Desculpe se a Igreja não te feriu

Quantas vezes você já ouviu, leu, escreveu ou até mesmo falou “Desculpe se a Igreja te feriu”?

Embora seja uma bela frase há, embutida nela, alguns grandes problemas que revela a falta de compreensão sobre o que é a Igreja, sobre como a Igreja se comporta e qual é a mensagem que ela proclama.

Bem-aventurados sois quando vos perseguirem

No sermão do monte, ao apresentar os valores morais e espirituais do Reino dos céus, Jesus chama a atenção para a perseguição que todo discípulo estará sujeito a passar.

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo o mal contra vós por minha causa.

Mateus 5:11

Jesus deixa claro, o discípulo será perseguido por causa dEle, será maltratado, será alvo de mentiras, de calúnias e de toda forma de difamação.

O crente que não está disposto a ser alvo de chacotas, de perseguição e intolerância religiosa não está disposto a atender o chamado do Mestre.

Ao tratar sobre a conduta cristã em uma sociedade pagã, o Apóstolo Pedro declara “Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente” (1 Pedro 2:19).

Soa terrivelmente estranho aos nossos ouvidos a afirmação do Apóstolo, estamos imersos em uma cultura que não aceita, sob nenhuma hipótese, agravo ou injustiça. Corremos atrás de nossos direitos o tempo todo.

Mas o que Pedro nos apresenta é um princípio moral completamente diferente dos princípios deste mundo.

Ele não apenas declara que o sofrimento por amor a Deus é agradável como também escreve que é essencial e necessário ao seguidor de Cristo.

Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas.

v. 21

Pedir desculpas a alguém por ter sido ferida por amor ao Evangelho de Jesus não passa de uma incompreensão terrível do que, realmente, é o cristianismo.

Você não foi chamado por Cristo para ser poupado(a) das perseguições, pelo contrário, “… para isto sois chamados” para padecer por amor ao evangelho.

Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele.

Filipenses 1:29

E embora o contexto apresentado por Pedro, Paulo e Jesus diz respeito à perseguição encabeçada pelos infiéis, não devemos descartar a realidade da perseguição dentro do ajuntamento dos fiéis.

Da mesma maneira que o discípulo de Cristo é perseguido em meio aos ímpios, ele também será perseguido por falsos pastores e falsos irmãos.

No entanto, isso não representa motivo algum para pedirmos desculpas ao que foi “ferido” pois:

  1. Os falsos pastores e os falsos irmãos não representam a Igreja de Cristo e, portanto, suas ações não são respondidas pela Igreja verdadeira;
  2. A perseguição sofrida pelo discípulo verdadeiro, como supracitado, não apenas é necessária, mas também é uma marca evidente de seu chamado;
  3. E, por fim, se o crente não está disposto a sofrer por Cristo, também não estará preparado para reinar com Ele (2 Timóteo 2:12).

O individualismo do cristão hedonista

Escrevendo à Igreja de Corinto o Apóstolo Paulo, ao tratar sobre a liberdade cristã, declara “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm: todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Coríntios 10:23).

Grande parte do problema seria resolvido se compreendêssemos que uma vez em Cristo não é mais a minha vontade, o meu desejo e os meus objetivos que devem imperar.

Agora faço parte do corpo de Cristo e, portanto, não devo buscar “… proveito próprio”, mas devo priorizar o que “… é de outrem” (1 Coríntios 10:24).

Afirmar que foi ferido pela igreja simplesmente porque a minha vontade não foi feita é não compreender que, por amor aos irmãos, devo suprimir, quando necessário, a minha própria liberdade.

Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar.

1 Coríntios 10:33

O que o Apóstolo Paulo declara não é que ele diluía o evangelho a fim agradar aos seus ouvintes, mas que, por amor às almas, ele suprimia sua liberdade em favor delas, com o propósito de não criar empecilhos à pregação da palavra.

Contudo, em uma sociedade terrivelmente individualista, não é raro encontrarmos cristãos professos que, movidos pelo argumento da liberdade proporcionada pela graça, acusam a Igreja de ser intolerante, ignorante ou retrógrada simplesmente por não estarem dispostos a negarem a si mesmos.

A graça de Cristo não nos liberta para viver como desejarmos, mas para vivermos conforme Deus deseja!

Alegria em meio às feridas

Escrevendo à Igreja de Filipos o Apóstolo Paulo professa sua alegria ao saber que os irmãos, ao tomarem conhecimento de sua prisão, passaram a anunciar com ousadia o Evangelho.

Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa mente;

Uns por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho.

Mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões.

Filipenses 1:15-17

O Apóstolo estava preso por amor ao evangelho de Jesus e, em sua ausência, alguns começaram a anunciar a palavra de Deus, não por amor, mas com o objetivo de remover o Apóstolo Paulo de cena.

Diante da ausência do Apóstolo dos gentios, aqueles irmãos, visando o próprio benefício, passaram a anunciar o evangelho.

Seria um excelente motivo para o Apóstolo Paulo sentar num canto, desistir de tudo, abandonar a Igreja e acusar os irmãos de terem ferido o seu coração. Mas o que ele escreve?

Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou com verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei

[…]

Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.

v. 18, 21

Ao contrário do que os cristãos individualistas de nosso tempo fariam, Paulo declara “que importa”, se abstêm de requerer seus direitos, se contenta e declara que assim como Cristo negou a sua própria vontade em favor dos pecadores, ele estaria disposto a nega-la enquanto nEle vivesse.

O chamado do Mestre vai na contramão de tudo o que temos por certo e coerente. Ele declara aos discípulos perseguidos “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mateus 5:12).

Se você age como se a Igreja tivesse que se curvar diante da sua vontade esqueceu que, dentro do corpo, o que deve ser feito não é o que você quer, mas o que Deus determina.

O grande problema de nossa sociedade é a incapacidade de olhar para fora do próprio umbigo.

Acreditamos que o mundo gira entorno de minhas carências e que toda e qualquer forma de negação à minha vontade é uma agressão à minha própria existência.

O Evangelho mata para então dar vida

Deus é amor, algum cristão pós-moderno, afirmaria. Contudo a pregação do evangelho não se articula entorno do amor de Deus, mas no arrependimento dos pecados.

Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

Mateus 3:2

Não há como conceder ao pecador a verdadeira vida sem antes matar o velho homem. A pregação do arrependimento não é um acordo entre as partes, não é Deus assinando concessões diplomáticas, é o Senhor ordenando a mudança de vida, o abandono do pecado e a morte da velha natureza.

Não encontramos, em momento algum, os apóstolos declarando em suas pregações outra coisa a não ser o chamado ao arrependimento.

Para receber a cura necessária o seu coração deve primeiro ser dilacerado pela espada que sai da boca de Deus, suas convicções devem ser abaladas, suas ideologias devem ser destruídas e o seu ego deve ser aniquilado.

Pregar contra o pecado fere o ego adâmico do homem, pois o coloca despido diante de um Deus que vê as intenções do coração e nos declara culpados por transgressão.

Condenar a depravação moral do homem iníquo irá machucar seu coração depravado, não apenas o fará sangrar, mas também o destruirá por completo a fim de remover toda a raiz de iniquidade.

Se contentar em pregar a imagem de um Deus de amor que não se importa com o pecado, pois do contrário estaria ferindo o sensível coração do pecador que caminha para o inferno, é deturpar terrivelmente o propósito do Evangelho.

O que é a Igreja?

Como dizia o velho ditado “andorinha sozinha não faz verão”, ao contrário do discurso em voga, o propósito de Deus não é trabalhar de forma pontual e isolada em vários indivíduos que se autoproclamam igreja e removem a necessidade da comunhão.

Não há igreja sem uma comunidade de fé, não existe igreja de um homem só!

E estar disposto a caminhar junto de pessoas com pensamentos, opiniões e visões completamente diferentes da nossa é um extremo desafio e um excelente meio de amadurecermos em todas as áreas de nossas vidas.

É estranho, senão diabólico, pensar que a “igreja” idealizada na mente de muitos não é aquela que caminha rumo à perfeição em Cristo apesar de suas inúmeras falhas, mas sim aquela que, abraçando todas as falhas, prefere se contentar em rebaixar a perfeição de Cristo.

A igreja local não é um ajuntamento de santos infalíveis, mas sim um grupo de pecadores que estão caminhando, com o auxílio do Espírito Santo, rumo à perfeição e, neste processo, é esperado que atritos e problemas surjam.

E se engana quem acredita que os problemas na igreja são resultado da institucionalização realizada no terceiro século ou que nos afastamos do modelo ideal da Igreja Primitiva, pois esta não tinha problemas.

Basta uma leitura rápida em Atos e nas cartas paulinas para percebermos sérios e graves vícios e distúrbios dentro das comunidades de fé.

Na realidade, não teríamos grande parte do material bíblico presente no Novo Testamento se não existisse a necessidade de apaziguar as intrigas ou de combater comportamentos indesejados dentro das igrejas do primeiro século.

Simplesmente acusar e rejeitar a Igreja por estar repleta de pecadores hipócritas não passa de uma constatação da realidade, mas sob uma ótica completamente deturpada.

Pois não reconhecer que as falhas e pecados estão sendo progressivamente tratados é não compreender a forma como o Senhor trabalha no desenvolvimento de Seu povo.

Aqueles afirmam que a Igreja está repleta de pecadores seriam os mesmos que, num cenário hipotético, a rejeitariam por estarem cheias de homens e mulheres excessivamente pios.

Devemos, contudo, fazer uma ressalva. Até aqui estamos tratando da Igreja de Cristo, de homens e mulheres que apesar de serem falhos e pecadores, e de estarem sujeitos ao erro, buscam caminhar da forma mais centrada e piedosa possível.

Nosso objetivo aqui não é “passar pano” para falsos cristãos que profanam o Nome de Cristo com suas vidas imorais, que mancham o evangelho com suas vidas.

Quando falamos de erros, pecados e falhas da Igreja e como isso é normal no sentido de que estamos tratando de pessoas imperfeitas, temos em mente o trigo e não o joio.

A Igreja deve te ferir

Sim, a igreja deve e tem que te ferir. Somente através da comunhão, repleta de atritos, com os irmãos que seus vícios serão tratados, seu caráter será forjado e sua conduta se alinhará.

Como o ferro com ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo.

Provérbios 27:17

Se não estivermos dispostos a sermos feridos, forjados e lapidados, não alcançaremos jamais a estatura de um cristão perfeito.

Não nos desenvolveremos como cristãos e não cresceremos espiritualmente se, toda vez que formos afiados em nossas igrejas locais, preferirmos colocar nosso ego acima da vontade de Deus e voltarmos emburrados para casa.

Após tomar conhecimento de graves falhas e pecados dentro da Igreja de Corinto o Apóstolo Paulo escreve sua primeira carta exortando-os severamente, reprovando-os em muitas de suas ações.

Mas, quando lemos sua segunda carta, percebemos que o tom do Apóstolo é outro. A sua exortação e as duras palavras, provocaram a mudança esperada naqueles corações adormecidos pelo pecado.

Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para o arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.

2 Coríntios 7:9

A Igreja de Corinto foi duramente ferida pelas palavras do Apóstolo para então ser capaz de experimentar a verdadeira cura promovida pelo Espírito Santo.

O Apóstolo não declarou “Deus te ama como você é”, não passou a mão na cabeça dos irmãos e os aceitou em seus pecados. Pelo contrário!

Em nossa caminhada é necessário que sejamos confrontados e repreendidos, pois “… o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6).

Indiferente se você está sendo perseguido por falsos pastores e irmãos simplesmente por defender o Evangelho, se você está sendo confrontado com a verdade da Palavra de Deus ou se seu ego está sendo esvaziado pelos anciões na fé, se esconder atrás da desculpa “estão me ferindo” não o levará a lugar algum em sua caminhada rumo à Glória, mas apenas demonstrará que “sois então bastardos, e não filhos” (Hebreus 12:8).

Como a Igreja não deve ferir?

Perceba, no entanto, que não estamos defendendo a ideia de que alguém deva ser perseguido, afrontado ou agredido emocionalmente pela comunidade de fé, mas mesmo que isso ocorra (e se for por amor à justiça) podemos aplicar os conceitos anteriormente apresentados.

A igreja local não deve ser um ambiente inóspito, hostil, árido e pouco receptivo à alma humana, pelo contrário. Contudo isso não é sinônimo de relativização da verdade bíblica e dos valores morais absolutos estabelecidos por Deus.

Embora saibamos que todas as relações humanas estão sujeitas aos problemas, uma vez que o pecado original corrompeu completamente a maneira como o homem se relaciona, devemos entender que a Igreja de Cristo não deve ser um ambiente de opressão e de controle abusivo.

Há uma longa diferença entre condenar o pecado, pregar contra uma vida de iniquidade e perseguir alguém, controlar possessivamente a vida de um membro ou destruir as emoções de uma pessoa.

Se você deseja seguir ao Mestre e ser um discípulo dEle será inevitável as feridas, se você deseja crescer como cristão é necessário que você seja lapidado e forjado.

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