Mentira, você não é dono(a) do seu corpo!

“E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” – Romanos 6.18

Em um mundo depravado e cada vez mais mergulhado em um estilo de vida hedonista, não é de se admirar que encontremos paroleiros que reclamam para si o governo de seu próprio corpo.

Embora o objetivo deste artigo não seja contestar a validade de tais ideologias (uma vez que frente ao evangelho todas caem) devemos compreender que todo homem ou mulher que clama para si o controle de seu próprio corpo como uma carta de sentença para utilizá-lo para o fim que bem desejar está, na realidade, se enganando com uma falsa sensação e aparência de liberdade e, na realidade, estão apenas se emaranhando em sua própria vontade perniciosa.

No entanto, é válido para um cristão afirmar que, pela Graça de Cristo, somos libertos para fazer o que bem entendemos de nossos corpos?

Absolutamente não! E lhe apresentaremos alguns motivos.


O que a Graça não é

Em momento algum a Bíblia Sagrada delineia ou apresenta a graça como uma carta branca assinada por Deus que nos remove do estado de condenação para uma liberdade absoluta de nossas próprias vontades, paixões e desejos onde tudo podemos em nome de nossa liberdade em Cristo.

Ao afirmar isso não queremos, no entanto, parecer que cremos em alguma espécie de legalismo, pelo contrário. Contudo é necessário compreender que Deus não nos libertou para nós mesmos, mas para Ele.

Sendo assim a graça não é um regime de exceção onde todas as consequências do pecado e da rebelião velada contra Deus foram suspendidas em nome da liberdade de nossa vontade.

A graça que justifica o pecado e não o pecador não é a graça projetada por Deus, mas como declara Bonhoeffer, trata-se de uma graça barata, uma graça que não é capaz de transformar o homem.

Todo aquele que declara que Deus ama o ser humano em seus pecados e que, portanto, a justiça de Cristo lhe é imputada sem que este passe a odiar o pecado está, na realidade, pregando uma graça projetada por Satanás, uma graça cujo poder justificador não é capaz de libertar o homem de sua escravidão.

A graça que não transforma o coração humano ao ponto deste desejar abandonar o pecado não é graça.

Lamentavelmente em tempos de evangelho do coach, das mensagens melosas e da exacerbação do homem, não é difícil localizar aqueles que, munidos da graça barata, não encontram forças para abandonar seus pecados e, diante deste desastre, justificam seus pecados utilizando uma compreensão equivocada da graça e liberdade concedidas por Cristo.


Do que Cristo nos libertou?

Em primeiro lugar Cristo não morreu para te fazer feliz, para te conceder tudo o que você pensar ou para fazer aquilo que você deseja.

Cristo morreu para que você saia de sua rebelião velada contra Deus!

A morte de Cristo, como meio de interferência divina em nossa história, teve por objetivo primário a restituição da comunhão entre Deus e o Universo criado e, com isso, abriu a possibilidade aos homens para que deixem sua rebelião e se aliem ao Reino.

Ao escrever acerca da idolatria e da depravação dos gentios o Apóstolo Paulo afirma que, por não desejarem conhecer a Deus, o próprio Senhor os abandonou em suas paixões infames (Romanos 1.28).

Isso nos revela que a vontade humana, corrompida pelo pecado, é a grande prisão da qual Cristo nos liberta.

O Apóstolo Paulo deixa bastante claro que, ao morrer com Cristo no batismo, passamos a ser uma nova criatura (Romanos 6.4). Nossa nova natureza já não possuí o controle absoluto sobre nossa vontade.

Cristo nos liberta de nossa própria vontade perniciosa, de nossa própria obsessão pelo controle desregrado de nossas vidas.

Agora não sou mais eu que vive, pois meu “eu” morreu com Cristo, agora quem vive é Cristo em mim.

E uma vez que Cristo vive em mim não são minhas vontades que devem controlar minha vida, mas a vontade de Cristo é a única que tem o direito de fazê-lo.


Feitos servos da justiça

O Apóstolo Paulo é extremamente claro ao declarar que, após sermos libertos do pecado, passamos a ser servos da justiça (Romanos 6.18). O conceito de servo aplicado a este texto está ligado ao conceito de propriedade.

Servo (substantivo masculino) - do latim servus.


adj.

1. Que não tem a livre disposição da sua vontade, dos seus pensamentos, dos seus atos.

2. Que presta serviços de criado; servente, serviçal, servidor.

3. Que vive sob o domínio de um senhor; escravo.


Dicionário Michaelis

Paulo declara que antes éramos propriedade do pecado e, por este motivo, não respondíamos à justiça (Romanos 6.20).

E, uma vez libertos do pecado, passamos a ser propriedade de Deus. Isso significa, portanto, que não respondemos às nossas próprias vontades, mas à vontade de Deus.

Não somos mais escravos do pecado, agora somos escravos de Deus.

O conceito de escravidão tem sido carregado de um passado histórico sombrio, principalmente em virtude de nossa história colonial e da escravidão africana.

Mas ao se apropriar deste conceito o que Paulo possuía em mente era a ideia de homem e mulher que responde somente a um senhor.

Fomos libertos do pecado e agora somos escravos de Deus. E isso possuí implicações sérias na maneira como vivemos:

  1. Se compreendo que Deus é Senhor daqueles que compartilham comigo a mesma fé em Cristo então, como servo, não possuo o direito de me sobrepujar e de dominar meus conservos e;
  2. Não devo conceber a ideia de que em mim reinam minhas próprias regras, pois já não pertenço a mim mesmo, mas aquele que me comprou.

Seu corpo não é seu

Ao requerer para si o controle absoluto do corpo, a fim de fazê-lo o que bem desejar, o homem demonstra que, em sua vida, sua própria vontade ainda reina.

E, uma vez que todos estão debaixo do pecado (Romanos 3.9-20), ao colocar a vontade humana como senhor soberano do corpo o homem apenas se lança no engodo de liberdade enquanto se embaraça, cada vez mais, com o perverso sentimento a qual Deus o entregou (Romanos 1.28).

A vontade humana está completamente cativa pelo pecado, está embaraçada com a iniquidade. Enquanto se firmar em sua própria vontade, o ser humano continuará, perpetuamente, pecando contra Deus e se afastando da liberdade absoluta  do Evangelho.

Para isso Cristo morre, para remover o controle e assumir o rumo de nossas vidas. Conforme Ele mesmo declara, por meio de Sua morte somos livres (João 8.22).

O paralelo entre a liberdade proposta por Cristo à nossa natureza pecaminosa está explicitamente declarado em Gálatas 5.1:

“Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão”

O versículo destacado está inserido num contexto de combate ao legalismo, à justificação pelas obras da Lei.

Pois toda tentativa humana de remover de Cristo a responsabilidade e o controle absoluto da vida colocando-os sob nossos próprios ombros irá, inevitavelmente, se tornar escravidão pela vontade pecaminosa.

O Apóstolo Pedro declara que, pela sua morte, Cristo nos comprou para Ele (1 Pedro 1.18-19). E esta compra não diz respeito apenas aos bens espirituais disponíveis por intermédio da cruz, mas diz respeito, principalmente, à propriedade absoluta de Cristo sobre aquele que foi comprado com Seu sangue.

Cristo nos comprou da nossa “vã maneira de viver”, conforme escreve Pedro. Nossas antigas práticas agora não são nosso senhor, agora Cristo é o nosso proprietário.

Agora respondemos e obedecemos somente a Ele e às suas ordens. Fomos feitos servos da justiça, somos escravos de Deus. A responsabilidade de determinar o modo como vivemos não está mais sob nossa vontade caída, mas nas mãos do Espírito Santo de Deus.

Em mim agora não deve operar mais o “meu próprio desejo”, mas sim o desejo de Cristo.

Ao declarar que em seu corpo imperam suas regras, você está afirmando que sua vontade está em um patamar superior à vontade divina. E, portanto, os efeitos da morte de Cristo não são válidos em sua alma!

Os benefícios espirituais e eternos da morte de Jesus só são validados àqueles que, junto com os direitos, reconhecem a servidão da graça.

Fomos cativos pela verdade e isso implica a remoção violenta de nosso “eu” para que Cristo reine em nosso coração.

Não pertencemos mais ao império do pecado e ao controle do Adão caído, agora somos cidadãos dos céus e, toda cidadania, não vem sem princípios e sem leis.


A Lei de Cristo

Embora as leis dadas por Deus ao povo de Israel não vigore à Igreja, Paulo nos apresenta o que ele chama de “a lei de Cristo” (1 Coríntios 9.21).

O ponto central do conceito apresentado pelo Apóstolo se articula em sua compreensão sobre a relação entre liberdade e submissão cristã, “... nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si” (Romanos 14.7).

Fomos libertos de nossa vã maneira de viver, mas nossa liberdade deve estar condicionada ao bem-estar coletivo do Corpo de Cristo, “... cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação” (Romanos 15:2)

Ou seja, dentro de minha liberdade individual devo sempre colocar em primazia os membros do Corpo de Cristo a qual pertenço. Isso significa, portanto, que se necessário for devo suprimir minha própria liberdade a fim de evitar escândalos, desconforto ou qualquer oposição ao Reino.

Ao tratar sobre a questão das carnes oferecidas aos ídolos, Paulo declara que a liberdade que os cristãos possuíam e desfrutavam e que lhes permitia comer carne não poderia se tornar um meio de propagação de escândalos (1 Coríntios 8.9).

E ele ainda acrescenta “... se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” (1 Coríntios 8.10,11)

Isso implica que em meu corpo, mesmo sob a liberdade de Cristo, não possuo o direito de fazer o que bem entendo, primeiro porque minha vontade não está no controle e segundo porque, ao agir desta maneira, corro o risco de pecar contra o meu próprio irmão e, consequentemente, contra Cristo.

Paulo ainda declara: “... se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize” (1 Coríntios 8:13).

A compreensão do fato de que não pertenço a mim mesmo, mas a Cristo que me comprou e que toda vez que busco idealizar meus próprios desejos em meu corpo estou, na realidade, me prendendo ao jugo de minha vontade cativa, deve me levar ao entendimento de que, uma vez no Corpo de Cristo, as regras dEle e não as minhas serão impostas sobre meu próprio corpo.

Mesmo que isso signifique negar minhas próprias liberdades pessoais.