/ Reflexão

Cristo, o Deus que grita: Estou aqui!

Quantas vezes ouvimos e, muitas vezes, declaramos que Deus é um Ser bondoso, infindável em amor e cheio de compaixão? Mas até que ponto nossa confiança nesta afirmação é sólida o suficiente diante das calamidades deste mundo?

O dilema do sofrimento é um argumento recorrente quando o tema ou discussão orbita entorno da bondade de Deus. Por que um Ser Todo-Bondoso e Todo-Poderoso permitiria o sofrimento que Ele mesmo poderia impedir? Por que Ele não age, não interfere, não poupa inocentes?

Não creio que exista respostas fáceis ou que encontraremos respostas sólidas e completamente convincentes enquanto estivermos neste mundo. Sempre haverá um campo para questionamento, um ponto em que as dúvidas jamais serão respondidas.

Na realidade, muitas das respostas e argumentos se tornam áridos demais quanto confrontados com a dura realidade do sofrimento.

Como fornecer uma elaborada tese filosófica e teológica à uma mãe que perdeu seu filho em um tiroteio, ou ao pai que, em virtude da crise, não tem condições de alimentar seus próprios filhos?

Mas até que ponto o sofrimento nos fornece uma sólida base para desacreditarmos em Deus? Será que as calamidades deste mundo são os últimos pregos do caixão do deus morto proclamado por Nietzsche? Piamente creio que não e, neste artigo, veremos porque o sofrimento muitas vezes não abala, mas fortalece a fé.

Notas Introdutórias:

O propósito desta reflexão não é buscar e delinear argumentos filosóficos quanto aos aspectos morais do sofrimento, ou apresentar as absurdas linhas e contornos da teologia determinista acerca deste tema, mas pensar e refletir sobre o sofrimento em um aspecto pouco explorado por muitos teólogos, filósofos e cristãos.

Até que ponto podemos falar do sofrimento e da dor humana sem, contudo, reduzi-lo a meros argumentos e ponderações filosóficas? Será que podemos tratar o sofrimento com racionalidade sem, no entanto, tratá-lo com frieza? Acredito que este é o ponto central.

Sim, não sou o primeiro e creio que não serei o último em avaliar a dor humana sob esta ótica. Na realidade apenas passei a enxergar esta outra faceta após ter contato com uma das obras de Philip Yancey [1].

Creio que este artigo será, na realidade, mais um ensaio do que um estudo. Não desejo ser cansativo ou extenso, mas prático e sincero em minhas considerações.

Onde está Deus?

Se Deus é Todo-Poderoso e bondoso onde Ele está quando nos deparamos com o sofrimento?

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O sofrimento sempre esteve presente na história humana, a dor tem sido nossa companheira desde os tempos mais remotos, não precisamos buscar muito longe de nós histórias de dor, angústia e desespero.

Na realidade o ser humano nunca encontrou um refúgio permanente para o mal que o assola. Milênio após milênio nos revolvemos e contorcemos, mas nunca encontramos uma solução para a dor, jamais encontramos um abrigo seguro diante do sofrimento, das calamidades e das misérias que nós mesmos causamos.

Sempre que assistimos ao telejornal, ou lemos uma manchete estampada no jornal, ou abrimos algum portal online e nos deparamos com um anúncio de calamidade, de atos hediondos e de barbaridades logo, quase que imediatamente, vem à tona a pergunta que, ano após ano, século após século, tem ecoado na mente humana: onde está Deus?

Será que Ele dormiu demais e se esqueceu de nós? Onde está o amor e a bondade deste Deus Todo Poderoso? Alguém pode, lamentavelmente, questionar. Mas, até que ponto estamos dispostos para aceitar as respostas?

Antes de respondermos ao questionamento creio que seja necessário levantar outra, mas igualmente necessária, questão: Por que buscar as respostas na fé durante o sofrimento e rejeitá-la durante o restante da vida?

Minha orientação prática para aqueles que desejam, a todo custo, destilar seu ódio sobre Deus e remover Sua inocência pela dor humana é que encontrem respostas para o sofrimento humano não em Deus, mas no ceticismo.

Não busquem respostas nos pastores, bispos ou nos cristãos, as busquem nos materialistas, nos céticos, nas “máquinas propagadoras de DNA”. Onde estão as nossas mentes pensantes quando a dor e o mal afligem o homem? Por que eles se escondem e deixam na linha de frente apenas os mártires da fé?

Dawkins, por exemplo, é bem enfático ao declarar que não há bem ou mal, mas sim uma fria e insensível indiferença. Pois bem, meu caro senhor, declare à uma mãe que acabou de perder seu filho em um tiroteio numa escola primária que, em última análise, a única coisa que lhe resta é a indiferença.

Fechar o punho para Deus não soluciona o sofrimento e não fornece esperança para o fim da dor, ao invés disto, apenas reforça aquilo que já sabemos: somos completamente insignificantes diante das calamidades.

Mas então onde está Deus?

Alguns cristãos responderiam com a máxima “Ele está exatamente onde você O deixou”, mas se avaliarmos esta resposta encontramos um pequeno problema.

Se a causa lógica para o sofrimento se encontra “onde deixamos Deus” então, por consequência, nenhum cristão devoto e sincero deveria sofrer, afinal toda sua vida está permeada por Deus. Contudo, sabemos muito bem que todos, indistintamente, sofrem.

Não importa se eu amo ou odeio ao Criador uma hora ou outra eu vou me deparar com o sofrimento.

Creio que a resposta não esteja “onde Deus está”, mas sim “onde nós estamos”. Qual é a nossa resposta ao sofrimento? Reconhecemos nossa dependência de Deus e confiamos que mesmo na dor há um propósito ou nos armamos em nosso ódio infundamentado contra o Criador?

Ele realmente se importa?

Será que Deus realmente se importa com sua criação ou Ele apenas nos abandonou em nossos próprios problemas e angustias?

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Pare por um instante e pense, muitas vezes questionamos se Deus realmente se importa com o sofrimento humano e esquecemos que nós lhe provocamos o maior de todos os sofrimentos. Ao subir naquela cruz desferimos no próprio Deus a consequência de nossos pecados. O justo estava sofrendo pelo injusto, o próprio Criador sofrendo por suas criaturas.

Não havia necessidade alguma de Cristo assumir nossa culpa, Ele não era obrigado a fazê-lo, Deus seria extremamente justo em nos condenar por nossos pecados, mas ao contrário do que nosso senso de justiça faria o Senhor vai na contramão da lógica.

Ele mesmo recebe em Seu próprio corpo as marcas do pecado, padece por nossas transgressões e verte todo Seu sangue por nossas iniquidades.

Não estamos falando de um paroleiro silenciado por Roma, estamos tratando do Servo sofredor de Jeová.

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados Isaías 53:4-5

O próprio Deus carregou o maior de todos os sofrimentos: morrer por aqueles que, voluntariamente, se rebelaram contra a Sua Vontade.

Será que a resposta se torna mais óbvia agora? Cristo é o próprio Deus gritando, "estou aqui". Ele sofreu injustamente por nós e, em nossos sofrimentos e angústias, está pronto para consolar a alma que lhe invocar.

Somos tendenciados a olhar Deus a partir de uma perspectiva na qual Ele está e permanecerá inacessível ao homem em sua dor, contudo, não é isso que observamos nas Escrituras Sagradas.

Não apenas vemos Deus, na Pessoa de Jesus Cristo, assumindo para si mesmo a dor e o sofrimento, como também lemos a maravilhosa e magnifica promessa “[...] eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mateus 28:20).

Sabemos que o próprio Cristo nos auxilia e nos ampara nos momentos mais tenebrosos de nossas vidas e, além disso, nos fornece a certeza de que ao fim de todas as coisas Ele mesmo nos enxugará toda lágrima (Apocalipse 21:4). Ele não apenas se importa com nosso sofrimento, como também experimentou dele!

No final somente Deus pode aliviar o sofrimento humano.

Indiferente dos questionamentos ou do ódio destilado contra Deus, em última análise, somente Ele pode aliviar o sofrimento humano.

esperanca

Embora o homem se levante contra Deus e O acuse como responsável pelo sofrimento de nossos semelhantes ao final, contudo, somente Deus pode aliviar a dor do homem.

E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. Apocalipse 21:4

O próprio Senhor se responsabilizou em extinguir, ao final da história, todo o sofrimento e dor humano. No fim de tudo não haverá crueldade que não deixará de ser punida e não há dor que não será suprimida pela alegria eterna.

No entanto, o consolo não é apenas para uma eternidade longínqua. A promessa de Cristo que estaria conosco todos os dias até o fim nos fornece uma sólida confiança de que, mesmo nas adversidades, temos a quem recorrer.

Considerações finais

Espero que após a leitura desta breve reflexão você passe a enxergar o sofrimento e a dor com outros olhos e entender que ele não é nosso inimigo ou inimigo de Deus.

Ressalto novamente que propósito deste artigo não é fornecer bases filosóficas para o entendimento do sofrimento, mas sim entender, como podemos aprender, na prática, com circunstâncias dolorosas.

Fique na paz de Cristo e que Deus lhe abençoe.


  1. YANCEY, Philip. A pergunta que não quer calar. Tradução Almiro Pisetta. 1 e.d. São Paulo: Mundo Cristão, 2015. ↩︎

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, criador e editor do Euaggelion.

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