A besta, o falso profeta e a adoração ao Estado

Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela? E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão.

Apocalipse 13:4, 11

Embora não creia que estejamos vivendo o Apocalipse ou os eventos referentes à Grande Tribulação indicados por Cristo no Sermão Profético, entendo que todas as catástrofes, as crises e as movimentações políticas são, de algum modo, arquétipos do que ainda há de vir [1].

Sendo assim iremos, com as devidas proporções, buscar compreender as figuras utilizadas pelo Apóstolo João em Apocalipse 13 como ponto de partida para assimilarmos a obsessão política/religiosa de muitos adeptos do cristianismo.

É necessário ressaltar que este artigo não busca esgotar os assuntos relacionados à escatologia, religião e Estado, pelo contrário, trata-se apenas de uma breve reflexão sobre o cenário de nossa nação no contexto religioso e político.

A besta que subiu do mar

… e vi subir do mar uma besta

Apocalipse 13.1

O Apóstolo João se coloca na praia e vê subindo do mar uma besta, um animal completamente distinto de qualquer outro que ele já tenha visto e, em sua descrição, ele declara que ela era semelhante ao leopardo, seus pés pareciam de urso e a sua boca era semelhante à boca do leão (v. 2).

Para um leitor cuidadoso a descrição dada pelo Apóstolo João soa bastante familiar e, de fato, ele não está apresentando uma ideia nova ou uma visão exclusiva.

O profeta Daniel, no século quarto antes de Cristo, já havia pisado na mesma “areia profética” e visto a mesma besta subir do mar.

Eu estava olhando, na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu combatiam no mar grande. E quatro animais grandes, diferentes um dos outros subiam do mar.

Daniel 7:2,3

A descrição fornecida pelo profeta aos quatro animais nos remente, inevitavelmente, à besta descrita por João no Apocalipse, mais precisamente ao quarto animal visto por Daniel e que, agora, se levantava diante de João em Apocalipse.

Mas o que ou quem seria a besta que subia do mar?

O próprio Deus nos revela a identidade dos animais em Daniel e, desta forma, nos fornece a chave para a compreensão do texto do Apóstolo João.

No versículo dezessete lemos que os “… grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra”.

A primeira parte da compreensão é fornecida de maneira muito clara, os quatro animais são representações proféticas do poder de quatro reis que se levantariam sobre o mundo.

Desta forma podemos afirmar que a besta vista por João no Apocalipse representa um governante que se levantará no mundo.

Entretanto, mesmo diante da resposta conclusiva sobre a figura do quarto animal, o profeta Daniel questiona acerca de sua identidade.

A resposta lhe é dada, o quarto animal será o quarto reino na terra, diferente de todos os outros, será de domínio global, devorará e pisará todo o mundo (v. 23).

O profeta Daniel registra ainda que deste reino se levantarão dez reis, que são as dez pontas ou chifres, mas que após eles se levantará um, diferente dos outros, que destruirá três destes reis e se tornará grande e influente (v. 24).

Este rei professará blasfêmias contra Deus, perseguirá e destruirá os santos, desejará mudar os tempos e as leis estabelecidas pelo Altíssimo e seu poder será de “um tempo, e tempos, e metade dum tempo” ou, como o Apóstolo João escreve, durará “quarenta e dois meses” (Daniel 7:5; Apocalipse 13:5-7).

A besta que subiu da terra

E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão.

Apocalipse 13:11

Agora João está diante de outra besta, diferente da primeira, esta não dominava os homens com o poderio político, mas com a religião.

E a besta foi presa, e com ela o falso profeta, que diante dela fizera os sinais, com que enganou os que receberam o sinal da besta, e adoraram a sua imagem.

Apocalipse 19:20

Engana-se os que pensam que o objetivo máximo de Satanás é destruir a religião, extingui-la da face da terra.

Equivoca-se, mais ainda, aqueles que creem que retirar o culto à divindade da sociedade é a demonstração máxima da evolução humana ou que, inevitavelmente, todos abandonaremos as “práticas primitivas”.

O ser humano é um ser religioso, substitua Deus por qualquer outro propósito ou objetivo e você tem a sua religião.

Compreendendo essa questão, mesmo que superficialmente, entenderemos um pouco mais os versos seguintes da profecia do Apóstolo João.

Após apresentar a figura da segunda besta, ou o falso profeta, João declara que o seu propósito e objetivo será enganar os habitantes da terra para que eles adorem a imagem da primeira besta sob pena de morte aos que lhe desebodecer.

Ao longo da história inúmeros arquétipos do anticristo se levantaram, desde os imperadores romanos que exigiam culto à sua pessoa, até figuras como Adolf Hitler ou Stalin e, sabendo o que aconteceu no passado, conseguimos projetar o futuro (mesmo que imprecisamente).

Insira na mesma equação poderio político e militar, adicione um pouco de humanismo e encontramos o cenário perfeito para que o espírito do anticristo se desenvolva.

A besta que subia do mar era imponente, poderosa, ninguém podia batalhar contra ela.

Por sua vez, a besta que subia da terra enganava os homens com sinais, prodígios e maravilhas (v. 13), conduzindo os homens à adoração do anticristo, adoração ao homem, ao seu poder, à sua glória e aos seus feitos.

Retire Deus da equação e o ser humano passará a adorar e venerar qualquer outra coisa: a ciência, o poder, o dinheiro, os prazeres, o Estado ou, em casos evidentes de uma entrega ao sistema do anticristo, adorarão aos políticos.

Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis .

Apocalipse 13:18

Ao contrário da direção seguida por muitos, o número da besta apresentado pelo Apóstolo não se trata simplesmente de uma sequência numérica, de um código de barras ou de um chip implantado na mão.

Da mesma forma que há homens que têm “assinalado nas testas [a identificação dos] servos do nosso Deus” (Apocalipse 7:3 – Leia também Ezequiel 9:3-5), haverá também aqueles que receberão, da besta, “um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas” (Apocalipse 13:16).

O conceito é muito mais profundo do que apenas uma marca física, é mais amplo do que apenas uma identificação eletrônica.

A marca da besta apresentada pelo Apóstolo João é resultado direto da submissão e adoração dos homens à imagem da besta. Trata-se de uma ação consciente e voluntária ao sistema instaurado pelo anticristo e pelo falso profeta.

Portanto, o reconhecimento coletivo da pessoa do anticristo, a adoração à sua imagem e a aceitação da identificação que assinala os simpatizantes de seu sistema político-religioso representa a última e fracassada tentativa do coração perverso humano em seu intento de se edificar, tocar os céus e de fazer um nome para si (Gênesis 11:4).

Adoradores do Estado

Chega a soar terrivelmente pecaminoso a adoração obsessiva da “massa cristã” à figura de um político salvador da pátria escolhido para representar Deus na terra.

Mas o mais assombroso ainda é que estamos assistindo o ensaio para o ato final da história humana encenado pela massa autointitulada cristã e pelos poderes estatais na figura política de um ser humano.

O que afirmo, contudo, não é que como cristãos devemos nos retirar das esferas públicas ou que devemos limitar nossa atuação apenas ao contexto privado e ao culto público.

Dirijo-me aos que, cegamente, abraçam a figura de um político como sendo a própria figura de Deus e é aqui que se encontra o sinal que, anos a fio, temos desprezado e que de maneira inequívoca apresenta o desenrolar da preparação para o fim.

Ao tratar sobre a vinda de Cristo e a manifestação do anticristo o Apóstolo Paulo nos apresenta dois sinais claros que nos indicaria a proximidade do fim: a apostasia e a operação do mistério da injustiça (2 Tessalonicenses 2:3, 7).

O mundo não vai melhorar, a Igreja não triunfará conquistando os montes e promovendo uma purificação espiritual e moral.

Se você acha que estamos vivendo os piores dias da humanidade tenho uma dura realidade para lhe apresentar.

Se Jesus demorar (mais) cem anos para retornar veremos, no transcorrer do século, uma vertiginosa e irremediável espiral decrescente de imoralidade, pecado e iniquidade, em outras palavras, há espaço de sobra para piorar.

Paulo é enfático ao escrever “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia” (2 Tessalonicenses 2:3).

O afastamento da verdade e o abandono da fé juntamente com a operação da iniquidade são sinais claros e inquestionáveis do fim e quer uma evidência clara e inequívoca de apostasia senão a substituição da figura do Cordeiro de Deus pela figura ideológica política?

Ao tratar sobre a ascensão do anticristo e a sua aceitação o Apóstolo Paulo declara que o próprio Deus enviará a operação do erro para que, todos aqueles que não creram na verdade, sejam julgados por seus pecados e por seus corações entregues à iniquidade (2 Tessalonicenses 2:9-12).

Se retirarmos Cristo de evidência, removermos a autoridade da Sua Palavra e subtrairmos a Sua vontade tudo o que nos resta é apenas uma casca fina de religião disponível para ser preenchida por qualquer outra coisa que se declare a solução para todos os problemas.

Mas a realidade é que, lamentavelmente, ao agir desta maneira aqueles que pensam estar abraçando a Vontade de Deus estão, na realidade, preenchendo seus corações com a operação do erro e preparando suas mentes para aceitar ao iníquo.

[1] Indiferente se seu posicionamento escatológico pende para o pós-tribulacionismo ou para o pré-tribulacionismo é inegável o fato de que os eventos descritos nas Escrituras e identificados como “A Grande Tribulação” ainda não iniciaram e o Apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 2 nos indica o motivo disto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.