Pecadores nas mãos de um Deus amoroso

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16)

Faz algumas semanas que não publicamos nenhum artigo no Euaggelion, no entanto, durante este tempo estive refletindo acerca de um tema, algumas vezes esquecido, outras vezes deturpado: o amor de Deus.

Creio que, possivelmente, muitos já tenham ouvido falar do famoso sermão de Jonathan Edwards, “Pecadores nas mãos de um Deus irado” (a título deste artigo o parafraseia). Eu mesmo já o ouvi diversas vezes sob a narração de Josemar Bessa, mas embora concorde com grande parte que Edwards declara tenho que admitir que não endosso todo seu sermão.

Por dois motivos. O primeiro, Edwards traça o perfil, exacerbado, de um Deus que vive irado, com desejo de destruição, de sangue. E, segundo, ele reduz (ou anula) o amor de Deus pelo pecador. Na realidade, não há nenhuma referência ao amor de Deus em todo o sermão de Edwards.

De fato, devemos entender que Deus julga, condena e pune o pecador, não seremos levianos ao ponto de ignorar esta verdade. No entanto, Deus não é o ser psicótico que saliva sangue e destruição, tal como Edwards apresenta (mesmo que inconscientemente).

Mas então como reconciliar a ira de Deus, amplamente declarada nas escrituras Sagradas, com o amor?

Antes de prosseguirmos, compreenda que, em momento algum, Deus se viu obrigado, ou foi obrigado, a salvar a humanidade. A consequência do pecado era nossa, nós deveríamos lidar com ele e com suas trágicas cicatrizes.

Por que então Deus interfere neste cenário? Por que Ele interfere em nossa realidade de pecado e morte se Ele não possuía responsabilidade sobre nossa queda?

Existe apenas uma única resposta: o amor. Deus interfere em nosso cenário de desolação, morte e perdição eterna, pois Ele ama a humanidade. O simples ato de nos criar já nos demonstra o Seu eterno amor.

Deus não necessitava de nós, nossa existência em nada interferiria em seu eterno e imutável poder e glória. No entanto, ao criar o homem, ao criar Adão, o Senhor Deus desejou repartir, com um ser fora da Trindade, todo o eterno e imutável amor e glória nEle presentes.

O Senhor nos criou para ama-lo, e uma vez amando-o, seremos amados dEle (João 14:21) e desfrutaremos do mais puro e simples amor. Não fomos predestinados a ama-lo, caso contrário não seria amor, mas amamos ao Senhor apenas e tão somente porque Ele nos amou primeiro (1 João 4:19).

“Pensar que o homem ama ao Senhor por predestinação é, no mínimo, crer que Deus é um Ser carente e dependente de um sentimento virtual fora da Trindade. Jamais! Deus em momento algum necessitava ou dependia da criação humana para satisfazer algo, no entanto, ao fazê-lo Ele demonstra que, assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo se relacionam de maneira profunda um com o outro, nós seres humanos também podemos nos relacionar com Ele em liberdade por meio de Cristo Jesus”

Deturpando o amor de Deus:

Há, pelo menos, duas linhas de deturpação do amor de Deus. A primeira declara que, por Ele ser amor, no final todos serão alvos (eternos) dele. Ou seja, Deus por amar toda da humanidade salvará, irremediavelmente, a todos.

Esse pensamento teológico é identificado como universalismo. Deus ama tanto o homem que suprime os demais atributos para salvar a todos os homens, inclusive aqueles que já estão no inferno.

A segunda deturpação do amor de Deus está no extremo oposto da primeira. Deus, na realidade, não ama a todos os homens, nem ao menos deseja salvar todos os homens. Pelo contrário, segundo a visão conhecida como calvinismo, Deus ama apenas um pequeno grupo de seres humanos (o ponto de fundamentação do sermão de Edwards), e todo o restante é alvo de Sua eterna e irremediável ira.

Não concordo, biblicamente, nem com o universalismo, pois deturpa o amor de Deus ao declarar que todos serão salvos indiscriminadamente, nem como o calvinismo, pois declara que Deus não ama a todos.

Como compreender o amor e a ira de Deus então?

Biblicamente, o amor de Deus não se encontra no meio termo (entre universalismo e o calvinismo), mas sim num plano muito superior. Podemos sintetiza-lo da seguinte maneira:

  1. Deus amou a humanidade ao desejar cria-la;
  2. Deus cria o homem e o ama ao concedê-lo liberdade;
  3. O homem, ao abusar, da liberdade de Deus peca contra o Senhor;
  4. Deus, exercendo o seu infinito amor, sacrifica Jesus Cristo e;
  5. Proporciona uma eternidade ao Seu lado para aqueles que se submeterem ao Seu critério de salvação (Jesus Cristo).

Jesus Cristo e Seu sacrifício na Cruz do Calvário foi a demonstração máxima do amor e de ira de Deus.

O Senhor não precisava nos salvar, Ele não seria menos Soberano, Poderoso, Glorioso e Santo de entregasse a humanidade, eternamente, à perdição e ao pecado.

Contudo, Ele interferiu em nosso cenário, enviou Jesus para morrer e levar sobre si a ira que estava sobre nós. Deus sacrifica Jesus, pois somente nEle a aliança poderia ser mantida.

Desde Adão até Cristo as alianças entre Deus e os homens eram falhas, pois dependia da perseverança e permanência humana diante das ordenanças do Senhor.

Ao enviar e sacrificar Jesus, Deus retira o homem do primeiro plano. O escritor aos Hebreus declara que Jesus entra diante de Deus e oferece seu sangue em favor da humanidade (Hebreus 9:24-28).

Deus oferece o Cordeiro que venceria o império do pecado, o coloca na cruz e derrama sobre Ele a ira máxima do pecado, ou seja, a morte, este vence a morte, entra diante do Senhor poderoso e apresenta o Seu próprio sangue em favor da humanidade.

O homem se encontra em segundo plano na aliança da graça, somos os beneficiários dela e não os atores principais. Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo são os principais atores da graça.

Deus é aquele que proporciona o Cordeiro, Jesus é aquele que asperge o Seu Sangue para a remissão do pecado e o Espírito Santo é quem efetiva a morte de Cristo no coração do homem convencendo-o de seu estado caído e de sua necessidade de Salvador.

O amor de Deus está expresso no Sacrifício de Jesus Cristo. É um amor universal, derramado em prol de todos (sem exceção).

Ao tratar da Salvação em Cristo Jesus, o Apóstolo Paulo escreve em 1 Timóteo 4:10 as seguintes palavras:

“Porque para isto trabalhamos e somos injuriados, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens , principalmente dos fiéis ”

O versículo que introduzimos este artigo é uma declaração, simples, pura e clara, de que o Senhor amou todo o mundo, todas as pessoas, em todas as eras, ao ponto de sacrificar Jesus com o propósito de salvar todo aquele que crê.

Deus ama a todos os homens, de todas as eras e nações, contudo Ele não impõe Seu amor, caso contrário não seria amor. Cabe ao homem, diante do Sacrifício de Jesus, reconhecer sua necessidade e abraçar o maravilhoso, eterno e puro amor de Deus.

Somos todos pecadores nas mãos de um Deus amoroso, Ele nos amou, se entregou livremente por nós e deseja que todos os homens se salvem (1 Timóteo 2:6) para que, finalmente, desfrutem por toda a eternidade a expressão sublime do seu imutável amor.

Desfrute desta maravilhosa graça, deste maravilhoso amor de Deus. Que Deus vos abençoe, fique na Paz de Cristo Jesus.