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O diabo não veio para matar, roubar e destruir

  • Jamil Filho

    Jamil Filho

    Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, criador e editor do Euaggelion.

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    Jamil Filho

O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância João 10:10

Notas introdutórias:

Hoje daremos atenção a um texto clássico no meio cristão e, na mesma proporção, um texto extremamente incompreendido e deturpado. Quantas vezes você já não ouviu, ou até mesmo falou, que o diabo veio para matar, roubar e destruir?

Mas será que há, realmente, espaço neste texto para realizarmos uma leitura “espiritualizada” como esta? Seria honesto afirmarmos que o ladrão de João 10:10 refere-se ao inimigo de nossas almas? Creio que não e, neste estudo, veremos porquê.

Tudo começa com o cego

A interpretação errônea deste texto parte do pressuposto de que Cristo está apresentando aos discípulos um quadro comparativo entre Seu ministério e propósito salvífico com a ação de Satanás e seu ímpeto em destruir a criação de Deus, contudo, não encontramos nesta parábola do Mestre, e no conjunto de eventos em que esta passagem se insere, nenhuma evidência ou referência da ação e presença do diabo.

Para evitarmos uma leitura deturpada de qualquer texto bíblico precisamos, primeiramente, compreender o contexto no qual a passagem se encontra, sua relação com os demais trechos, em que ponto ele se localiza na sequência de eventos e quais são as suas referências.

O texto de João 10:10 se encontra no meio de dois grandes eventos, o primeiro a cura de um cego de nascença e o segundo a declaração pública de Jesus acerca de Seu ministério terreno e filiação divina.

Ambos possuem uma clara e evidente conexão que, infelizmente, tem sido ignorada em virtude da austera advertência que eles nos apresentam. Jamais vamos compreender, corretamente, o peso que Jesus coloca sobre os ombros do ladrão se não compreendemos a construção dos eventos apresentados pelo evangelista João.

Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? João 9:2

Inconscientemente os discípulos evidenciam uma compreensão equivocada, mas muito difundida no meio religioso judaico: a pobreza ou a deficiência são consequências da maldição de Deus sobre o homem ou resultado de pecado.

Embora o próprio Deus tenha afirmado, na Lei, que “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Deuteronômio 24:16), a ideia de “maldição hereditária” era bastante difundida na sociedade judaica e, ainda hoje, vemos vestígios dessa compreensão errônea dentro das Igrejas cristãs.

Em contrapartida a riqueza e prosperidade material seria um claro demonstrativo da bênção e do favor divino. Isso nos explica o desespero dos discípulos acerca da salvação após o Senhor ter declarado que seria mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus (Marcos 10:25).

Os próprios fariseus ao interrogar o cego, que agora via, declara, com aspereza e arrogância, aquilo que se pensava no meio religioso acerca dos deficientes e pobres: “Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós?” (João 9:34).

A religiosidade judaica estava firmada em preceitos meramente humanos e não divinos. “Então alguns dos fariseus diziam: Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado” (João 9:16). Os fariseus questionavam a veracidade do testemunho do cego, pois não conseguiam aceitar o fato de Cristo ter curado um homem no sábado.

O Ungido de Deus seria aceito apenas, e tão somente, se Ele se submetesse às vontades e regras humanas. Infelizmente vemos, em nossos dias, a mesma tentativa absurda de reduzir o poder, glória e majestade do Senhor em nossas próprias vontades, liturgias e preceitos humanos.

Estes homens são, na descrição feita pelo Senhor em Mateus 23, condutores cegos, estes atam fardos pesados aos homens, mas não os auxiliam, nutrem uma vida de aparências enquanto que seu próprio interior está longe do Senhor, não se salvam e impedem que outros alcancem a salvação, convertem homens e mulheres à conjuntos de dogmas, mas não os converte ao Deus vivo.

Embora, muitas vezes não observado, o versículo 41 de João 9 apresenta um interlúdio entre a cura de Cristo e Seu ensino exortativo presente no capítulo seguinte.

Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece João 9:41

Jesus declara que o pecado dos fariseus não se encontrava em sua cegueira espiritual, mas sim no fato deles serem cegos espiritualmente, pois não compreendiam e cumpriam a Lei de Deus, e ainda assim afirmavam que eram capazes de enxergar e guiar o povo pelos mandamentos e preceitos do Senhor.

Na realidade o compromisso da liderança religiosa de Israel não estava orbitando a Lei de Deus e Sua Soberana Vontade, mas sim a própria vontade humana, rituais e preceitos preconceituosos, racistas e pecaminosos. A expulsão do cego da sinagoga apenas reforça esta ideia!

A construção teológica do capítulo dez não apenas depende como também complementa o conjunto de ensinos apresentados pelo Mestre e destacados pelo Apóstolo João desde o quinto capítulo.

Quem é o ladrão de João 10:10?

Ao se apresentar como a porta das ovelhas o Senhor Jesus estabelece o critério para a identificação do ladrão, “... aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador” (v. 1).

Ainda no capítulo 10 o Senhor Jesus confronta, mais uma vez, os judeus que questionavam a veracidade de Seu ministério terreno e filiação divina (v. 24). Diante da incredulidade de seus corações o Senhor declara abertamente: “Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito” (v. 26).

Reverberando a parábola que havia lhes ensinado o Senhor deixa claro que eles não fazem parte do rebanho (v. 27), pois não passaram pela porta, não se submeteram aos Seus ensinamentos. Embora os fariseus afirmassem serem filhos de Deus (João 8:41) suas ações apontavam para o extremo oposto da Vontade do Senhor.

Ao utilizar a imagem do pastor de ovelhas Jesus recorre ao que outros profetas já haviam anunciado séculos antes e que, sábado após sábado, era lido nas sinagogas: o fracasso dos líderes de Israel em apascentar as ovelhas de Deus.

Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas? Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado; mas não apascentais as ovelhas. Ezequiel 34:2,3

Os líderes religiosos de Israel, que deveriam estar cuidando da saúde espiritual do povo, haviam se afastado daquilo que o Senhor lhes ordenara, estavam apascentando a si mesmos, aos seus próprios ventres. O próprio Cristo censura o mesmo cenário, séculos depois.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós. Mateus 23:14,15

Todo o contexto de João 10 se articula entorno dessa realidade. O cego que havia sido curado fora expulso da sinagoga por defender o Messias e, aqueles que proclamavam a Lei dia após dia, rejeitavam, continuamente, ao Senhor Jesus.

O mesmo cenário encontramos hoje. Não é preciso ir muito longe para encontrar falsos pastores, falsos líderes, homens e mulheres que moldam e torcem o Evangelho de Jesus a fim de atender seus interesses pessoais, sua ganância por dinheiro, sua sede insaciável por poder e dominação.

Pastores que não apascentam as ovelhas, que se interessam apenas na lã, na gordura, nos bens, no dinheiro do rebanho de Deus estes, e não o diabo, são representados na parábola de Cristo como o ladrão das ovelhas.

As mesmas características apresentadas pelo profeta Ezequiel também são relembradas pelo Apóstolo Pedro em sua segunda carta, capítulo 2 versículos 1 ao 3:

E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita.

O mesmo declara Judas (v. 16): “Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse.”

Qual o problema de lermos diabo no lugar do ladrão?

Você pode nos questionar qual o problema de interpretarmos o ladrão como sendo uma referência espiritual do diabo.

Em primeiro lugar, como já apresentamos, não há quaisquer indícios textuais e contextuais de que Cristo tinha em mente a figura do diabo ao proclamar que o ladrão vem para matar, roubar e destruir.

Agora a questão primordial é: será que o Espírito Santo não foi competente o suficiente para relembrar o Apóstolo João de que o ensino de seu Mestre, proclamado há décadas, tinha por objetivo alertar acerca dos ardis de Satanás?

A postura de se impor ao texto aquilo que ele não diz, e ainda sustentar com unhas e dentes uma interpretação nada sadia, me parece que é uma tentativa fracassada em encontrar aquilo que o Espírito de Deus não desejou revelar nas Escrituras.

O grande problema com este tipo de interpretação bíblica se encontra na ausência de critérios para estabelecermos um padrão exegético, se aqui eu interpreto desta maneira e ali como vou interpretar? E a maior armadilha de todas, a leitura, meditação e estudo da Palavra passam a ser hábitos nos quais a minha opinião é imposta ao texto sagrado e não o contrário.

Devemos abandonar os maus hábitos de interpretação bíblica e nos aprofundarmos no estudo sério da Palavra, na dedicação genuína ao entendimento daquilo que os escritores canônicos nos deixaram.

O ensino de Jesus registrado em João 10:10 está centrado no combate aos falsos mestres e, ao transferir a responsabilidade para o diabo, os falsos profetas de nosso tempo procuram remover de si o severo juízo divino. “Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu estou contra os pastores; das suas mãos demandarei as minhas ovelhas, e eles deixarão de apascentar as ovelhas; os pastores não se apascentarão mais a si mesmos; e livrarei as minhas ovelhas da sua boca, e não lhes servirão mais de pasto” (Ezequiel 34:10)

Jamil Filho

Jamil Filho

Cristão por livre escolha, salvo pela graça, servo de Cristo Jesus, eterno estudante de teologia, criador e editor do Euaggelion.

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