarmos este breve estudo acerca da parábola do Semeador precisamos, primeiramente, ressaltar alguns pontos importantes. Primeiro, o propósito desta série de artigos é retirar, de cada parábola, importantes ensinamentos de Cristo e aplica-los em nossa vida cristã e, em segundo lugar nosso objetivo com esta série é, aos poucos, introduzir na mente dos cristãos o importante hábito de estudar a Bíblia.

Portanto, não apenas leia este artigo. Esteja munido de um caderno para anotações, de uma Bíblia para conferir os versículos e, enquanto você nos acompanha neste estudo, anote suas observações e pontos importantes.

Não apenas receba, passivamente, aquilo que propomos falar, mas desenvolva o pensamento metódico e uma postura comprometida com o estudo da Palavra, ambos extremamente necessários para o desenvolvimento espiritual do cristão.

A Estrutura

A Parábola do Semeador é, se minha percepção não estiver errada, a parábola mais conhecida de Jesus. Quantas vezes não ouvimos pregações e sermões que, utilizando a ilustração do semeador, procuravam apresentar ao corpo de Cristo a importância da pregação e do evangelismo pessoal?

Mas, além de nos estimular a proclamar o Evangelho, esta parábola de Cristo propõe ir além. O Senhor nos ensina algumas verdades acerca do coração humano, da postura do homem diante do Evangelho e do perigo da apostasia.

A estrutura da parábola é bastante simples. É basicamente uma estrutura centrada em causa e efeito. “... uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na”, “... outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu...”.

Enfim, a estrutura do ensino de Cristo nesta parábola busca traçar paralelos diretos entre a circunstância em que a semente foi depositada na terra e seus efeitos imediatos. Partindo destas relações entre causa e efeito podemos aprender um pouco mais com esta maravilhosa parábola de Jesus.

Aplicação prática

Jesus ensina que a recepção humana (do coração) à Sua Palavra pode ser dividida, basicamente, em quatro categorias principais:

  1. Aquele que ouve, mas não entende (v. 19);
  2. Aquele que recebe com grande alegria, mas não desenvolve raiz (v. 20);
  3. Aquele que ouve a palavra, mas não abandona o mundo (v. 22) e;
  4. Aquele que ouve, compreende e pratica a palavra (v. 23).

O Senhor ressalta, em primeiro lugar, que a semente é lançada em todos os tipos de solo. Sua mensagem é proclamada para todos os homens, seja através da revelação especial ou geral[1], mas cada coração responderá de maneira diferente ao Evangelho.

Num primeiro momento parece que Jesus enfatiza o fato de que o próprio Satanás se encarrega de roubar a Palavra de Deus dos corações humanos. E, diante disto, surge uma dúvida: O diabo tem, de fato, a capacidade de roubar a palavra do coração humano sendo que o próprio Deus declara que “... a palavra que sair da minha boca [...] não voltará para mim vazia; antes, fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55:11).

Antes de prosseguirmos devemos compreender que 1) A palavra de Deus, indiferente da disposição do coração humano, irá inevitavelmente ser cumprida, seja salvando, seja condenando e 2) O diabo apenas tem o poder de remover a palavra do coração do homem mediante a própria autorização humana autenticada pelo pecado.

Portanto, o que Cristo apresenta no primeiro cenário de Sua parábola é um claro indicativo de que o diabo tem o poder para remover a palavra de Deus do coração humano se este, voluntariamente, se inclinar ao pecado.

Jesus ressalta o fato do homem ouvir, mas não se dispor a entender o que Deus deseja para ele (v. 19) como o ponto principal para que as “aves comam a semente”. O solo endurecido pelo pecado impede que a palavra germine e produza frutos para o Reino de Deus.

O Apóstolo Paulo ratifica o ensinamento de Cristo ao escrever “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” (Romanos 1:21).

Aqui encontramos as mesmas verdades proclamadas por Cristo:

  1. “tendo conhecido a Deus”: através da revelação do Evangelho de Cristo os homens são confrontados com a Vontade de Deus, conhecem a lei moral plantada em seus próprios corações e manifesta em Sua criação (Romanos 1:18-19);
  2. “não o glorificaram como Deus”: ao invés de renderem glórias ao Senhor em suas vidas, aqueles cujas sementes da palavra são levadas pelo diabo entronizam a si mesmo, entregam-se aos seus próprios desejos e;
  3. “seu coração insensato se obscureceu”: como resultado direto da repulsa pela Palavra de Deus, o coração humano se torna obscuro e maligno. Impedindo, portanto, que a semente encontre um lugar para germinar.

Paulo ainda assevera que, por não se preocuparem em conhecer a Deus, o próprio Senhor os entrega às suas próprias paixões infames (Romanos 1:28) e ao engano de Satanás (2 Tessalonicenses 1:11).

E o Senhor advertiu a Israel e a Judá, pelo ministério de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Convertei-vos de vossos maus caminhos, e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, conforme toda a lei que ordenei a vossos pais e que eu vos enviei pelo ministério de meus servos, os profetas. Porém não deram ouvidos; antes endureceram a sua cerviz, como a cerviz de seus pais, que não creram no Senhor seu Deus 2 Reis 17:13-14

Satanás só rouba a Palavra dos corações daqueles que não se arrependem genuinamente e que não abandonam ao pecado. O novo nascimento se torna eficaz somente mediante o abandono das antigas práticas e da renovação da mente em Cristo (Efésios 4:17-19, 22-23).

A inexistência do genuíno arrependimento é, em última análise, fruto da falta de conversão ou de uma conversão genuína. E tal circunstância é extremamente possível até mesmo para aqueles que se encontram dentro da Igreja, mas há tempos o diabo já lhe roubou a palavra.

Mas o que pode levar a falta de conversão ou a inexistência de uma conversão genuína? Donald C. Stamps considera os seguintes pontos:

  1. Falta de compreensão do que significa se arrepender;
  2. Falta de livramento da opressão maligna;
  3. Inexistência de uma fé, genuína, em Cristo (Romanos 10:9-10);
  4. Falta do abandono de práticas pecaminosas.
  5. Não reconhecimento de Cristo Jesus como Senhor e não apenas Salvador e;
  6. Não depositar a fé em Deus, mas nos homens.[2]

O segundo cenário apresentado por Cristo corresponde àqueles que ouvem ao Evangelho, mas não o desenvolvem, não se enraízam (vv. 5-6). Jesus apresenta a triste realidade daqueles que demonstram um coração aberto para receber a semente, mas à medida que ela germina e cresce não disponibilizam, em mesma medida, espaço para que suas raízes se desenvolvam.

Eles não se entregam completamente ao Reino, não permitem que o seu caráter seja moldado pelo Oleiro, permanecem na mesma condição, pois não estão dispostos a renunciar suas próprias vontades em prol do Evangelho. Em Mateus (v. 21) Jesus afirma que as tribulações e perseguições são a causa para que a semente morra no coração deste segundo grupo de pessoas, a vida não transformada impende que compreendam o propósito da perseguição e do sofrimento cristão.

Em Tiago 1:12, nos é confirmado que o crente sofrerá perseguições em virtude do Evangelho e, ao contrário do ideário popular, aqueles que passam por perseguições são bem-aventurados, pois é através delas que Deus prova a fé de seus filhos.

No entanto, aqueles cujo coração é pedregoso ao se depararem com o sofrimento, com a cruz que Cristo exige de cada discípulo Seu, se escandalizam. Mas por quê? Assim como aqueles cuja Palavra é roubada por Satanás, os de coração pedregoso não possuem sua vida moldada pelo Evangelho, pois o pecado se torna uma barreira ao Espírito Santo.

Cristo também alerta seus discípulos quanto ao perigo deles colocarem os afazeres deste mundo acima do Reino de Deus e Ele exemplifica ao apresentar um terceiro cenário em Sua parábola: aqueles cuja Palavra é sufocada pelos espinhos deste mundo.

O Senhor Jesus ressalta o perigo e seriedade do homem que não coloca a Sua Palavra acima das coisas deste mundo. Embora o solo tenha sido receptível ao Evangelho, o coração ainda permanece agarrado às riquezas e prazeres terrenos.

Em um ambiente tão terreno, mundano e temporal, o Evangelho tende a ser reduzido à meros galhos secos, à uma vida espiritualmente infrutífera e pobre. O mesmo alerta é feito pelo Apóstolo Paulo em 1 Timóteo 6:9-10.

Cristo, em momento algum, está removendo a responsabilidade humana adquirida após a Queda (Gênesis 3:18-19), o que Ele propõe, no entanto, é um equilíbrio entre o trabalho para o sustento material e o espiritual. Jesus alerta aos crentes que se eles seguirem a mesma atitude de Adão, ao colocar a Palavra de Deus abaixo das seduções do mundo, o Evangelho não irá, em circunstância alguma, gerar a vida eterna em seus corações.

Em todos os cenários onde o Evangelho não pode frutificar encontramos, basicamente, os mesmos pontos em comum que impedem ou anulam a genuína transformação do caráter e vida:

  1. Falta de renúncia pessoal: todo aquele que declara estar seguindo ao Senhor Jesus deve estar disposto a negar suas próprias paixões e desejos (Efésios 4:22; Colossenses 3:8-9; Tiago 1:21; 1 Pedro 2:1). A principal marca da conversão é exatamente o abandono das antigas práticas, se isso não for verificável então encontramos um claro indício de que a Palavra de Cristo ou já foi removida por Satanás, ou já se secou ou ainda foi sufocada pelos desejos do mundo;
  2. Participação ou concordância em práticas pecaminosas: a Palavra deixa claro que todo cristão professo deve não apenas evitar o pecado (Salmo 1:1; Efésios 5:3-7), mas também reprova-lo em seu coração uma vez que é dele que procede todo pecado consumado (Mateus 15:18-19).
  3. Falta de alimento bíblico consistente e contínuo: o salmista declara no Salmo 1:2 que o justo tem seu prazer na Lei de Deus e medita de dia e de noite. A meditação implica não apenas na leitura, mas também na reflexão e na aplicação prática dos ensinos das Sagradas Escrituras.

O Apóstolo Paulo, ao escrever em 2 Tessalonicenses 2 acerca da manifestação do espírito do Anticristo, declara (v. 10) “... porque não receberam o amor da verdade para se salvarem”. A constante permanência no erro e a falta de interesse pela Palavra de Deus é o veredito final para a morte espiritual, tanto daqueles que professam a fé, quanto dos ímpios.

Considerações finais

Cristo não deseja apenas um solo que abrace o Evangelho por Ele anunciado. Ele não está em busca de simpatizantes, mas de praticantes. E no último cenário Ele apresenta o que considera ser o cenário ideal, o coração daquele que não apenas recebe a Palavra, mas permite que ela germine e frutifique em sua vida.

Jesus encerra sua parábola traçando uma linha de raciocínio lógica entre todos os tipos de solo, pois desde que observemos as causas e as consequências dos cenários anteriores podemos, com grande facilidade, tornar nosso coração uma boa terra para a Palavra de Deus.


  1. Os teólogos fazem uma distinção entre a revelação geral e a revelação especial de Deus. Elas diferem pelo fato de que a primeira é mais genérica que a última tanto em termos de sua disponibilidade quanto em termos da informação transmite. A existência e o poder de Deus são revelados de forma geral na natureza, e sua fundamental lei mora é instintivamente compreendida pelas pessoas de todos os tempos e lugares. Deus se revela especificamente a pessoas de certos tempos através de sua Palavra e supremamente através de Jesus Cristo – CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. Tradução Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 116. ↩︎

  2. STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p. 1468. ↩︎

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