/ Defesa da Fé

O que Barrabás nos ensina para as eleições de 2018?

Estamos, novamente, em mais um ano eleitoral e, não fugindo da normalidade, os ânimos já estão bastante alterados. Graças ao histórico brasileiro acumulado nestes últimos anos a eleição deste ano se tornou a "redenção" no imaginário popular.

Pois bem, não pretendo tratar de política especificamente, analisar candidatos ou expressar meu parecer e/ou posicionamento partidário, penso que cada um deve ter uma opinião bem formada partindo, não de um emocionalismo barato (ou "efeito manada"), mas sim de um posicionamento racional coerente.

Notas Introdutórias

Sim, este estudo será extenso, mas isso se faz necessário uma vez que a ideia central do artigo necessita estar devidamente estruturada para que, ao final, possamos compreender o ponto que desejo destacar.

Embora eu não creia que nenhum dom ou direito possa ser imposto arbitrariamente não vamos falar especificamente do posicionamento civil do cristão, mas sim de seu posicionamento como cristão no mundo o que, por si só, é muito mais amplo.

Ressalto que os comentários sempre são bem-vindos, desde que 1) todo o conteúdo do artigo tenha sido lido e compreendido, entrar em qualquer discussão sem o conhecimento de causa tem sido a marca registrada de muitos cristãos em uma clara demonstração de ignorância, não apenas bíblica, mas também cultural; e 2) que o respeito seja o pivô da discussão, não somos torcida organizada, estamos discutindo ideias, um bom apologeta não é aquele que defende a verdade a todo custo, mas aquele que sabe defender a verdade de maneira coerente e isso inclui deixar de ter razão algumas vezes.

Outro ponto importante, recomendo que, após a leitura do artigo, você leia também as notas de rodapé e, se possível, os artigos e estudos de cada um dos links.

O cenário político e social que a Bíblia não fala

Qual era o pano de fundo do ministério do Messias? Será que o que a Bíblia nos apresenta nos Evangelhos é suficiente para compreendermos o período em que Jesus viveu?

Quando lemos as Sagradas Escrituras, em especial os Evangelhos e Atos (que apresenta o contexto imediato após a ascensão do Senhor), embora os escritores bíblicos tenham registrado alguns aspectos do contexto social e político da nação de Israel e do mundo conhecido, não somos capazes de compreender, realmente, qual era o cenário que os judeus vivenciavam.

Temos a sensação de que o ministério de Jesus estava inserido num contexto de paz, tranquilidade e segurança, contudo, a história nos mostra que este paradigma não é muito coerente. A correta compreensão do cenário nos fará compreender não apenas o sucesso do ministério de Cristo, evidenciado nas Escrituras, mas também os eventos finais do Senhor na terra.

Basta uma breve leitura nos escritos do historiador Flávio Josefo e você perceberá que os eventos anteriores e posteriores ao ministério de Jesus denotam uma clara instabilidade política e social em toda a terra da Palestina.

Em Atos 5:37 encontramos um detalhe essencial, porém desapercebido para muitos. Ao se reunirem para tratar especificamente como reagiriam aos primeiros movimentos do cristianismo em Jerusalém Gamaliel, um dos integrantes do Sinédrio, declara:

Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos.

Quem era este Judas e o que essa declaração nos apresenta de importante? O historiador Josefo nos aponta algumas informações para a compreensão deste personagem.

Cirênio, senador romano, [...] foi [...] designado por Augusto para governar a Síria, com a ordem de fazer o inventário do que havia em seu território. [...] Os judeus, de início, não toleravam aquele inventário, mas Joazar, sumo sacerdote, filho de Boeto, persuadiu-os a não se obstinarem na oposição. Algum tempo depois, um certo Judas, gaulinita, da cidade de Gamala, ajudado por um fariseu de nome Sadoque, incitou o povo a se rebelar.[1]

Josefo ainda atribui a Judas o início de uma quarta seita judaica, os zelotes, e acerca dela ele escreve que “eles têm um amor tão ardente pela liberdade que não há tormentos que não sofram ou que não deixem sofrer as pessoas mais caras antes de atribuir a quem quer que seja o nome de senhor e metre”[2].

Por outro lado, Judas, filho de Ezequias, chefe dos ladrões que Herodes outrora tinha desbaratado, reuniu perto de Séforis, na Galileia, um grande número de soldados e se apoderou dos arsenais do rei, onde os armou e fazia guerra aos que pretendiam constituir-se em autoridade.[3]

Logo após apresentar outra revolta judaica, desta vez em decorrência de Pilatos ter introduzido em Jerusalém bandeiras com a imagem do imperador, Josefo insere a figura de Cristo:“Nesse mesmo tempo, apareceu Jesus”[4].

Diante deste panorama não é de se espantar que entre os doze discípulos havia um que era partidário dos zelotes, em Mateus 10:4 e Marcos 3:18 ele é identificado como Simão cananita ou cananeu, enquanto que em Lucas 6:15 e Atos 1:13 ele é identificado como Simão zelote. Fica evidente, ao lermos os textos, que não se tratava de Simão Pedro como alguns argumentam, mas sim de outro Simão, o texto de Atos é extremamente claro neste aspecto.

Em suma, o ministério de Cristo e o contexto que Ele viveu, bem como o contexto dos primeiros cristãos após a Sua ascensão, não era de estabilidade política e social, pelo contrário, a Judéia viva contínuos tumultos, rebeliões e sedições.

Quem era Barrabás?

Quem era o homem que se tornou uma figura emblemática na história da Paixão de Cristo?

As Sagradas Escrituras não deixam claro quem era Barrabás, contudo, através das poucas referências bíblicas que temos à disposição somos capazes de, ao menos, concluir que 1) Barrabás era um militante da liberdade do povo e 2) havia participado de uma rebelião que provocara a morte de uma pessoa, muito provavelmente um romano.

Mas qual a ligação entre Judas, o zelote, e Barrabás?

Nascido na cidade de Jopa, ao sul da Judeia, Barrabás significa literalmente "filho do pai". Contemporâneo a Jesus Cristo, foi remador de botes e integrante de um partido judeu que lutava contra a dominação romana. Seu grupo agia através de ataques às legiões, como um meio de fustigar as forças invasoras dominantes. Foi preso após um ataque a um grupo de soldados romanos na cidade de Cafarnaum.[5]

Ao contrário do que o imaginário popular tem em mente Barrabás não era uma figura detestada pela nação, embora alguns setores do judaísmo não coadunassem (plenamente) com a postura dos zelotes, era evidente o fato de que todos os judeus possuíam grande aversão à dominação romana os fizessem, ao menos, olhar Barrabás como um mal necessário para a liberdade judaica.

O evangelista Mateus escreve afirmando que ele era uma figura conhecida do povo (Mateus 27:16) o que pode nos indicar que sua fama como um defensor da liberdade judaica. Já Marcos declara que ele havia sido preso junto com outros amotinadores e que havia participado de um motim onde fora registrado uma morte (Marcos 15:7).

Por que não devemos comparar Barrabás com políticos corruptos?

Até perdi a conta de quantas vezes já ouvi a infeliz comparação entre Barrabás e políticos corruptos feita por cristãos que deveriam estudar um pouco mais de história e deixar as redes sociais de lado por um momento.

Não é raro encontrarmos declarações que apontam e/ou apresentam a conexão entre Barrabás e políticos corruptos de nossa Nação. Mas não há comparação mais estúpida do que essa! Estamos colocando na mesma balança um defensor da liberdade do povo com um opressor do povo. O mesmo se aplica às escolhas políticas erradas seguidas pelo povo, não há ligação direta entre Barrabás e as figuras corrompidas de nossa política nacional.

O mais lamentável é constatarmos que muitos cristãos estão enveredando nesta mesma perspectiva torcida da história bíblica. No trecho a seguir (uma crítica feita às eleições de 2010, em especial à eleição do Deputado Tiririca) podemos encontrar, claramente, um demonstrativo do paralelo, incoerente, entre Barrabás e o problema político de nosso País.

Nossos antecessores, de maneira semelhante, cometeram o mesmo erro. Em Mt 27.11-26 é contado o episódio em que Jesus é entregue a Pilatos e por ocasião da festa foi dada a escolha (por analogia – o voto) entre Cristo e Barrabás. A comparação é inevitável, como o povo tem um histórico de escolha tão ruim? Vê-se logo que não é um evento novo, mas temos um histórico de sermos ludibriados (Mt 27.20 – Cf. Gn 3). A verdade é que a nossa ilusão de protesto e escolhas é influenciada muito além de uma questão persuasiva dos políticos/sacerdotes. Escolhemos mal, mas não porque somos apenas estúpidos. Escolhemos mal porque somos maus. Nossas escolhas são primeiramente influenciadas por uma urgência interna chamada pecado. Escolhemos Barrabás, porque não acreditamos em Jesus, escolhemos Tiririca, porque não acreditamos em nossa política.[6]

“Escolhemos Barrabás, porque não acreditamos em Jesus, escolhemos Tiririca, porque não acreditamos em nossa política”? Onde está o elo lógico entre ambos cenários?

A Nação de Israel escolheu Barrabás exatamente porque acreditava que ele era o representante político mais promissor em seu contexto social. Jesus não era o messias que eles esperavam, o Seu ensino era extremamente pesado e apontava para um Reino espiritual e não terreno.

Quando a Igreja escolhe Barrabás ao invés de Cristo

Há uma grande chance de boa parte da igreja cristã brasileira estar preparada para escolher Barrabás ao invés de Cristo nestas próximas eleições.

O Senhor Jesus é bastante enfático diante de Pilatos, Ele deixa claro que Seu objetivo não era suprimir o poder de Roma ou subir ao trono de Davi. Embora essas tenham sido as acusações feitas pelos judeus contra Ele.

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. João 18:36

Os próprios discípulos de Cristo, por não compreenderem o panorama profético do ministério do Senhor, se iludiram com a ideia e a falsa expectativa de verem, ainda naquele tempo, a libertação da nação de Israel.

Em vários textos percebemos a extrema preocupação deles em saber quem era ou seria o maior no Reino, ou ainda quem se assentaria ao lado do Senhor em Seu trono. O evangelista Lucas ao escrever os últimos momentos de Jesus nesta terra faz questão de registrar a dúvida latente no coração e mente dos discípulos.

Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntaram-lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel? Atos 1:6

Lamentavelmente uma grande parcela do cristianismo enxerga Barrabás como a personificação de um inimigo da nação e, imediatamente, traça um paralelo com a política atual em nosso país. Contudo, conforme destacamos anteriormente, Barrabás representava o perfil do messias esperado por Israel. Um messias que deveria enfrentar o poder romano, que deveria estar disposto a morrer pela nação, oferecer a liberdade política do povo judeu e restaurar o trono de Davi.

Contemplamos a mesma postura hoje. O enfático ensino do Senhor Jesus acerca da nossa peregrinação em uma terra alheia, aos poucos, desapareceu do meio cristão. Não somos mais peregrinos, nos tornamos militantes de uma causa terrena, temporal e humana.

Não encontramos mais em nosso meio o entusiasmo acerca da volta de Cristo, a esperança que aflorou no final dos anos 80 e 90 já desapareceu quase que completamente de nossas igrejas. Onde estão os ensinos e sermões que apresentam a iminência da bendita esperança? Agora a maior esperança da fé cristã se encontra nos turnos eleitorais, no partidarismo frenético e na defesa descabida de personagens políticos que, em anos luz, estão longe dos padrões bíblicos.

Ao depositar na política sua esperança e segurança a igreja não se difere, em nada, dos judeus que clamavam pela libertação de um defensor da liberdade judaica. Afinal, se o Messias enviado por Deus não pode garantir a segurança física de seus seguidores, como de fato Ele não garante e nunca garantiu (Mateus 10:16-17, 22-25; 24:9), então talvez seja melhor confiar no messias político e em suas pautas sociais, econômicas e governamentais.

Porque eu deveria seguir um Cristo que declara a possibilidade de morrer pela causa do Reino enquanto posso seguir um “rabi” que ensina aos seus discípulos a validade da liberdade armada?

Condenando Cristo sob a esperança política

Crucifica-o, crucifica-o.

Sempre me questiono, se a igreja atual estivesse presente naquela manhã de páscoa qual teria sido sua reação? Sem medo algum de errar creio que a grande maioria se juntaria ao coro e gritaria em plenos pulmões: “Crucifica-o, crucifica-o”.

Na realidade é isso que estamos fazendo quando colocamos todas nossas esperanças em um sistema político caído. Por “caído” me refiro à compreensão teológica de que a humanidade, sem Cristo, é e sempre será totalmente depravada.

Faço coro com Aiden Wilson Tozer: “Penso que minha filosofia é esta: Tudo está errado até que Deus endireite as coisas”. Sem Cristo tudo está completamente errado, pois foge do alvo da vontade de Deus, se afasta daquilo que Ele determina em Sua palavra e desconsidera, terrivelmente, a verdade inabalável de um juízo eterno.

Compreenda que não estou, como cidadão, questionando a validade do governo ou das representações políticas, ou ainda da responsabilidade civil de cada cidadão brasileiro. Estou questionando a postura do cristianismo frente ao que a Bíblia nos ensina.

A igreja tem depositado em representantes aquilo que nem mesmo o próprio Senhor Jesus assumiu para si em Seu ministério terreno: a responsabilidade de instituir uma teocracia. Esquecemos que o papel da Igreja é manifestar o Reino de Deus na terra através de suas próprias ações, mas o que observamos é a manifestação de partidarismo terreno e de uma sedenta perseguição de ideais que, em nada, se assemelham do padrão esperado para os discípulos de Cristo.

Sim, caro leitor, toda vez que você coloca sua esperança na política e acredita que a Igreja deve esperar do Governo os meios para solucionar os problemas da sociedade você está bradando em alto e bom som “crucifica-o”.

Rebelando-se contra as autoridades instituídas por Deus

Declaramos que o Senhor é Soberano, mas nos levantamos contra as potestades por Ele instituídas

A Bíblia não apenas nos ensina como também nos deixa claro que não há governante que não seja instituído por Deus. É muito fácil e agradável declarar que o Senhor é Soberano quando estamos nos referindo ao Seu amor e Misericórdia ou aos milagres que Ele pode operar em nosso favor. Mas nos esquecemos, ou desejamos esquecer, de Sua Soberania quando o assunto é o juízo, a punição e correção, ou ainda quando Sua Soberania nos tira de nossa zona de conforto e estabilidade.

Embora não concorde com todos os pontos da cosmovisão calvinista, à luz da Bíblia, devo concordar que no âmbito político “quando Deus quer punir uma nação, Ele lhes dá lideres corruptos e iníquos” (João Calvino). Que nossa nação é digna de extrema punição não nos resta dúvidas, contudo, esquecemos que nosso papel como Igreja é se submeter à Soberana Vontade de Deus e não nos empenhar em uma infundada luta partidária.

E, antes que você me questione, vamos deixar claro que, em nenhum momento, a teologia arminiana declara que Deus não é Soberano ou que Ele não estabeleça decretos em conformidade com a Sua Vontade. Sim, Ele decreta muitas coisas, mas não necessariamente todas as coisas (caso contrário deveríamos assumir que o pecado brotou em Seu coração).

Creio plenamente que Deus o Senhor trabalha ativamente tanto para que a Sua Vontade se cumpra na História humana, quanto para punir indivíduos, povos ou nações em virtude de suas iniquidades e pecados. Diante deste entendimento podemos apresenter, brevemente, o que a Bíblia determina como o papel do cristão no contexto político.

Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Romanos 13:1

É necessário ressaltar que, quando esteve diante de Pilatos sendo injustamente condenado, o Senhor Jesus afirma categoricamente que o Seu Reino não é deste mundo e que as autoridade humanas foram e são instituídas por Deus.

Disse-lhe, pois, Pilatos: Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar? Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem. João 19:10-11

Os políticos só possuem autoridade, que dissolutamente usam em seus próprios benefícios, pois o próprio Deus lhes concedeu tal autoridade e poder (Daniel 2:21). Caso contrário não possuiriam poder algum.

Esta sentença é por decreto dos vigias, e esta ordem por mandado dos santos, a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre ele. Daniel 4:17

E, ao colocar políticos iníquos no comando da Nação, o Senhor busca despertar a compreensão de que somente nEle encontraremos a verdadeira segurança, conforto e proteção.

Crises políticas, podem ser em alguma instância, Deus tratando com a nação para que essa aprenda que não há esperança em políticos e homens e que o único que pode redimir a sociedade é Cristo, porém não podemos esperar ver a plenitude disso sem que antes venha a consumação de todas as coisas.[7]

Infelizmente o cristianismo tem avançado no caminho contrário ao que a Palavra de Deus nos determina. Acreditamos que a solução para o problema de nosso país é avançar até a política com nossa presença e fincar nossas bandeiras em seu território, mas será mesmo que estamos fazendo alguma diferença?

O propósito da Igreja não deve ser voltado em projetar no Governo a esperança de um amanhã melhor, isso é tolice! Devemos fazer o hoje melhor seguindo o que Cristo nos determinou como modelo de vida cristã. Esquecemos que fomos chamados para, de algum modo, contribuir no alívio da dor, no amparo aos necessitados, através do exercício da mordomia cristã.

Mordomia: 1. função, ofício de mordomo;

Mordomo: 1. indivíduo encarregado de administrar, em residência alheia, as tarefas domésticas cotidianas, distribuindo-as entre os demais empregados. 2. pessoa que administra os bens de uma irmandade ou qualquer outro estabelecimento.

Fomos chamados para servir, para fazer a diferença através de nossas obras de fé. Nosso país se encontra neste estágio deplorável, pois nós, como cristãos, temos falhado em nossa missão, temos perdido o foco. A nossa sociedade se degradou da maneira como observamos, pois a Igreja deixou de cumprir seu papel como agente de Deus na terra e não serão representantes cristãos no Governo que restaurará aquilo que perdemos.

Nos preocupamos com tantas coisas e nos esquecemos de exercer nosso papel como baluartes do evangelho, como ministros das boas novas de transformação e libertação das almas cativas.

A Igreja não está fazendo diferença alguma ao colocar um “pastor” na Câmara dos Deputados, a Igreja faz a diferença quando é capaz de transformar uma rua, um bairro, uma cidade apenas com o poder do Evangelho de Cristo.

Leia a história de homens como David Wilkerson, Irmão André ou George Müller, entre inúmeros outros que, sozinhos, deixaram seu legado e a sua marca em uma sociedade tão corrompida como a nossa, homens que serviram ao Senhor e ao próximo sem se comprometerem ou dependerem de sistema algum e, ainda hoje, as marcas que suas vidas deixaram ecooam na história.

Devemos parar de nos rebelar contra as autoridades instituídas por Deus e começar a fazer algo para mudar, profunda e verdadeiramente, a nossa sociedade. Um governo de quatro, ou oito, anos não é capaz de transformar o brasileiro necessitado da mesma maneira que uma Igreja cheia do Espírito Santo em ação pode ser.

Um dos mais grandiosos enganos de Satanás é que podemos descansar a nossa esperança por moralidade cultural e vida piedosa em políticos e funcionários governamentais. A esperança por mudança de uma nação não se encontra nos líderes de qualquer país dominante. A igreja tem feito um erro se pensa que é o dever dos políticos defender, avançar e proteger as verdades bíblicas e valores cristãos.[8]

Vamos colocar nosso orgulho e o nosso ego de lado e aceitar o fato de que Deus, em Sua Soberana e Livre Vontade, pode utilizar o Governo brasileiro para punir a iniquidade de nossa imoral, corrompida e depravada Nação (e com toda certeza Ele está punindo a imoralidade de nosso país).

Quando a Igreja cumpre o seu papel

Há alguns anos atrás questionei se a presença de cristãos na política em nossa Nação e a preocupação dos cristãos em depositar no Estado a esperança de um país melhor estava, realmente, gerando algum resultado.

Recordo que comparei o impacto social do ministério de John Wesley e o movimento Metodista com o impacto que a "bancada evangélica" tem efetivado em nosso país. E olhando mais uma vez para este cenário posso, sem medo algum, afirmar que a existência de representatividade cristã em nosso Congresso é inútil.

O contexto social encarado por Wesley não era tão diferente do contexto que vivemos hoje, talvez até pior.

Aqui [Inglaterra no século XVII] se aprecia muito o dinheiro, mas mui pouco a honra e a virtude. Os ingleses já não são dignos de sua liberdade, pois a venderam ao rei e se o monarca a devolvesse, eles negociariam novamente.[9]

O país enfrentava uma profunda e séria crise social, a Revolução Industrial havia modificado drasticamente as estruturas socioeconômicas inglesas, dezenas de milhares de pessoas migraram para as cidades em busca de trabalho e de melhores condições de vida, no entanto, os centros urbanos já não eram mais capazes de comportar o grande contingente populacional nem de lhes fornecer condições mínimas de salubridade.

As classes populares não possuíam nenhuma esperança de melhores condições de vida, o operário geralmente trabalhava cerca de 16 horas diárias para, ao menos, sobreviver. Tanto os tecelões manuais, quanto os mineiros eram expostos às condições de trabalho das mais adversas possíveis. Não era raro encontrar crianças em idade escolar (6 a 13 anos) partilhando das mesmas cargas exaustivas de trabalho com adultos.

A situação era de completa ausência dos serviços do Estado junto às classes mais baixas que viviam à margem de uma vida humana digna.[10]

E, neste mesmo contexto a igreja, acompanhando a ausência do Estado, pouco fazia para reverter o caos desta sociedade, Oliveira (2012) ainda destaca que:

O Anglicanismo, religião dos ricos, que foi o berço do surgimento do movimento wesleyano estava descomprometido com a luta pela justiça social, ou por mudança do contexto social, pois não se fazia presente junto às massas de pobres que viviam em Londres e arredores. Esta mesma população, formada por trabalhadores analfabetos, escravos, prostitutas, e embriagados não tinha a atenção do clero, nem assento nos templos da religião oficial da Inglaterra, a religião da realeza, da burguesia, daqueles que lucravam em detrimento deste caos social.[11]

Não era interessante para a igreja alterar a realidade social uma vez que era esta mesma realidade que mantinha o poder econômico e o status social de sua membresia.

A Igreja anglicana estava aliançada com as classes que detinham o poder, sobretudo, porque dependiam inteiramente das mesmas para sua sobrevivência, pois o conjunto daqueles que pagavam impostos de manutenção à Igreja e a seu clero era formado pelos donos de escravos, dos alambiques, das minas de carvão que sub-empregavam homens, mulheres e crianças, explorando-os e pagando-lhes míseros salários. A clientela da Igreja oficial não permitia e não estava interessada na mudança da situação vigente.[12]

Se opondo à estrutura religiosa de seu tempo, os metodistas compreenderam que a Igreja que se afasta de seu compromisso social de amparo e resgate dos necessitados está seguindo o caminho diametralmente oposto aos ensinos de Cristo. Partindo desta compreensão o desenvolvimento da teologia de Wesley se estruturou entorno do papel social da Igreja na comunidade, no amparo e auxílio aos necessitados e na participação ativa do cristão no cotidiano daqueles que necessitam.

Lembrei à Sociedade Unida que muitos dos nossos irmãos e irmãs não tinham alimento necessário; muitos estavam destituídos de vestuário conveniente; muitos estavam sem trabalho, o que não por culpa deles; muitos estavam doentes de morte; e que eu tinha feito o que podia para alimentar o faminto, vestir o desnudo, empregar o pobre e visitar o doente, mas que só isso não era suficiente. Por esse motivo, solicitei de todos aqueles cujos corações fossem como o meu: 1. Trazerem as roupas que tivessem sobrando para serem distribuídas entre aqueles que necessitavam mais. 2. Darem mensalmente um penny [moeda inglesa vigente até então], ou o que pudessem dispor para alívio do pobre e do doente. Meu objetivo, disse-lhes, é empregar todas as mulheres que estão sem trabalho nos serviços de tricotagem. A essas, primeiro, pagaremos o preço comum pelo trabalho que executam e, então, acrescentaremos de acordo com suas necessidades.[13]

Wesley não depositou sua esperança no sistema político ou na união entre a fé cristã e o Estado, pelo contrário, ele sabia que a responsabilidade de mudança social estava sobre os ombros de cada cristão professo. Ele mesmo se empenhou em fornecer empregos e salários dignos aos necessitados, em socorrer os famintos, em vestir os desamparados e aliviar a dor dos doentes.

Em 1730, comecei a visitar as prisões; ajudar os pobres e doentes, na cidade, e a fazer o bem tanto quando pudesse, com minha presença e minha pequena fortuna, aos corpos e almas de todos os homens. Para essa finalidade, reduzi todas as superficialidades e muito do que eram consideradas as coisas necessárias à vida. Logo me tornei um exemplo, por assim fazer, e me regozijei que “minha reputação tivesse sido banida como o mal”. [14]

Wesley e os metodistas primitivos estavam convictos de que o indivíduo era responsável pela harmonia social e não somente o Estado. Em sua compreensão, o rico tinha o dever e o privilégio de ajudar o pobre. Era dever moral e ético daqueles que possuíam melhores condições sociais e econômicas ajudar o máximo possível aos menos favorecidos. [15]

Não estou negando a responsabilidade do Estado em suprir as necessidades básica de seu povo, tais como educação, habitação, emprego e saúde, contudo, quando o Estado não é capaz de fazê-lo devemos, como representantes do Reino de Deus na terra, assumir a responsabilidade tal como os metodistas o fizeram.

A preocupação social de Wesley era intensa. Sempre lidou com problemas como a pobreza, a fome, a doença e o desemprego e tomou atitudes para tentar solucionar os problemas. Fundou escola, clínica médica, fábrica de meias, e levantou coletas; seu objetivo era melhorar a situação das pessoas.[16]

Poderíamos dedicar um artigo inteiro e exclusivo apenas para descrever o que Wesley, junto com irmãos compromissados com a Palavra de Deus, fizeram diante de uma sociedade carente, um governo apático e uma igreja ausente. Contudo, creio que o breve retrospecto realizado é suficiente para compreendermos o impacto que a Igreja pode ter na sociedade se, efetivamente, estiver compromissada única e exclusivamente com a Verdade do Evangelho e com o poder do Espírito Santo.

John Wesley tentou sempre vivenciar na prática o que dizia. Esse compromisso o levou a renunciar aos poucos trocados que tinha para se aquecer no inverno, visando pagar uma professora que educava crianças de rua. [17]

Estamos prontos para escolher Barrabás

"Queremos Barrabás, queremos o messias político, queremos que ele reine sobre nós!"

Infelizmente iremos testemunhar, assim como já temos feito há tempos, a trágica escolha da Igreja em decidir depositar sua esperança na política deste mundo ao invés de confiar no poder transformador do Evangelho de Jesus Cristo e na ação sobrenatural do Espírito Santo.

Vamos eleger Barrabás, vamos nos aliar aos zelotes, nos tornaremos, de uma vez por todas, a Igreja oficial, a igreja omissa, que se afasta do povo e de suas responsabilidades para com Cristo e para com o próximo, que se alia ao Governo e acredita que através da força política será capaz de transformar os corações caídos e angustiados de nossa nação.

Estamos mergulhando na mesma apatia cristã do século XVII e XVIII, não cremos que exista outra forma de viver nosso cristianismo falido a não ser em vivê-lo de mãos dadas com o poder político terreno.

Estamos nos tornando uma das maiores nações cristãs, os evangélicos compõe 22% da população (IBGE 2010), no entanto, qual o impacto? Será que há algo para comemorar? Será que não estamos nos tornando omissos em nossa missão como servos de Cristo?

O propósito original da igreja, dado por Deus, não se encontra em ativismo político. Em nenhum lugar na Bíblia temos o comando de gastar nossa energia, nosso tempo ou nosso dinheiro em assuntos governamentais. A nossa missão não reside na mudança da nação através de uma reforma política, mas na mudança de coração através da Palavra de Deus.[8:1]

No entanto, ao que tudo nos indica escolheremos Barrabás, escolheremos o governo humano e depositaremos nele nossa confiança. Sim, temos mais fé no presidente da República do que em Cristo.


  1. FLÁVIO, Josefo. História dos Hebreus - Obra completa. Tradução de Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. p. 825. ↩︎

  2. Ibidem p. 827. ↩︎

  3. Ibidem p. 1093. ↩︎

  4. Ibidem p. 832. ↩︎

  5. HISTORY. Barrabás. Disponível em: https://seuhistory.com/biografias/barrabas. Acesso em: Abril de 2018. ↩︎

  6. BELLO, Rafael. Tiririca e Barrabás. Reforma 21. Disponível em: http://reforma21.org/artigos/tiririca-e-barrabas.html. Acesso em: Abril de 2018. ↩︎

  7. IPB. A Loucura da Dependência Humana. Disponível em: http://ipbjc1213.blogspot.com.br/2015/10/08102015-loucura-da-dependencia-humana.html. Acesso em: Abril de 2018. ↩︎

  8. GOT Questions. Como deve um cristão lidar com a política? Disponível em: https://www.gotquestions.org/Portugues/crente-cristao-politica.html. Acesso em: Abril de 2018. ↩︎ ↩︎

  9. Montesquieu apud LILIÈVRE, Mateo. João Wesley: vida e obra. p. 11 ↩︎

  10. OLIVEIRA, Marco Antônio. Teologia social do metodismo brasileiro: análise sos pressupostos históricos e teológicos do documento credo social. Rio de Janeiro: PUC-RIO, 2012. p. 30. ↩︎

  11. Ibidem p. 34. ↩︎

  12. Ibidem p. 34-35. ↩︎

  13. WELSEY, John. O Diário de John Wesley. pag. 132. ↩︎

  14. Ibidem pag. 79. ↩︎

  15. OLIVEIRA, Marco Antônio. Op. cit. p. 57. ↩︎

  16. VERNEQUE GUERSON, Cláudio. O Plano para a vida e a missão da Igreja Metodista (PVMI) e o pensamento de João Wesley como fundamento histórico. p.18 ↩︎

  17. MARQUES, Natanael Garcia. John Wesley e o Movimento Metodista. Universidade Metodista de São Paulo. Disponível em: http://portal.metodista.br/pastoral/reflexoes-da-pastoral/john-wesley-e-o-movimento-metodista. Acesso em: Abril de 2018. ↩︎

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, fundador e editor do Euaggelion.

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