Somos Jonas

Ao contrário de Jonas nós vivemos dentro de Nínive, estamos cercados por homens e mulheres tão terríveis quanto aquele povo. E, assim como Jonas, corremos o sério risco de desejar apenas o derramar da ira de Deus sobre essa geração incrédula e cruel.

E veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo:

Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença.

Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis. E descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor.

Jonas 1:1-3

Conhecemos Jonas como o profeta que fugiu de seu chamado. Olhamos para o pequeno relato do ministério deste profeta e apontamos alguns clichês sobre sua vida e sobre sua missão.

Contudo, não percebemos que Jonas tem mais a dizer sobre quem somos do que podemos imaginar.


Notas introdutórias

Antes de compreendermos um pouco sobre as semelhanças entre Jonas e muitos de nós devemos, primeiramente, compreender o contexto em que a história se passa. Quais são suas características e o que diferencia Jonas dos demais profetas.

Em primeiro lugar, ao contrário dos escritos de profetas como Isaías, Daniel ou Ezequiel, o livro do profeta Jonas é estritamente biográfico.

Dos 48 versículos do livro, apenas um é dedicado à mensagem profética de Jonas. Todo o restante do livro relata os eventos que se sucederam ao profeta.

E esta característica já nos fornece um ponto extremamente importante para a compreensão da mensagem central do livro de Jonas e para a compreensão das semelhanças entre nós e o profeta impiedoso.

Outro ponto importante de se destacar é o contexto histórico onde esta parcela do registro bíblico está inserido.

Conforme o registro de 2 Reis 14.25 o ministério de Jonas se desenvolveu no reinado de Jeroboão II, rei em Samaria entre os anos de 790 a 740 a.C.

Embora não seja possível precisar quando Jonas foi incumbido de levar a mensagem de Deus até os ninivitas podemos, a partir das informações que temos, compreender algumas questões não apenas interessantes, mas também importantes para o entendimento da mensagem central do livro de Jonas.

Sabendo que seu ministério se desenvolveu durante do reinado de Jeroboão II podemos estabelecer, aproximadamente, um período de 40 a 50 anos entre os eventos do livro de Jonas até a queda de Samaria e a destruição de Israel em 722 a.C.


Quem eram os ninivitas?

Nínive era a capital do Império Assírio, situada às margens do rio Tigre. Sua origem remonta à Ninrode, filho de Cuxe e bisneto de Noé.

Desta mesma terra saiu ele à Assíria e edificou a Nínive, e Reobote-Ir, e Calá.

Gênesis 10:11

O profeta Naum, cerca de 100 anos depois de Jonas, profetiza contra a cidade de Nínive e nos apresenta um terrível panorama sobre suas práticas hediondas.

Ai da cidade ensanguentada! Ele está toda cheira de mentiras e de rapina! Não se aparta dela o roubo.

Naum 3:1

Os assírios eram conhecidos no mundo antigo por sua extrema crueldade na forma como tratavam os povos subjugados, ao conquistarem as cidades promoviam chacinas terríveis, os governantes eram torturados e executados e os prisioneiros de guerra muitas vezes morriam em sua marcha de deportação.

A tortura, o empalamento, a decapitação, as amputações e o esfolamento faziam parte dos procedimentos comuns dos soldados assírios em relação aos seus adversários.

Origens dos assírios – Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/assiria/origens-assirios.htm

O profeta Naum também acrescenta afirmando que Nínive estava repleta de feitiçaria e imoralidade sexual (Naum 3:4). Os ninivitas não eram apenas perversos, mas também extremamente profanos e imorais.


O servo de Deus que não teme a Deus

Eu sou hebreu, e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca.

Jonas 1:9

Jonas foge para o mais longe que pode de Nínive, embarca em um navio para Társis e, diante do chamado que lhe havia sido entregue, ele dorme.

Para um hebreu, ensinado desde cedo sobre o temor ao Senhor e a obediência à Sua voz, é de se estranhar que Jonas não apenas tenha seguido na direção contrária, mas também tenha conseguido dormir em sua desobediência.

A declaração que Jonas faz quando indagado pelos marinheiros soa terrivelmente oca, é uma afirmação sem vida, sem verdade.

“… temo ao Senhor”, contudo, seu temor não lhe propele à obediência, não lhe impede de afrontar ao Deus Soberano ao tentar fugir através do mar que Ele mesmo havia criado.

O temor que não vemos em Jonas encontramos nos marinheiros que, agora, foram colocados em uma situação desesperadora: ou morriam pela fúria das águas ou lançavam ao mar e à morte uma alma humana.

Ah, Senhor! Nós te rogamos, que não pereçamos por causa da alma deste homem, e que não ponhas sobre nós o sangue inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve.

Jonas 1:14

Uma oração não tão discrepante assim

Em uma leitura superficial do segundo capítulo pode nos levar a pensar que seu conteúdo destoa terrivelmente do restante do livro, contudo, não é bem assim.

Quando nos deparamos com o segundo capítulo do livro de Jonas parece que estamos diante de um cenário completamente diferente do restante da biografia.

Vemos um Jonas que clama ao Senhor e que, pela primeira vez, ora ao seu Deus reconhecendo o terrível estado em que se encontra.

Contudo, tão logo acaba o capítulo e, abruptamente, retornamos ao mesmo cenário: um homem que ainda insiste em seu exclusivismo, que deseja a morte de seus inimigos e que se ira com a misericórdia de Deus.

Porém, ao contrário do que parece, a oração de Jonas no ventre do grande peixe não destoa, mas reafirma sua postura e vamos entender o porquê.

Se observarmos com mais atenção os detalhes da oração de Jonas, veremos que ela se assemelha mais a uma repetição ritualística de cantos e salmos do que, necessariamente, de uma expressão sincera de seu coração.

Nela encontramos não apenas trechos dos salmos, mas também conceitos que estão mais relacionados ao entendimento hebreu da vida, morte e sofrimento do que, necessariamente, ao estado no qual o profeta se encontrava.

VersoJonasSalmos
Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeuJonas 2.2Salmos 120.1
Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeuJonas 2.2Salmos 120.1

Nos deparamos também com expressões como “coração dos mares”, “profundo”, “águas”, “abismo”, “fundamentos dos montes”, “ferrolhos da terra” etc., somos tendenciados a pensar que ele se refere ao mar onde está, mas, na realidade, Jonas está reverberando entendimento do povo hebreu acerca do Universo.

Expressões como “mar” ou “muitas águas” eram sempre sinônimos de caos, de destruição. Eram sempre associados, na literatura hebraica, ao conceito de descontrole frente às adversidades.

Você poderia questionar se estamos sendo sinceros em nossa suposição, pois ele poderia estar recitando aquilo que estudou na Lei do Senhor, ele poderia apenas estar orando firmando sua mente na Palavra de Deus.

Mas vamos pensar por um momento.

Deus chama Jonas e ordena que ele vá até Nínive para anunciar a mensagem de arrependimento, contudo, Jonas parte na direção contrária.

A situação havia se deteriorado e por qual motivo? Por conta da desobediência de Jonas e da dureza de seu coração em levar a mensagem de salvação a os ninivitas.

Diante disto qual seria a posição mais coerente?

Não deveríamos ver Jonas clamando ao Senhor para que lhe conceda o perdão e lhe permita cumprir sua missão?

E quantas vezes lemos qualquer referência, na oração, à sua missão ou aos ninivitas? Ou ainda, quantas vezes você é capaz de ler acerca do arrependimento de Jonas?

Exatamente, nenhuma!

Jonas havia desobedecido a Deus, mas nenhuma vez lemos ele rogando o perdão do Senhor.

E um agravante, sua missão era pregar na cidade de Nínive, contudo, ele não se refere a ela uma única vez, ele não se importa com a salvação daquele povo.

A oração, que muitos entendem como sendo um clamor arrependido, apenas nos aponta o real estado de seu coração duro e impenitente.

E, além disso, foi preciso que o Senhor chamasse, novamente, Jonas para cumprir sua missão (Jonas 3.1-2).

Qual seria a reação de alguém, verdadeiramente, arrependido? Com toda certeza partiria de imediato para Nínive a fim obedecer a ordem de Deus, no entanto, não é isso que observamos.


Jonas assenta-se para o espetáculo

Ao sair da cidade e se assentar a fim de aguardar sua destruição Jonas revela o desejo cruel de seu coração.

Então Jonas saiu da cidade, e sentou-se ao oriente dela; e ali fez uma cabana, e sentou-se debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade.

Jonas 4.5

Acredito que, a contragosto, Jonas chega na grande cidade de Nínive e começa a anunciar a mensagem, no entanto, alguns pontos me chamam a atenção.

  1. Jonas não se esforça muito para chamar o povo ao arrependimento, no capítulo 3 e versículo 3 lemos que a cidade de Nínive era tão grande que, para cruzá-la, eram necessários três dias de caminhada, contudo, no versículo 4 lemos que Jonas permanece apenas um único dia em sua missão;
  2. A mensagem de Jonas é um tanto estranha diante de outros textos proféticos. Quando Deus chama o povo ao arrependimento, através de seus profetas, Ele sempre apresenta a maldade e o pecado do povo, o caminho para a salvação e as consequências da desobediência. Contudo, Jonas apresenta apenas a destruição que Deus traria. “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (3.4).

Além de não percorrer toda a cidade Jonas não apresenta o arrependimento ao povo, ele apenas declara que todos serão destruídos, mortos, exterminados da face da terra.

Seu interesse não é que o povo se arrependa, pelo contrário, seu desejo é que Deus os destrua completamente, que elimine e mate cada um daqueles homens e mulheres.

No entanto, ao ouvir a mensagem de destruição e de condenação a cidade se comove e reconhece seu pecado.

O próprio rei se despoja de suas vestes, convoca um jejum e, junto de todo homem e mulher, rico ou pobre, se assenta sobre as cinzas e roga o favor e perdão do Senhor Deus.

Porém, ao contrário do que um missionário apaixonado pelas almas faria, Jonas sai da cidade ressentido e, pela segunda vez, ora ao Senhor.

Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal

Jonas 4:2

Seria esta uma oração proveniente de um coração arrependido por ter desobedecido à palavra de Deus? Não, claro que não!

Jonas se enfurece pela salvação dos pecadores, ele desejava a destruição de Nínive, a morte de homens e mulheres.

Sua oração apenas revela o ressentimento que havia em seu coração e a falta de amor pelos perdidos.

Ele não fugiu para Társis a fim de se esconder de Deus, ele fugiu para não levar a mensagem de arrependimento e, desta maneira, evitar que o povo alcançasse a salvação.

Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso.

Enquanto os homens e mulheres de Nínive alcançavam a graça e a misericórdia de Deus, Jonas permanecia em sua dureza de coração, em seu desejo descabido pela destruição e pela desgraça alheia.

O profeta se lamenta ao ver que Deus havia agido com misericórdia para com os ninivitas.


Deus não necessitava do entusiasmo ou esforço de Jonas

A pregação de Jonas foi uma clara demonstração de sua falta de compromisso com a mensagem que levava.

Ele necessitaria de três dias para proclamar a mensagem de arrependimento, mas se empenha apenas um.

A melhor comparação que podemos fazer é com aquela criança birrenta que, diante da impossibilidade de agir de outra maneira, faz com desdém o que lhe é ordenado.

Ele deveria ter anunciado a misericórdia e a graça divina disponíveis aos pecadores arrependidos. Mas apenas se dedica à proclamar a sentença que seu coração desejava: a morte e destruição.

Contudo, ao contrário do que Jonas imaginava, Deus quebranta o coração daqueles homens e mulheres e isso nos ensina a primeira importante lição.

Deus não depende de meu entusiasmo missionário. Jonas até poderia estar pensando que, por dedicar apenas um terço do esforço necessário para anunciar a sua mensagem, estaria de alguma forma atrapalhando Deus.

O Senhor, no entanto, lhe demonstra que a Sua mão não necessita de homens e que, mesmo que estes tentem atrapalhar ou boicotar a proclamação das boas novas de salvação, Sua vontade sempre prevalecerá.

Em seu orgulho exclusivista Jonas se esqueceu que é Deus quem salva, é dEle que provém a graça e a misericórdia.

Da mesma maneira que o Senhor havia chamado para si um povo Ele também poderia salvar outros mais.

A pouca dedicação de Jonas em pregar foi o suficiente para Deus quebrantar completamente aqueles corações pecaminosos.

Enquanto Jonas acreditava estar atrapalhando, Deus estava lhe mostrando que, diante de Sua Soberana Graça, ele não era absolutamente nada.


Jonas, o arauto da desgraça

Jonas não anunciou as boas novas da salvação, pois ao anunciar a desgraça e a destruição que estava reservada para Nínive ele pretendia espantá-los da misericórdia divina.

Embora saibamos que Deus há de julgar vivos e mortos, Cristo nos chamou para anunciar as boas novas, a bendita esperança e a graça misericordiosa do Pai Eterno.

O problema, contudo, não está em anunciar o juízo vindouro ou o terrível estado de condenação em que se encontra o perdido, porém se não houver a proclamação da salvação por intermédio da fé em Cristo Jesus estaremos apenas anunciando uma má notícia.

O alicerce do Evangelho está pavimentado na mensagem de que o Reino de Deus chegou até nós e que, em resposta à manifestação do Santo, somos chamados ao arrependimento.

É inevitável, contudo, deixarmos de tocar em questões referentes ao juízo, à justiça e à ira de Deus.

Quando o Santo toca o impuro, o Atemporal aproxima do temporal, se não houver a mediação de Cristo, tudo o que teremos é pavor e terror.

Como escreve Sproul em seu livreto “Deus é Santo“, em nossa alma pecaminosa há um trauma da santidade que nos faz querer afastar de Deus.

Santidade provoca ódio. Quão maior a santidade, maior será a hostilidade humana contra ela.

Sproul, R. C. Deus é santo! Como posso me aproximar dEle? pag. 58.

A graça de Deus manifesta em Jesus Cristo e cujo Evangelho que anunciamos se estrutura nos leva para perto do Santo e, antes que possamos responder com ódio e terror, retira de nós nossos pecados, a fonte de todo o trauma contra a santidade, e nos torna aptos para desfrutar da graciosa Presença do Eterno.

Mas, ao contrário de um bom pregador de nossos dias, Jonas apenas apresenta o Santo Deus e a Sua justa Ira. A misericórdia e a porta para salvação ele deixa de lado.


Jonas hoje

Ao contrário de Jonas, que precisou sair de seu povo, nós vivemos dentro de Nínive, estamos cercados por homens e mulheres tão terríveis quanto aqueles que habitavam aquela cidade.

Contemplamos a crueldade de seus corações diariamente, nos iramos com a perversidade de suas mentes e nos horrorizamos com a naturalidade do pecado em suas vidas.

E, assim como Jonas, corremos o sério risco de desejar apenas o derramar da ira de Deus sobre essa geração incrédula e cruel.

Fomos chamados por Cristo para anunciar as boas novas da salvação, não cabe a mim ou a você a responsabilidade de sentenciar homens ou mulheres.

Isso não significa, contudo, que não devemos condenar o pecado, um evangelho que não chama os pecadores ao arrependimento não pode ser considerado uma boa nova.

Nosso papel como arautos da verdade é proclamar a salvação a todos os homens, indiferente se ele já roubou, matou, estuprou, se é mentiroso, corrupto, avarento, homossexual ou viciado.

Deus nos chama para anunciar a salvação em Cristo Jesus, o arrependimento dos pecados e o início de uma nova vida guiada pelo Espírito Santo.

Diante disto devemos clamar o auxílio constante do Senhor, pois a depravação humana que vemos todos os dias e o nosso desejo por justiça pode nos levar a agir como Jonas.

Não seja como Jonas, não deseje a morte de um ímpio sabendo que ela o conduzirá ao inferno, não condicione sua mente para um evangelho justiceiro, um evangelho que proclama apenas a desgraça sobre a alma humana.

E, o mais importante de tudo, não seja como Jonas, ou como o filho mais velho da parábola de Jesus.

Não se ire com o arrependimento dos perdidos, mas junte-se ao Pai em sua comemoração pela salvação das almas.

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